quarta-feira, 11 de maio de 2011

Versos que lembram (2) Carl Sandburg

                                                            Carl Sandburg

Nos meus anos de Coimbra — mais exactamente, no ano da grande crise académica, 1962 — comprei um livrinho das Edições Tempo que era uma antologia poética de Carl Sandburg, traduzido por Alexandre O’Neill. Carl Sandburg era um ilustre desconhecido para mim, que não me recordava de ter visto em parte alguma o seu nome, não obstante o facto de ser aluno de Germânicas. Mas quê, nos bancos da faculdade, em termos de literatura americana, chegava-se a Walt Whitman — e viva o velho! Mas o Leitor sabe por que se compram livros às vezes: pega-se neles, folheiam-se, lê-se qualquer coisa que nos dá no goto e pronto, já está.
                O livro custou-me à época sete escudos e cinquenta centavos. Para a minha mesada de estudante não se pode dizer que fosse pouco. Mas nunca me arrependi de ter trocado umas partidas de bilhar no Rialto, ali ao Arnado, pela pequena antologia, que conservo e acarinho. Isto porque cada um dos poemas continua a fascinar-me como no primeiro dia. Ela revelava-me um novo e deslumbrante modo de poesia a-lírica, se assim me posso expressar.
                Acabei mesmo por eleger parte de um desses poemas (“Rápido”) para epígrafe do meu livro Que comboio é este.

Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançados através da pradaria, na névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
                “Omaha”, responde.

                Porque me lembram de quando em quando estes versos?
                Não é tanto o equívoco banal (como num diálogo de surdos) à volta do sentido duplo da palavra ‘destino’. O povo da minha terra diz que ‘há um falar e dois entenderes’, e o destino sobre o qual Carl Sandburg interrogava o seu interlocutor de ocasião não era certamente o que o seu interlocutor entendeu. Não era Omaha, era uma qualquer entidade escatológica sobre que Carl Sandburg se inquietava.
                O que mais me prende a estes versos é que foram provavelmente o meu primeiro memento homo fora do contexto bíblico, em que em criança o escutei algumas vezes em 4.ª-Feira de Cinzas. Um memento homo em contexto pagão e tecnológico, por assim dizer, tendo como som de fundo, não o gargantear adestrado dos padres, mas o estrondo de um comboio expresso disparado através de uma pradaria levando a bordo mil pessoas, cujo verdadeiro e último destino não é certamente Omaha. 


A. M. Pires Cabral  

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