segunda-feira, 23 de maio de 2011

      É, você está muito só.
      Você está só, porque as pessoas que encontra pela rua estão correndo atrás de dinheiro, com medo de ficarem sós na velhice e não terem onde cair mortas e passarem os últimos dias de suas vidas na sarjeta, pedindo dinheiro, precisando de dinheiro, precisando de carinho, precisando de outras pessoas que as compreendam, que sejam solidárias com elas, que digam alguma coisa bonita para elas, alguma coisa que as animem, alguma coisa que as façam crer que a vida é algo maior, algo mais importante do que uma sequência de dias solitários, algo melhor do que um amontoado de dias.
      Você está só, porque a vida é um amontoado de dias.
      E, ainda por cima, o tempo não existe, os dias não existem, a vida não existe.
      Você está só, porque as pessoas do lugar onde você trabalha estão correndo atrás de dinheiro, mantendo as aparências de uma amizade falsa por você, porque elas não te conhecem direito, mesmo, porque elas não estão nem um pouco interessadas em conhecer você, de verdade, porque conhecer você, de verdade, e manter uma amizade de verdade com você, as obrigaria a tomar uma posição verdadeira a favor de você, caso as pessoas que pagam o salário delas, o seu salário, resolvam se voltar contra você, ameaçando você com a perda do seu emprego, do seu salário, da sua vida acima das sarjetas e, consequentemente, ameaçando o emprego delas, o salário delas, o dinheiro delas, a vida delas acima das sarjetas, o dinheiro delas, o dinheiro delas, o dinheiro delas, a vida delas e, no dia em que você perder o seu emprego, as pessoas do lugar onde você trabalha vão sorrir para você, vão desejar boa sorte a você, mas vão demonstrar para as pessoas que pagam o salário delas, que pagavam o seu salário, que elas não estão com você para o que der e vier, que elas não são tão próximas assim de você, que elas gostam muito mais das pessoas que pagam o salário delas, o dinheiro delas, do que de você. E você nunca mais vai se encontrar com as pessoas do lugar onde você trabalha, as que almoçaram tantas vezes com você, que riram tanto das piadas que você contava.
      E você agiria da mesma forma que as pessoas do lugar onde você trabalha, caso elas perdessem os empregos delas. 
      Você está só, porque a sua vida custa dinheiro, porque a sua vida é o dinheiro.
      Você está só, porque a escola que você frequenta está correndo atrás de dinheiro, ensinando os alunos a arrumar uma dessas profissões de arrumar dinheiro.
      Você está só, porque você tem que arrumar uma profissão que te ajude a arrumar dinheiro, um trabalho cujo único objetivo é fazer com que você ganhe dinheiro.
      Você está só, porque a sua família está pensando em dinheiro, os seus filhos estão pensando no dinheiro que você pode dar a eles, os seus pais estão pensando no dinheiro que eles têm que dar pra você, que eles têm que deixar para você. Será que você vai herdar algum dinheiro quando alguém da sua família morrer? Seria bom herdar algum dinheiro, não seria?
      No último réveillon, quantas pessoas desejaram dinheiro para você?
      Você está só, porque ninguém se interessa pelos seus problemas, pela sua solidão, pelo seu dinheiro que você não tem, pela sua solidão intransponível, pelas injustiças que vivem acontecendo na sua vida, na vida.
      Você está só, porque a imagem de uma criança toda queimada, toda suja de lama, numa maca suja, cheia de moscas voando ao redor, é apenas uma imagem na televisão, patrocinada por um banco que finge ser seu amigo, finge estar à sua disposição no momento em que você mais precisar dele, aquele banco legal, aquele banco amigão.
      Você está só, porque tem dinheiro.
      Você está só, porque não tem dinheiro.
      Você está só, por causa do dinheiro.
      Só dinheiro.
      Só.


André Sant’Anna

4 comentários:

  1. André, você não está só, pois eu leio teus livros e te acho o maior escritor vivo da Terra. Mas nem vem, que não tenho dinheiro pra te emprestar.

    Aquelabrazo

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  2. muito bom, andré.
    abraço, franklin

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  3. Parabéns, André. Gostei.
    Beijos, Valeska

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  4. Ei André, que ótimo!
    (e quem não está só está quase que nem quem está só
    mas alguns comem biscoitos recheados, mas só alguns)
    Bjs,
    Laura

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