segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sábado (quem se lembra?)

                                                                        Heiner Müller
Sentado este Sábado, com os Casa Conveniente, a falar de Heiner Müller, ao fim de tarde, conversa simpática, uma horita. E a pergunta tremenda: “ porque não há mais edições, traduções desse maior dos autores?” Sim, Müller passa agora, nestes anos de fim do cor-de-rosa, pelo período de esquecimento que todos os mortos merecem. Os tempos dos centros culturais ( o “teatro para dentistas” de que ele falava) não são o tempo em que um pensamento radical, uma forma radical como a de Müller pode voltar, a não ser para ser admirada ( o que não é o seu âmbito). E o esquecimento avança. Os que o conheceram não ousarão agora insistir em falar de comunismo, da guilhotina, do terror, nestes tempos de fim de Europa, a deflagrada pelo Muro. E os livros foram-se. Os mais novos irão descobri-lo daqui a uns anos, reinventá-lo, encontrando nele outros significados, pela certa, outros mistérios, outras monstruosidades que o sono da razão engendra na noite dos homens. Quando, na palavra “comunismo” for preciso colocar notas de rodapé a dizer “teoria do século XIX desenvolvida por Karl Marx e posta em prática... e destruída pelo nessa altura já Santo Karol Woytila, o Papa da Sida...”. O mundo passa, as letras somem-se com o tempo e ressurgem, renascidas às vezes. Neste ano de 2011, em que se comemora o centenário de Jean Genet, de Terence Rattigan, de Tennessee Williams, e, em Portugal, de José Marmelo e Silva, os que levaram o homo-sexo às letras e aos palcos, esse desejo nocturno e proibido, tão ardente. Quem se lembra?


Jorge Silva Melo

1 comentário:

  1. pela internet sempre vamos podendo ouvi-lo

    http://muller-kluge.library.cornell.edu/en/video_record.php?f=121

    ResponderEliminar