quinta-feira, 5 de maio de 2011

Furar paredes



Nunca tinha visto I Vitelloni, de Fellini. Quando Moraldo chega ao começo da sua história, no final do filme, há uma sequência inesquecível. No comboio que o levará ao futuro, o homem-rapaz olha a terra a afastar-se, pouca-terra, pouca-terra. No mesmo movimento em que vê a estação, as casas, os telhados que correm parados, vê o interior dos quartos preguiçosos dos amigos. É uma visão impossível e justíssima, nada mais verdadeiro. Uma lição de literatura. Como fazer isto por escrito, como furar assim, de um modo tão honesto, tão radical, as paredes da convenção: a partir de um movimento exterior, quotidiano, mecânico, dar a ver o mistério interior, vital e humano? Como escrever assim simples, pegando num comboio para fazer uma saudade? 


Jacinto Lucas Pires

1 comentário:

  1. É na luta pela transposição do ser, que se procura uma breve felicidade, desaparecer( como o sol no horizonte), para reaparecer em muitos outros lugares, que por serem desconhecidos desafiam a liberdade a que o ser humano tanto anseia.Não sei se empresa de sonhadores, se uma forma de filiar-se ao sonho como modo de vida, existe a certeza de que a impossibilidade quotidiana é o que mais dilacera a alma humana.

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