sexta-feira, 6 de maio de 2011

Da tradução como tangente

                          O livro de Robert Walser em alemão e na versão portuguesa

  Diversos sentidos de tangente remetem para o verbo tanger, segundo o Houaiss sinónimo de tocar, atingir, roçar, e ainda, em sentido sonoro, de repercutir, ressoar, ecoar. Enquanto em matemática a tangente designa uma recta que toca uma curva num ponto, sem a intersectar, a noção corrente de passar à tangente aproximar-se-á mais da ideia de roçar, passar através de ou por algo de um modo fugaz, praticamente sem tocar o objecto do qual imediatamente se distancia. A ideia de tangente implica pois, se tomarmos estes dois sentidos como complementares, um movimento de passagem fugaz ou fugidia por algo, resultando de um contacto a necessidade do seu oposto, o distanciamento. A forma participial expressa aqui o que o substantivo nomeia.
                Não surpreende que uma teoria da tradução que procure escapar à ideia de cópia, reprodução ou simples comunicação de um sentido original, tido como pré-existente e  claramente delimitável, recorra à tangente como metáfora. É o que faz Benjamin: «Assim como a tangente toca o círculo somente num ponto e de um modo fugidio [flüchtig] e é realmente este contacto, não o ponto, que lhe dita a lei segundo a qual progride em linha recta até ao infinito, do mesmo modo a tradução toca o original apenas no ponto infinitamente pequeno do sentido, prosseguindo, segundo a lei da fidelidade, o seu próprio caminho na liberdade do movimento da linguagem.» (em “A Tarefa do Tradutor” / “Die Aufgabe des Übersetzers”, trad. da minha responsabilidade). De outro modo Derrida, partindo precisamente da leitura do ensaio de Benjamin e sublinhando a ideia de um movimento que «não reproduz, não restitui, não representa, no seu carácter essencial não devolve [rend] o sentido do original, excepto nesse ponto de contacto ou de carência, o ponto infinitamente pequeno do sentido.» (“As Torres de Babel” / “Des Tours de Babel”, trad. da minha responsabilidade).
                A fidelidade de uma tradução dependerá pois da perspicácia em encontrar não o ponto mas o devido contacto, o modo de tocar a outra língua sem a intersectar, fazendo-a ressoar num código diferente, no qual já não está presente. Trata-se afinal de um problema de tacto, de tocar o que é tangível. A projecção deste exercício numa ideia de progressão infinita da língua ou num horizonte último, de universalidade da linguagem ou de reencontro numa língua originária, depende já de concepções metafísicas que não fundam necessariamente o entendimento do exercício da tradução como tangente.

                                                                                                                            
Pedro Sepúlveda

Pedro Sepúlveda traduziu do alemão “Histórias de imagens” de Robert Walser que foi publicado no passado mês de Abril na Cotovia.

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