segunda-feira, 7 de março de 2011

A mulher da minha morte

                                  "Duelo entre Eugène Onéguine e Lensky" de Ilya Repin

Trecho de "Mortes Imaginárias"
Aleksandr Pushkin, 29 de Fevereiro de 1837

Ela tinha uma beleza de seda e de baile, e deixava à sua passagem um rasto interminável e fugaz. A primeira vez que a viu, Aleksandr Pushkin pensou: “É a mulher da minha vida!”. Natalia Gontcharova tinha dezasseis anos e ele o dobro. Desposou-a imediatamente. Era o maior poeta do seu tempo. Quando morreu, por causa de um boato acusando a sua mulher de o enganar com o oficial francês d´Anthès; por causa de uma carta ignóbil que Pushkin tinha em retorno enviado ao seu protector, o barão van Heeckeren; por causa do duelo que o poeta e o oficial travaram no dia 27 de Janeiro de 1837; por causa desse entardecer em que só se conseguia ver à luz da neve; por causa da morte de Lensky, que Pushkin tinha imaginado no duelo de Eugène Onéguine, mesmo antes do seu casamento; por causa das cartas que o vidente Aleksandr Kirchov lhe tinha um dia deitado, prevendo que morreria às mãos de um homem branco; por causa de língua russa que por vezes o entristecia mortalmente; por que causas ainda – saberemos nós quais as causas que provocam a morte, salvo se nos tornarmos médicos legistas dos pensamentos e das palavras que selam o nosso destino? -, quando Aleksandr Pushkin ferido de morte caiu e, voltando a erguer-se, o rosto polvilhado de gelo, como um actor regressa ao palco para agradecer os aplausos, gritou: “Bravo!”, pensava rindo-se: “Engano! Era a mulher da minha morte”.
                A sua agonia durou dois dias. O sofrimento é tão atroz que os seus gritos mal abafados acordam a mulher várias vezes da noite. Ele não a deixa entrar, não querendo que ela veja o seu rosto irreconhecível. “Ele não vai morrer. Sinto que ele não vai morrer”, diz Natalia com uma voz rouca. Trazem-lhes os filhos. Eles não percebem. Mete-lhes medo ver abrir-se, sem se poder fazer entender, essa boca que lhes contava tantas histórias numa língua tão bela. De tempos a tempos, Pushkin pede pedras de gelo que aplica na fronte, depois engole esse frio mesclado de suor. “Adeus, meus amigos”, diz, voltado para as estantes da biblioteca onde os livros parecem observar os seus gestos de criança enlouquecida.
                O seu último sonho, teve tempo de contá-lo a Dahl, o seu médico. Ele subia, subia, escalando uma pirâmide de livros caídos. “Mais alto, anda, mais alto!” disse em voz alta, sonhando que galgava os livros desarrumados da sua biblioteca. Pede-lhe: “Levanta-me! Vamos!”. Grita ainda: “Mais alto! Mais alto!”. Depois, apaziguando, sorri: “Estava a sonhar que subia contigo ao longo desses livros, ao longo dessas prateleiras. Muito alto. Sentia tonturas.”
                Pushkin não morreu às mãos de um rival, nem das imprudências de uma mulher, nem da sua própria inflexibilidade. Morreu dos seus livros. Era Onéguine quem empunhava a arma, e “o poeta deixou escapar a sua pistola, pôs a mão no peito, e caiu”. As palavras que voltam enquanto agoniza não são previsões ou presságios, são os esquiços, os rascunhos, as cenas em que ele escreveu a morte. Tudo aquilo é passado a limpo uma última vez, pensa Pushkin, e ri-se dessa proximidade que lhe sugere a expressão “a imprimir” que termina o circuito das reescritas e de si próprio. A limpo? Pushkin ri de novo. Não é no coração, como Lensky, que se coloca o ponto final, mas nessa zona do baixo ventre para a designação da qual são necessários vocabulários latinos: sacrum, rectum. A sujo, mais propriamente. A morte passa a sujo a cópia da vida.


Tradução de Bénédicte Houart

A publicação de Mortes imaginárias de Michel Schneider está prevista para o final de mês de Março.

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