quarta-feira, 2 de março de 2011

Estou de acordo com ele

                                                                       "O navio negreiro", J.M.W. Turner




GERARDO O que é que estavas a ver?
MORETTI Quando?
GERARDO Lá dentro, na televisão...
MORETTI Não era a televisão. Era um filme estranho. Era a Mangano que primeiro é uma freira, depois dança no meio de... Bom, acontecerá também contigo...
GERARDO Não.
MORETTI Já não vês televisão...
GERARDO Não. Há trinta anos que não vejo.
MORETTI Pois.
GERARDO Sabes o que diz o Hans Magnus Enzensberger?
MORETTI Hã?
GERARDO Estou de acordo com ele.

                               de Caro Diario, 1993, de Nanni Moretti

Correndo o risco de parecer uma versão pobre do crítico televisivo da república, Eduardo Cintra Torres, gostaria de palrar um pouco sobre um conhecido programa com que dei no meu ocioso zapping. Consiste este numa espécie de discussão a céu aberto, embora este céu esteja fechado, onde as pessoas gritam e aplaudem e falham e acertam e há um apresentador aos gritos e não se chama “O preço certo”. Chama-se “Prós e Contras” e apetece saltar no sofá e gritar também para o televisor na qualidade de representante de qualquer coisa que entretanto nos passe pela cabeça. No episódio de ontem havia dois senhores e uma senhora de um lado e dois jovens de outro. Fui prontamente assaltado por um sentimento de impotência perante a aparente injustiça daquele lado desfalcado. Nem uma mãe à mão que lhes valesse, nada. À sua frente, temíveis, um director de uma Faculdade de Economia, um outro empresário, outra ainda chamada Isabel Stilwell (ao que parece por causa de um artigo qualquer). O momento era de alguma tensão e o espírito da discussão parecia andar em torno do desconforto crescente entre os jovens no que respeita a tópicos como desemprego, precariedade laboral, recibos verdes e desconfiança em relação à sustentabilidade da segurança social, entre ameaças de manifestações várias e gritos como “Basta!” ou “Chega!”. O grupo da direita (quero dizer, de quem vê) não parecia estar nada de acordo com este pronunciamento juvenil e com certeza teria as suas razões, quiçá já as expusera. Era o momento em que os intervenientes se incomodavam uns com os outros e com a plateia, se agitavam nas cadeiras, se esfregavam nas caras, se agastavam com o burburinho. Era o momento ideal para se entrar em cena. Foi aí que, já não vendo televisão há trinta anos, eu entrei. Agora travava-se um despique aceso entre um jovem dramaturgo, Tiago Rodrigues, e Isabel Stilwell. Tiago comparava a actualidade laboral do jovem à de um escravo; Isabel que não. Afinal — num momento particularmente tenso em que a jugular lhe criara um carocinho — “os escravos não organizavam protestos nem iam para a rua, graças a Deus.” Pasmei. Dei-lhe o desconto, compassivo. Afinal, quantas vezes, enfurecidos num debate, não somos amiúde levados pela ira da retórica até ao arrazoado insano? Simpatizei, empático. Mas depois da refrega da jugular de Isabel, e da minha racionalidade pia, uma dúvida inquieta persistia, a douda. Precisava mesmo de saber se Stilwell, pela graça de Deus, pensava mesmo aquilo sobre escravos. Precisava de saber se Isabel era apenas ignara ou tentara, estulta, o difícil e arriscado número da ironia, sem sucesso. Deu-lhe a moderadora em tom jocoso e peixeiro: “E Spartacus?” Anuí. Não podia discordar da mediação da graça de Fátima. Spartacus! Sem dúvida: Spartacus! Kubrick. Kirk Douglas. Spartacus! Poderia invocar outros. Mas eram tantos! — Toussaint L’Ouverture e a rebelião escrava da Revolução Haitiana, por exemplo, a rebeldia consistente e sistemática na história da escravatura do Brasil, todos os movimentos de libertação racial, colectivos ou pessoais, como Rosa Parks e aquele lugar livre no autocarro que pelos vistos circulava na rua— tantos eram e seriam que, prostrado, sem forças, caí na minha melancolia e fiquei absorto a considerar o canal. Estava exangue. E aquele “graças a Deus”?... Seria um acto sincero de agradecimento e ainda por cima ao mesmo Deus que eu adoro? E nem a tradução daquele graças a Deus por um mero ainda bem, ou, como diria Lauro Dérmio, still well, em amaricano, foi capaz de levantar a minha moral. O problema persistia. Ainda bem que os escravos não se revoltavam? Seria Aindabem a favor da escravatura? Era ignorante, graças a Deus e ainda bem? Perguntas, perguntas... E aquele “nem iam para a rua”... Era para ser levado à letra? Escravos que iam para a rua no intervalo da sua função de escravo? E seria aquela triste ignorância uma espécie de admoestação ao jovem com apetite pela manifestação organizada?: Vejam bem (Vejam bem, não, caramba) Olhai, atentai no escravo que não organiza nem protesta! Considerai o escravo, jovens, e segui o seu exemplo. A metódica organização do pensamento de Aindabem implorava ali por um momento de humor que pudesse intervir em socorro do espectador em apuros. E o humor interveio. Eis que alguém ainda não identificado pelas câmaras, levantado da primeira fila, pede a palavra. Fátima não sabe o seu nome. Ele apresenta-se. É presidente de uma associação de estudantes-escravos com uma impronunciável sigla: FASCIA ou qualquer coisa do género. Começa por dizer a respeito de alguém que este “interviu”. Fátima logo o corrige: “Interveio. Também é importante saber usar a língua.” Começava aqui a educação do escravo. Aindabem estaria radiante. Já o presidente da impronunciável associação, sem que acusasse o toque, lançou-se lesto a um impenetrável discurso de contornos reflexos sem nenhum tipo de substância, vago, inútil, pesado, mastigado, doloroso, patético. Talvez fossem os nervos, pensei. Mas não deixava de ser patético pedir-se o micro para plissar daquela maneira. O rapaz queria aparecer. Talvez fossem os nervos também para Aindabem, socorri. A jugular. Mas isto talvez seja eu. Que não quero jugular ninguém.


Daniel Jonas

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