quarta-feira, 16 de março de 2011

Dreams in a Time of War, A Childhood Memoir De Ngũgĩ Wa Thiong’o

                                                       Detalhe da capa "Dreams in a Time of War"

Nas revistas especializadas em literatura surgem semanal, mensal, trimestralmente críticas, resenhas e listas dos livros publicados durante o ano e daqueles que se prevê para a próxima temporada – todos, supostamente, para serem lidos –, há programas de Tv. que anunciam, com simpatia, livros e novos autores, centenas de links de livrarias e de editoras listam centenas, milhares de obras de literatura, as nossas bibliotecas enchem-se de livros, amontoam-se livros pelas casas, tantos que nunca leremos, e nos jornais saem críticas, resenhas, algumas até que pontuam com estrelas para nos facilitar, supõe-se, a economia das aquisições e, no meio de tantas obras, tantas vezes nos parece tudo tão igual, “tão do mesmo ou tão copiado”, com mais ou menos interesse. E eis que, de quando em quando, há a alegria da descoberta, a efusão do encontro, que passa rapidamente do secretismo da descoberta à difusão excessiva, compulsiva daquele livro, daquele autor. Sim, foi isso que aconteceu por estes dias, quando Dreams in a Time of War, A Childhood Memoir de Ngũgĩ Wa Thiong’o atravessou o atlântico norte e veio ocupar-me dias inteiros. De Ngũgĩ Wa Thiong’o diz-se que deve ser o próximo escritor africano  prémio Nobel da Literatura. Isto do prémio Nobel vale o que vale mas vale que é alguém que há muito tem uma escrita singular. Ngũgĩ Wa Thiong’o é keniano nascido numa região rural e quinto filho da terceira das mulheres de seu pai, ancião de um clã tradicional africano. Viveu parte da infância sob os efeitos da Segunda Grande Guerra em África, em particular nas colónias sob administração inglesa ou alemã. Este é, aliás, um dos aspectos mais fascinantes da obra, na maneira como o autor relata episódios vividos no seu clã – o recrutamento compulsivo de adolescentes para combater em África e na Europa contra os alemães, o cristianismo emergente e pouco pacífico entre as classes médias e os agricultores e pastores das zonas rurais, o ambiente escolar nas instituições implantadas fora da capital.


Ngũgĩ Wa Thiong’o faz um relato que combina, de um modo maravilhoso, a autobiografia com uma forte componente ensaística. Primeiro, porque a autobiografia não se centra no autor, é a biografia que inclui a família de composição complexa, o clã, os professores da escola, os vizinhos, é a biografia do “nós” por onde passa singelo o autor, e porque o ensaísmo é de análise histórica, um olhar sobre o passado a partir da análise informada que Ngũgĩ Wa Thiong’o acumulou ao longo de sessenta anos de vida. O outro lado do encantamento surge da enorme capacidade de perdão que o livro revela face a todos os colonialismos, cuja dureza e crueldade constituem a trama narrativa de um herói que cumpre o destino escolhido.


António Pinto Ribeiro

1 comentário:

  1. apr e a onda ou a notícia de um encontro, à mistura com um ligeiríssimo desdém pelos encontros possíveis do outro: o meu caso, este é o meu, na enxurrada, salvei-me ... Que bom, caro apr, mas porque não expressar a sua singularidade, singularmente,num tempo em que as ondas, mesmo figuradas, assustam.

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