terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Trecho do "Caderno cinzento" de Josep Pla

16 de Abril – Às vezes passeio pelas ruas com o objectivo exclusivo de olhar para a cara dos homens e das mulheres que passam. A cara dos homens e das mulheres que passaram dos trinta anos, que coisa tão impressionante! Que concentração de mistérios minúsculos e obscuros, à medida do homem; de tristeza venenosa e impotente, de ilusões cadavéricas arrastadas durante anos e anos; de cortesia momentânea e automática; de vaidade secreta e diabólica; de abatimento e de resignação perante o Grande Animal da natureza e da vida!
Há dias em que invento qualquer pretexto para falar com as pessoas que vou encontrando. Olho-as nos olhos. É um pouco difícil. É a última coisa que as pessoas deixam ver. Estremeço ao notar a escassa quantidade de gente que conserva no olhar algum rasto de ilusão e de poesia – da ilusão e da poesia dos dezassete anos. Da maioria dos olhos apagou-se todo o brilho pelas coisas abstractas e engraçadas, gratuitas, fascinantes, incertas, apaixonantes. Os olhares são duros ou mórbidos ou falsos, mas totalmente arrasados. São olhares puramente mecânicos, desprovidos de surpresa, de aventura, de imponderável.

Josep Pla
 Caderno cinzento vai ser em breve publicado na Cotovia como um dos primeiros títulos da preparada colecção "Grande literatura".

3 comentários:

  1. uma dia calhará olhares para o que procuras, os olhares loucos - vislumbrarás neles o brilho da profunda ansiedade - restará saber se terás olhos para os fitar? - não vão eles a olhar para ti e notar um olhar igualmente mórbido, puramente mecânico desprovido de surpresa de aventura de imponderável...

    ResponderEliminar
  2. Houve momentos e horas em que achava que os olhos serviam para ver tudo o que era necessário à vida do ser humano. Só depois de sofrer muito com a cegueira de tudo o que se encontra dentro da alma humana e que está escondido, que não está ao alcance do olhar, é que senti que os olhos só veriam o essencial, na sua totalidade, se fossem o espelho da alma.

    ResponderEliminar