quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A rapariga do rio

                                                                            © Nuno Barroso

Pelo chão restavam cascas de queijo e três ou quatro côdeas de pão. Comi tudo depressa. Colhi umas amoras. E fui descendo até ao rio devagar. A água do outro lado não era azul: era verde com nuvens a deslizar por cima. Teria gostado de ser rio para me sentir forte e meti-me nele. Nadava como um peixe; já não sentia os golpes da sova. O meu pai tinha uns primos que viviam na Barceloneta, na Rua Atlàntida. Íamos com os seus filhos e uma rapariga, a Mònica, procurar conchas. Com eles aprendi a nadar e a remar. Antes de entrar na água arranquei a ligadura do meu braço; a carne, à volta da ferida que tinha feito um dia ao cair sobre uma pilha de garrafas partidas, era roxa. No outro lado do rio estavam espalhados juncos e canas e entre os juncos e as canas vi-a; mais bonita do que a vida, de pé, nua, com uma forquilha na mão. O seu cabelo era de um loiro claro igual ao meu quando eu era pequeno; a cintura estreita, cada coxa um respeito, como dizia a minha mãe sobre os cravos, cada cravo um respeito, toda ela um pêssego maduro. Fui-me aproximando, ela viu-me e quando cheguei ao pé dela, rindo, picou-me com a forquilha. Tinha uns dentes que pareciam pedrinhas de rio, das mais brancas. O sol nascia. Todas as canas, todas as folhas balançavam. Largou a forquilha e atirou-se à água. Comecei a nadar rio acima com ela atrás de mim.
*
Deitados ao sol empanturrámo-nos de amoras. Olhava para mim. Tinha os olhos violeta com lampejos de ouro como os daquela menina vizinha do gato de quem a sua mãe nos fez tomar conta. Contou-me que o seu pai era moleiro do moinho que estava mais acima e eu não parava de olhar para os seus olhos. O seu pai estava na guerra e só o via aos domingos. A sua mãe chamava-se Marta. Ela, Eva. Teria preferido ser um homem em vez de uma mulher. Caçava pássaros com uma fisga. Se os peixes que pescava eram demasiado pequenos, devolvia-os ao rio, e gostava de fazê-lo porque era como dar-lhes a vida. Caçava coelhos e pardais com um cão e com uma espingarda. Se tivesse nascido menino teria ido para a guerra, morria de vontade, mas o seu pai tê-la-ia obrigado a não se separar dele a não a teria deixado fazer o que ela quisesse. Sem vir ao caso perguntou-me se gostava das bolas de sabão. O que tinham de mais bonito era que depois de tanta paciência para vê-las sair da cana e de tanto furta-cor, ao voar desfaziam-se como se as picassem. Falava deitada, com as mãos atrás da cabeça e a olhar para o céu. Eu tinha vontade de lhe tocar, de deitá-la sobre uma cama de folhas verdes arrancadas às violetas. Se a guerra, que tanto dura, ainda dura mais, cortarei o cabelo, vestir-me-ei de rapaz e ir-me-ei embora. Calou-se porque do outro lado do rio, mais além e mais aaibxo de onde eu a tinha visto com a forquilha, passava um homem montado num burro, com um fuzil pendurado às costas. É o meu pai, isso significa que hoje é domingo. Demorámos em levantar a cabeça e quando o fizemos o moleiro tinha desaparecido. Uma leve brisa brincava connosco e adormecemos quando a lua chegou.
Acordou antes de mim e quando abri os olhos já não estava ao meu lado. Nadava e eu fiz o mesmo. Não pude conter-me e agarrei-lhe num pé. O pé deslizou entre os meus dedos como uma enguia. Vamos sair! Três sombras desciam pelo rio. São soldados mortos. Para não terem o trabalho de os enterrar lançam-nos de cima da falésia do Merlot. Empurro-os com a forquilha para que não fiquem presos e não apodreçam entre os juncos e as canas, que são o meu palácio.
  

                                                            ***

A rapariga do rio é trecho do livro "Quanta, quanta guerra" da escritora Mercè Rodoreda que vai ser em breve publicado na Cotovia como primeiro título da preparada colecção Grande literatura.

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