segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Argumentação matutina a respeito de Felicidade, de Raymond Carver



Ela entra no quarto passando pela única parte iluminada antes de se deixar cair na cama de bruços. Fixa os olhos numa fotografia colada à parede, balança os pés para frente e para trás. Para frente e para trás. Senta e me olha. Aquele olhar que afunila um turbilhão de imagens. “Marca 12º graus nesse termômetro, ele funciona?”
Ela continua me observando. Olho novamente para o termômetro, para a esquadria da janela, o parapeito. “Vemos melhor os contornos a essa hora, quando não temos o que dizer.”
Ela veste uma camisa masculina que vai até quase seu joelho e caminha para a cozinha. Ouço o barulho da chaleira e fecho os olhos imaginando qual o sabor do chá que ela escolheu, se segura a xícara com as duas mãos e se a perna direita está dobrada apoiada no joelho esquerdo, como costuma ficar quando está pensando. Ela é um tipo de mulher comum, talvez mais alta do que a média, tem os movimentos lentos e mexe os braços com a languidez das bailarinas.
O café esfriou rápido mas continuo segurando a xícara como se ela ainda servisse para esquentar minhas mãos. Penso nas mulheres e como são capazes de esquentar nossas mãos. Penso em como conheci Lia, no alto daquele trapézio, com um macacão de lycra vermelho, num movimento giratório desses que você prende a respiração para não atrapalhar. E, pela primeira vez, me vem a sensação de que atrapalhei sua vida, e de que ainda hoje não a conheço muito bem. Nunca conheci nenhuma das mulheres com quem me envolvi, estou sempre um passo atrás. Sinto um cheiro de milho e caminho em direção à cozinha. Avisto Lia de costas com a perna direita apoiada na esquerda abrindo a tampa da panela. Sento na mesa, os pratos ainda sujos com o farelo de ontem.
Ela senta no meu colo e começa a servir o cuscuz por cima dos farelos. Tem um cheiro doce de chá, de ervas flutuantes. Seguro seus quadris e encosto minha boca abaixo de seus cabelos presos num rabo de cavalo. Ela gira como no circo, e me sinto a presa mais fácil que qualquer domador pode encontrar.
“Vamos sair antes de clarear?” Concordo com um movimento de cabeça. Ela sorri e rapidamente veste uma meia-calça de lã e uma bota. Coloco meu chapéu e casaco. Ela me ultrapassa na descida da escada e abre a porta do prédio. Seguimos rumo a avenida que beira o rio, onde o vento bate mais forte.

Valeska de Aguirre

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