segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um teatro novo como se fora clássico

                                                                                                          Amledí, el tonto




"Amledi, el tonto", escrita e dirigida por Raúl Ruiz, é o seu último trabalho, e a sua estreia na encenação e direcção teatral. Não é parecido com nada; é um objecto de uma estranheza radical: mistura de fábula de animais combinada com história das religiões, história da convivência entre Mapuchos e Vikings (há provas arqueológicas da presença de Vikings no território que hoje é o Chile). Um espectáculo sincrético, anacrónico, que surpreende em cada momento que passa: imprevisível durante as três horas de duração num cenário que evoca o grande teatro de texto do princípio do século passado. Um texto de uma sabedoria antiga. Fenomenal, como diriam os Chilenos! E contudo reconhecemos nesta encenação alguns temas recorrentes na cinematografia de Raul Ruiz, a saber, o fascínio pelas obras clássicas, a natureza experimental do seu trabalho, o Tempo como tema e problema central da sua obra. Depois de ter tratado Proust e parte da sua Recherche em El Tiempo recobrado, Amledi com o seu prólogo e cinco actos, narrativa originária do século XIII e objecto arcaico sobre o qual Shakespeare se terá  inspirado para escrever  Hamlet, era uma obra suficientemente aberta para permitir a ousadia experimental em que acaba por resultar esta encenação. O tempo que a mesma dura -cerca de três horas – é o tempo necessário que a obra exige. Não seria possível tratar o tempo de um modo minguado ou avarento, porque acabaria por contradizer os propósitos da encenação e a natureza da obra original. Esta durabilidade estende-se para já na dimensão anacrónica no cenário - um conjunto de objectos escultóricos que em tudo remetem para o neoclassicismo da representação, com capacetes e proas de barcos vikings  a evocarem epopeias cinéfilas das grandes narrativas hollywoodescas  sobre Roma, Cleópatra, ou uma versão do Asterix em tecnicolor. Este espectáculo foi agora apresentado no Festival de Teatro de Santiago do Chile - Santiago a Mil - A esta dimensão temporal dada pela cenografia, associa-se o destaque que Raul Ruiz faz dos momentos do prólogo e dos actos, através de intermezzos musicais que marcam a passagem do tempo. As cenas recorrentes de personagens a fiarem e a enrolarem novelos são sinais subtis desta atracção pelo tempo. O outro aspecto fascinante ainda relacionado com o tempo decorre da impossibilidade de se detectar uma época, uma data precisa em que decorre a peça. Ela tem contornos arcaicos, mas a justaposição de vários tempos anula qualquer narrativa linear e a História aparece como conjunto de episódios sem sequência lógica. E há uma grande capacidade de lidar com a narrativa, usando uma técnica de associação de cenas a que outrora se permitiria chamar de narrativa surrealista. Sim em Amledi, el tonto há permanentemente uma dimensão surreal, encantatória e de tal forma se manifesta que a presença de uma criança, como observador privilegiado das cenas, sentada numa xícara de tamanho desproporcional relativamente a toda a cenografia, nos diz que estamos no lugar do fantástico, do imaginário, onde não existem limites para a realidade. Também as falas escritas pelo autor decorrem de encadeamentos narrativos ilógicos, muitas vezes, aparentando-se aos exercícios do cadavre exquis e por isso cada fala é inesperada, todos os diálogos são imprevisíveis e improváveis e por isso conformes a uma representação inventiva que desafia a capacidade de recepção do espectador. E contudo desta peça não está alheia a condição humana. Repare-se que, ao buscar o tema Amledi, Raul Ruiz foi tratar uma questão essencial desta condição - o facto de ter estudado teologia e direito ajuda, com certeza, a considerar a violência, a violência como componente permanente da condição humana e as variáveis da sua expressão, as disputas do poder, as guerras religiosas, as traições. Tudo isto está representado nesta obra, às vezes de uma forma patética, infantil, com actores que se deslocam como figuras de cinema de animação, outras vezes na sumptuosidade das cenas e outras ainda de uma forma patética, como é a sequência de mortes que acontecem sem qualquer pertinência de verosimilhança. Aliás, talvez o único momento de verosimilhança seja o final, quando a banda de músicos desfila pelo palco, tocando uma marcha, e a criança se maravilha com a neve, caindo em pleno verão na sala do teatro municipal de Santiago do Chile.



António Pinto Ribeiro
Santiago do Chile, Janeiro 2011

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