quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Palavra da editora


Quando hoje acordei decidida a escrever o texto inicial para o blogue da editora, decidira já esquecer todas as ideias que me ocuparam nos últimos dias, todas elas muito boas (como compete às ideias para um texto para um blogue de uma editora muito boa) e concentrar-me numa só ideia simples, que se resume a uma frase também simples. Esta: A Cotovia é uma editora muito boa.
Não me fica bem dizer isto, é claro, trabalhando nela e para ela há vinte anos, mas a humildade é uma virtude que em excesso se torna defeito. E, sem mim, a Cotovia seria tão boa como é, portanto estou à vontade para escrever que a Cotovia é uma editora muito boa.
Porque é pequena. O que não significa que não haja editoras grandes muito boas. Mas as editoras grandes muito boas são muito boas porque funcionam como pequenas editoras muito boas. Então: a Cotovia é uma editora muito boa porque, sendo pequena, funciona como uma editora pequena. Lemos e discutimos tudo o que publicamos; podemos demorar horas a perorar sobre a pertinência ou impertinência de uma palavra. Tentamos não o fazer, não é bom do ponto de vista da gestão pecuniária e do tempo, os dias não estão para excentricidades dessas, mas sabermos que, se quisermos, podemos discutir até ao fim dos tempos a pertinência do ponto e vírgula é qualquer coisa que define a Cotovia como uma editora muito boa.
Isso, e a dificuldade de consenso entre os editores. Que são dois, um dos quais eu própria. Guerreamos. Amuamos. Chegamos a acordos mal digeridos por uma das partes que, em regra, guarda um trunfo bem escondido na manga para sacar dele na guerra seguinte. O consenso, como a humildade, é uma virtude que em excesso se torna defeito, e isso é outra coisa que define a Cotovia como uma editora muito boa.
Bem vindos ao blogue da Cotovia, a editora muito boa.
Fernanda Mira Barros

10 comentários:

  1. Mas que texto extraordinário! Vou passar a seguir diariamente este blog. E parabéns pelo site novo. Estupendo!
    Um beijinho e até breve.

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  2. Caro Gabri,
    Obrigada pelo seu interesse. O volume V de Brecht vai ser publicado na primeira metade deste ano.
    Para volume VI ainda não temos a data prevista.

    Cordialmente,
    Equipa de Livros Cotovia

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  3. Caríssima,

    o seu texto enche-me de orgulho de livreiro.
    Obrigado,

    ricardo

    ps: um autor que vos ficava muito bem era o Sr Quignard. Fica a sugestão...

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  4. A Cotovia é, de facto uma editora muito boa! Não sei se será pequena, mas boa é. E ao que parece funciona como uma pequena editora (embora o vosso catálogo seja já de meter respeito na coisa!)
    Olhando para a foto deste post, lembrei-me de perguntar se estão previstos mais clássicos. A Cotovia tratou muito bem estes clássicos, e gostaria de ver mais coisinhas a saír com a qualidade que vi nos anteriores...

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  5. Bastava Homero na tradução de Frederico Lourenço para a Cotovia ser uma editora uns furos acima de uma editora meramente muito boa.

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  6. Meus queridos,

    não vou dizer que os sinto tão perto quanto em maio, ensolarado, quando me bastavam uns quantos passos duas ou três ruas acima para estar às portas da minha livraria neste planeta.

    Mas é fato que com este blog os sinto mais ao alcance de uma hipotética conversa. A primeira a puxar assunto foi a Fernanda, espantada talvez com a crescente certeza de ser uma escritora, logo o Jacinto veio com rabanadas e pecados e absolvições, pelo que lhe serei eternamente grato. Sei que em breve haverá por aí qualquer coisa de japonês nisso tudo, qualquer coisa de uma felicidade oriental que tem tido muito a ver com a minha própria felicidade leitora. Sendo assim, agora que aprendi a postar comentários, asseguro que serei uma respiração (nem sempre) silenciosa um palmo à frente de cada uma dessas palavras.

    Um beijo e continuem transmitindo, há alguém aqui que aprecia muito vossas transmissões.

    Carlito

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  7. Por todas essas razões - além do vosso catálogo, naturalmente - é que gosto da Cotovia. Foi assim que aprendi a trabalhar em edição, é assim que gosto de trabalhar, e portanto percebo muito bem a opção da "editora pequena", percebo a necessidade (e também o prazer) de discutir a pertinência das palavras.
    Como leitora, só posso agradecer. Como profissional de edição, só posso dizer que é esta forma de trabalhar que me inspira.
    Um bom ano para a Cotovia!

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  8. Ao ler este princípio de conversa, lembrei-me do meu primeiro encontro com a Cotovia "em pessoa". Até aí só a conhecia pelos livros, pela escolha tão coerente, que quase vemos crescer diante de nós uma pessoa, com seus gostos e escolhas. Sou tradutor e até hoje (só) traduzi um livro para a Cotovia. Um livro de que gosto muito e que alinha perfeitamente com o perfil a que me tinha habituado. Um livro é para um tradutor como um filho adoptivo, já que é um filho para o autor, cono se diz. Ao trabalhar com a Cotovia percebi que também para o editor é assim. Foi a única vez em que me aconteceu falar com um editor sobre o livro, sobre as opções de tradução, sobre uma palavra, sobre uma vírgula, se preciso fosse. E sempre com a benvinda sensação de estarmos a escolher o que era melhor para o livro, que ambos víamos como "nosso" – nosso nesse único sentido em que o sentimento de posse faz sentido, "nosso" pelo coração, se assim se pode dizer.
    O que está dito na introdução do blogue é o espelho fiel desta maneira de trabalhar com livros (que o mesmo é dizer, com o mundo que eles nos abrem). E até o símbolo da editora diz bem com isto, acho eu.
    zé lima

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  9. Cara Fernanda Mira Barros.
    Para quando a publicação das obras restantes e há muito anunciadas das peças de teatro de Brecht e Ibsen.
    Atentamente
    Pedro Carneiro

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