quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Foi a maior mentira que contei em minha vida (Pai e Filha, de Yasujiro Ozu)





Ela lê um livro indo para Tóquio ao lado do pai. Ela sorri. O trem sacode e seus olhos descem e sobem as páginas. Ela aceita a companhia do homem de bigode na cidade e passa o dia a comprar agulhas. Eles sentam num bar, ela serve sakê para ele enquanto conversam sobre o segundo casamento do homem. Eles riem. Ela é uma garota bonita. Ela passeia de bicicleta com um amigo pela estrada à beira-mar. Há uma suave elevação na planície. Eles se olham. Eles sorriem. Ela tem um sorriso maior que sua boca. Ele sorri com os olhos. Param as bicicletas lado a lado e sentam-se no limite da colina, ele de joelhos dobrados, ela apoiada nos braços. “Diga, que tipo de mulher eu sou?”. “Bem, você não é ciumenta.” “Pelo contrário, sou sim.” “Duvido.” “É sério! Quando corto picles, as fatias ficam todas grudadas.” “Esse é um problema que diz respeito à faca, não diz nada sobre picles ou ciúmes.” “Você gosta de picles mal fatiado?” Nunca se pode adivinhar. É inevitável. Ela aguarda o pai em casa. Sorri quando ele chega. Pendura seu chapéu e guarda a pasta. O pai aguarda sua filha em casa. Sorri quando ela chega. O pai e a filha vão assistir a uma peça nô. Ela está concentrada. O pai está concentrado com os olhos e os lábios. O pai cumprimenta uma mulher. Uma mulher que tem um significado. O movimento das folhas na árvore. O movimento rápido dos passos da filha se afastando. O movimento das revistas empilhadas escorregando da cadeira. Ela não precisa de um motivo para se casar. “Não podemos ficar juntos para sempre.” O arroz queimando. A mesa suja. O pai de pé diante da filha movimenta as mãos. Curva-se e alcança um objeto no chão. “Amanhã teremos bom tempo.” A chave é o sorriso. Um presságio, uma carteira, um guarda. Em quantas piscadelas cabe a tristeza? A última viagem, um cômodo, o cigarro. “A felicidade só vem com o esforço.” Atrás, o movimento de folhas. À frente, a silhueta de um vaso. Dois homens observam o jardim de pedras. “Foi a maior mentira que contei em minha vida.”



Valeska Aguirre

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