segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Conto de Verão

                                                                                    © Nuno Barroso

Ela trabalha como gerente de contas na agência do Banco do Brasil na Av. Rio Branco. Ele num prestigioso escritório de direito criminalista na Primeiro de Março. Ao meio-dia de uma segunda-feira eles têm encontro marcado, é a primeira vez que vão se ver este ano. No réveillon, ele foi para Cancun com a família, mulher e dois filhos. Ela, para São Pedro da Aldeia com amigos.
Como de costume, ela chega antes. O rapaz da recepção, que finge não reconhecê-la, entrega-lhe as chaves. As escadas que a levam até o apartamento cheiram a mofo. Aliás, tudo naquele pequeno motel na Mem de Sá cheira a mofo, inclusive o quarto, a cama redonda, os travesseiros altos, a poltrona marrom, o quadro com duas mulheres nuas, o carpete gasto.
Ela está exaurida, dormiu mal, a manhã foi de discussões com o chefe, a cabeça explodindo, a vontade de largar tudo, por que não tem a vida dele, restaurantes chiques, viagens, carro do ano? Apesar de tudo, está feliz, sim, está feliz, vai revê-lo depois de três semanas, a primeira vez no ano. No banheiro, enxágua o rosto, melado por conta da caminhada, o sol estourado fez derreter a base, misturando-a ao rímel que escorre discretamente. O batom está apagado. Ela passa uma nova camada, depois de espalhar o pó e retocar o preto nos olhos. Borrifa uma única vez seu perfume na nuca, sem exagero. Depois se pergunta: tiro a roupa ou espero por ele?
Ele chega. De terno azul e gravata cinza, pasta de couro na mão. Fios de suor escorrem da sua testa. Que calor, ele diz, antes de abraçá-la, antes de perguntar: como vai? Ela se apóia na lateral da porta do banheiro, arrasta os pés na parede, acentuando a firmeza das coxas, quase inteiramente à mostra. Se o maço estivesse ao seu alcance, acenderia um cigarro. Ele larga a pasta em cima da poltrona, e ela pensa: como eu amo esse filho da mãe, quase ao mesmo tempo em que diz: senti sua falta. Sentado na cama, ele dá palmadas na própria coxa, e ela atende ao pedido, cola sua minissaia nas calças dele. O ar-condicionado não dá vazão.
Enquanto ele amassa seus seios, murchos mas fartos, ela desanda a lhe fazer perguntas: como foi seu ano novo? Gostou de Cancun? E o natal? Muitos presentes? Ele responde a tudo com monossílabos. Ela enlaça o quadril do amante com suas longas pernas, cerrando ao máximo seu corpo ao dele, e continua a falar, a contar como foi seu fim de ano, sol, caipirinhas, alguma chuva, ressaca todos os dias, não ganhou muitos presentes, sabe como é, família pequena, mas não se importa.
Quando ele levanta a saia dela até a cintura, ela para de falar.
E só retoma a palavra quando ele busca o celular por cima do lençol amassado, o lençol cheirando a mofo e a uso, uma mistura de cheiro de outros corpos e sabão em pó, o lençol encharcado pelos fluidos dele e dela, pelos suores, pela língua que ao percorrer a orelha ou a nuca esbarrou nele sem querer. Ela sempre faz isso, sempre se põe a falar nesse mesmo instante, na tentativa frustrada de segurá-lo mais uns parcos minutos.
Com os cabelos mal penteados, a roupa a esconder o delito que os cheiros e a umidade embaixo dela revelariam, eles se beijam sem paixão. Ele diz: se cuida, e ela diz: eu te amo. Ele é o primeiro a fechar a porta e descer as escadas do motel. Cinco minutos depois, ela faz o mesmo. Diz um “tchau” sem graça ao moço da recepção, e ao afundar o salto na calçada de pedras portuguesas sente o sol arder ainda mais forte do que há meia hora, e pensa: quando chegar ao banco vou retocar a maquiagem.


Tatiana Salem Levy

1 comentário:

  1. Será este um novo livro desta autora? Para quando se pode esperar a edição?

    Obrigada,
    Alexandra Moura

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