terça-feira, 20 de junho de 2017

Comer com Os Olhos #4


©Patrícia Azevedo da Silva

Há algumas semanas, uma amiga comentava comigo que a minha obsessão com comida e estudar comida e comer comida e comensalidade and whatnot era a prova de que o estômago era, para mim, my organ of choice. Eu não concordei logo mas não percebi porquê. Só mais tarde, no caminho para casa a pensar naquilo, é que me bateu.

Para mim, o estômago foi o órgão que eu elegi e construi como meu, no sentido em que o botei como equivalente ao coração. Foi o estômago que decidi estudar, enquanto lugar de afectos, via academia, mas também quando o estudo dos chakras entrou na minha vida (sim, eu fiz isso I said what I said no regrets) e fiquei a perceber que o estômago era na verdade o 3º chakra, o plexo solar, com  tudo o que isso implica (e implica tipo imenso).

Mas muito antes, desde que era pequenina, outra parte (de mim) fazia muito mais parte de mim, na medida em que sempre definiu muito mais, sem eu querer mas depois já em total aceitação, a pessoa que eu era/sou: os olhos.

São poucas as fotos (e os anos) em que apareço sem óculos: acho que devia ter uns seis quando uns óculos muito fininhos e discretos tomaram conta da minha cara. Até aqui nada de errado. Não me lembro de pensar nisso, mas acho que poderia até funcionar como elemento de identificação: todos os meus adultos usavam óculos. Mas depois todos os anos os óculos cresciam, quer dizer, as lentes aumentavam, até deixarem de caber naqueles óculos, e então os óculos aumentavam também, e ser adolescente com uns óculos que ocupam todo o teu rosto, que chegam antes de ti aos lugares, com lentes que têm várias riscas de lado, não sei explicar, são os graus/graduação, parecem os troncos das árvores, aqueles círculos que determinam a idade, acontece o mesmo com as lentes de miopia.

À medida que cresciam os óculos (as lentes) diziam que eventualmente aquela progressão iria parar. Mas aquilo só crescia em mim. Até que chegou a hora, finalmente, depois de convencer os meus pais, até que chegou a hora de fazer as provas (de contacto) e experimentar as lentes, e por ser muita a miopia só poderiam ser lentes semi-rigidas, o que quer dizer dois vidrinhos dentro dos olhos, totalmente instáveis, que vacilavam com qualquer poeira, qualquer sujidade, e sempre aquele pânico de não poder coçar porque iria arranhar o olho, como uma garra, e também doía um bocadinho mas nunca disse aos meus pais nem ao médico e fiz um fake til you make it de tal forma que o meu corpo aceitou a prótese, e depois dos cubinhos nos ouvidos eu era outra vez meio ciborgue.

Durante muito tempo, desde que consegui as lentes, oprimi os óculos, quer dizer, partiram-se e eu nunca os substitui. Eu gostava muito daquela visão total e periférica que as lentes traziam, ao contrário do que diz o Wim Wenders na Janela da Alma: “Quando tinha trinta anos tentei usar lentes de contacto. Mas mesmo quando tinha as lentes, estava sempre à procura dos meus óculos, porque via bem com as lentes mas sentia falta do enquadramento. Quando estou sem óculos, sinto que vejo demais, e não quero ver tanto, quero ver com restrição, mais enquadrado.” (Durante todo este depoimento, ele vai tirando e colocando os óculos, para ilustrar esse gesto de enquadrar.) Ao contrário, eu gostava de ver tudo. De comer com os olhos. Há qualquer coisa de excessivo em mim que também se traduzia em ver tudo. (A minha miopia é galopante, no less.)

Também havia os momentos em que, sem as lentes, pouco ou nada conseguia ver. E isso não era mau. Como naquelas férias em que, logo no primeiro dia, perdi uma das lentes e preferi ficar de pirata a voltar para casa, e quando precisava muito aproximava-me do meu objecto de desejo (ou tapava o “olho mau” e depositava todas as esperanças no outro “olho mau mas com remendo”) ou às vezes escolhia ver o mundo a duas dimensões (caí bastantes vezes nesse verão em Lagos), meio nítido meio desfocado. Ou então não usava mesmo nada e era tudo uma névoa, e quando queria que algo ficasse mesmo nítido precisava de aproximar muito dos olhos.

Foi assim que vi o meu filho pela primeira vez, depois de tirar os óculos que tinha (não permitem lentes de contacto durante o parto), os óculos pesadíssimos que me escorregavam da cara, e depois, filho nos braços, aproximá-lo muito dos meus olhos, e inspeccioná-lo todo, os olhos o nariz a boca as orelhas e até os pés para ver se tinha o mesmo defeito do que eu (não tem, os filhos são desde o início infinitamente melhores do que nós). Como aquele menino da Clarice Lispector no Miopia Progressiva, “Foi apenas como se ele tivesse tirado os óculos, e a miopia mesmo é que o fizesse enxergar. Talvez tenha sido a partir de então que pegou um hábito para o resto da vida: cada vez que a confusão aumentava e ele enxergava pouco, tirava os óculos sob o pretexto de limpá-los e, sem óculos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego”.

Foi sem querer (estar sem lentes no parto) mas de alguma forma funcionou muito bem porque é como se a minha miopia fosse a minha verdade, e ver o meu filho sem óculos foi como vê-lo com a minha verdade, como os meus olhos comem o mundo, e ainda hoje, de manhã, quando acordamos e ainda estou aleijada (sem lentes), escolho não pôr logo os óculos e demoro, para ter uma desculpa para encostar a minha cara muito perto da do meu filho, para ver o que apareceu desde o dia anterior (não apareceu nada, a pele dos bebés é muito incrível), para ter a certeza que sei exactamente cada pontinho daquela tromba. Depois ele mesmo procura aquela prótese que são os meus óculos e coloca na minha cara, depois tira, depois ri e faz tudo de novo, e é nesta repetição que cresce o meu amor (e o dele, espero bem). Em todos os bebés vejo o meu filho, mas só o meu filho é que vejo desta forma.

E também é neste gesto, coloca-bota fora, que me vou lembrando do Miguilim, que é o conto mais cruel que li até hoje (e eu já li some pretty dark shit) e era impossível não falar do Miguilim quando se fala de miopia e eu bem tentei porque aquele conto faz-me chorar como o raio, a primeira vez que li aquilo estava no comboio a caminho de Lisboa e os dois rapazes ao meu lado, que estavam muito vagamente a flirtar comigo ficaram tão aflitos que saíram no Rossio e levaram-me a Santos, ficamos amigos, ainda hoje trocamos mensagens, e agora reli o conto porque não queria só falar daquelas duas páginas finais, seria como trair a história do Miguilim e do Dito e da Pingo de Ouro e de todo o Matum, e então reli tudo e chorei como se fosse há 15 anos e eu estivesse naquele comboio só que desta vez só com a minha cachorra no sofá para me consolar, e passei por tudo só para chegar aqui:

“Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava. - Porque você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? (…) O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: - “Miguilim, espia daí: quantos dedos na minha mão você está enxergando? E agora?” Migulim espremia os olhos. (…) - Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim… E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito. - Olha, agora! Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo… o senhor tinha retirado dele os óculos, dali por diante.

Depois desta parte não consigo reproduzir, porque é a parte em que a Mãe convence o Miguilim a partir com o doutor (“Vai meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar”) e já estou a soluçar, há uns anos atrás era eu, filha, que estaria ali a despedir-me mas agora sou eu, Mãe, sem conseguir imaginar a ideia de que verdadeiramente, por alguma razão, o meu filho estaria melhor longe de mim, e já sou eu toda partida, estilhaçada por dentro, a imaginar na pá de gente que passa por isso, por isso salto esta meia página. E regresso aqui:

“Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente do doutor. Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim. E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros por cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o gado pastante perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia.”

Não vou dizer (quase) mais nada porque, como como aprendi com o Wim Wenders (que aprendeu com a mulher) naquele filme, é preciso escolher que imagens queremos guardar na memória. Esta seria a imagem que gostava que ficasse nas nossas memórias, da beleza do Matum. Eu, por exemplo, vou guardar esse jogo de escolher o que quero ver porque, como também diz Wenders, é tudo sobre o enquadramento. “O verdadeiro acto de enquadrar consiste em excluir algo. Acho que o enquadramento se define muito mais pelo que não se mostra do que pelo que se mostra. Há uma escolha contínua quanto ao que será excluído.”

Por isso, quando vejo que alguma coisa está a ficar de fora e que essa coisa é o que realmente me importa [como toda a dor de todas as pessoas que ficou fora do enquadramento daquela reportagem que toda a gente está a discutir], tiro os óculos ou as lentes e deixo que me aconteça o que acontece ao doutor do Miguilim: “O doutor limpou a goela, disse: - Não sei, quando eu tiro esses óculos, tão fortes, até meus olhos se enchem d’água…”


Patricia Azevedo da Silva nasceu em 1977 naquele que é, sem dúvida, o ano mais punk do século XX (serpente de fogo). Trabalha sobre a dádiva e a ideia de reciprocidade a partir da óptica do amor (a sua tese de doutoramento, “Pão é Amor Entre Estranhos”, ainda por terminar, aborda a ideia do alimento enquanto linguagem&afecto, a partir de trabalho de campo realizado em São Paulo). Na sua tese de mestrado, “Para lá do prejuízo”, trabalhou os temas de género, colonialismo e performance a partir da análise de experiências de mulheres brasileiras a viver em Lisboa.
Trabalhou com quase todas as produtoras de cinema em Lisboa (nos anos 2000) e foi aí que descobriu a importância da repetição (no sentido de repetir obras). Também foi ganhando outras relações com outras ideias de teatro e, actualmente, tenta fazer o mesmo com a dança (e, ainda remotamente, com as artes plásticas).
Cresceu em Queluz, Monte Abraão, e a ideia de periferia e subúrbio está presente em tudo o que faz, pela via da marginalidade e pela forma encantada como aprecia pracetas. É mãe.




Sem comentários:

Enviar um comentário