quinta-feira, 20 de abril de 2017

Aborrecimento, quase poesia

1: Questões de Autoria


E por que não? Se tantos, no passado, foram já um “ele”, habitaram já um “ele”... K., o Senhor Plume... tantos garotos passeantes do Walser não chegam propriamente a constituir um “eu”... Não, não há entre nós torcionários sedentos de sangue, não temos de que nos envergonhar. Trata-se de uma povoação menor, ignorante dos procedimentos, passando de momento a momento... Orgânicos, naturalmente, mas o que mais? Quem objetivava esta vida, afinal? Quem teria o trabalho de coonestá-la, se eles próprios, fossem indagados acerca da questão, hesitariam infinitamente em dizer qualquer coisa no sentido de afirmá-la enquanto tal?
Temos de narrá-los, mais uma vez, mais uma vez e sempre, reconduzi-los ao salão principal, recosê-los ao tecido do mundo, e no mundo – digamos logo de saída – não há lugar senão para ficções. É uma perversão fundante, a dobra que nos impede de chegar a qualquer absoluto, a dobra que nos devolve e prostra – como se deve – ante todo e qualquer acontecimento... Coisa de que não se apercebem eles, ou se apercebem apenas vagamente.
Ao fim e ao cabo, são nossas as mãos que os empurram até a evidência. Somos nós que os resgatamos, não suportando mais vê-los pelas praças das cidades bracejando atrás de uma forma. Somos nós que penduramos-lhes incidentes, torneios romanescos, um que outro dito de espírito, ideias extravagantes subidas sabe-se lá de que rincão bafiento da mente, alguma via para a revelação, algum talento inconfesso para a vidência, tudo isto para que não pareçam assim tão inteiramente remetidos a si próprios. Porque é vário, o tecido, e porque esta variedade é insaciável, de desaparecer com tudo e com todos.
Não percamos de vista o fato de que estas pessoas, quando morrem, não costumam deixar para trás diários.
Nossa onisciência, enquanto narradores, só vai até aí. É uma “história de vida”, e todos sabemos como estas costumam terminar.
Encarregamo-nos nós de tornar mais belo o caminho para os números.
Encarregamo-nos nós, pela via do personagem, de dignificar de algum modo os que tendem naturalmente ao sumiço, que não conhecem outro tipo de aventura.
E o fazemos apenas porque não existem ainda entrepostos lá muito precisos entre “eu” e “ele”. Uma prática de escrita que se desse entre estes dois continentes é que seria o ideal. É bonito, convirão, sonhar com uma letra oceânica, que não aportasse, enfim, mas conservasse ainda algo da solidez do mar, de uma imagem do mar, de uma compactação do mar... Teremos entretanto de deixar esta investigação para o futuro, certos de que, entre nós, contam-se já alguns infelizes ocupados em trabalhar a terra e afiar os instrumentos.
É também nossa leve suspeita de que algo da pertinência histórica do emprego do “eu” vem se esvaindo, quiçá irreversivelmente, que nos impele de volta a “ele”. Se redige suas “anotações do ano 1920” em pleno – annus miserabilis – 2017, tanto faz. Estamos convictos de que não se trata de um retrocesso, somos suficientemente sóbrios para compreender que em nada avança a dita coisa literária. Um estamento entre tantos. O estamento-ele.
Preambulado já, caminha pelo centro de C... no início do outono. Como de hábito, pensa como um guisado. Na passagem de “eu” a um “outro”, os sentidos de fato se desregraram todos, mas isto não foi sistemático. O sistemático cabe a nós. Sob nossa caritativa batuta, alguns elementos se tornarão mais nítidos e subirão à superfície, formando frases, discretas figurações, paulatinos monólogos.
Este é o primeiro.
“O Malte Laurids Brigge já foi escrito. Era o único livro possível. Este e o Bartleby, também escrito, já faz muito tempo. Isto, no entanto, não deu cabo das palavras. Porque não acabaram logo ali, de uma vez por todas, jamais saberemos. Com o fim da linguagem, teríamos certamente atingindo também o fim dos tempos, e é mais bonito imaginar o fim dos tempos como sendo produto de grande consecução linguística do que de bombas disparadas por idiotas. Mas o fato é que não acabaram. Não foram ainda enunciadas as palavras conducentes ao grande silêncio.  Passou-se outra coisa com elas. Estão como que recuando desde então, muito lentamente, muito lentamente, e é de dentro deste recuo que pareço pensar, falar, comunicar minhas pequenas exigências e conceder meus pequenos favores. É deste recuo que escrevo. Recuo em C..., cidade propícia a este tipo de movimento. Cidade da qual nada sairá de consequente.

C... é a cidade onde desapareci e isto que entrevejo talvez não passe mesmo de um folhetim existencialista da pior espécie. Tenho amigos que me dizem que sou anacrônico até dando bom dia. Tanto pior. Aqui estou tão só como sempre me senti. A antevisão engrenou-se na visão, a princípio correu acidentado, mas agora a coisa toda se suavizou. Não, não sou um desamparado. Sei que daqui a pouco estará tão frio que já não se poderá sair de chinelas à rua. Convém restringir as sortidas diárias ao período da manhã. Convém, apesar do frio que começa a descer sobre a cidade, deixar as poucas janelas de casa abertas por, pelo menos, um par de horas, para que o ar circule e para que se dissipe o cheiro a cigarro. Os lençóis são trocados a cada semana. Tenho alguma situação em praças, parques não muito grandes, restaurantes barateiros da região. Tenho até mesmo uma vizinha que sempre me cumprimenta com a máxima simpatia se calhamos de nos cruzar na rua. Não, não bracejo. Caminho pela cidade de C... no início do outono. Ninguém deverá responder por mim”.

O autor desta coluna chama-se Ismar Tirelli Neto.

"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados".

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