terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ficções da ausência

Estando el Dionísio en lo Exilio

Tu bibes en lo astral, en akella rikeza de espíritu, recorrendo el camino ke bay a levarte para un something especial, para la arte, para la bictoria sobre la muerte, para la huenrra, al encuentro de Diós, un Diós cualkier, el Diós tuyo.
    Akello something.
    Lo Charlie Parker, uno desos lokos, por exemplio, lá, en akella angústia, buscando something, un jetcho de juntar unos sonidos de manera única, akello lance astral, un pokito mágico, akella rikeza de espíritu, una combinació de sonidos ke és solo una combinació de sonidos, ke sería solamente una combinació de sonidos si no fuera something. Pero esos lokos tienen esa obsessió de estar siempre cazando something, eso fuego astral, mó loko. Mantener eso fuego astral, mó loko, siempre encendido. Y lo Charlie Parker, lá, sólo como exemplio, despues de juntar esos sonidos todos, dakello jetcho mó loko, hablando directo con el Diós, encuentrando la no-muerte, todabia bay lá tomar heroinita, kedarse en las borracheras de la obscuridad, bibiendo situaciones mó lokas, astrales, ricas de espíritu, una mina en lo medio etc., esos lances todos del Dionísio – la arte, la muerte, lo Zé Celso, lo vino, la heroinita, las combinaciones de nuetas, naves espaciales etc.
    Pero esto tío és un sacy monstruoso, el Dionísio. Porke és una companhía heavy demás. Tu no puedes kedarte zankeando demás con ello por aí, eletricidad 24 horas por día, lo Jimi Hendrix, por exemplio, lá combinando sonidos, combinando sonidos, nonstop, unas minas en lo medio, akella angústia, akello fuego astral elétrico that never goes out, tu no puedes kedarte sendo, lá, mó loko experimental transgresor de vanguardia todo el tiempo, baboseando lá en lo mamadero, con lo Dionísio gorroneándote, nakella angústia del fuego astral.
    Porke lo Dionísio embroca un tipo tipo lo Glauber Rocha, por exemplio, lá, en akella angústia, tentando explicar akellos lances todos, nakella imuertalidad astral, la arte, la muerte, la geopolítica internacional universal, la muerte venindo, no se contentando en kedarse haciendo una milonguita agradábile, de ascensor, esas peliculas tipo ke no te hinchan las pelotas, ke tu entiendes easy, chupando Ypióca Prata en el mamadero com akello atorzito secundario de la nobella en la tele, ke siempre hacía papel de capanga nesas nobellas de Pantanal, de paizito, esos lances, pero ke ahora está kasi muriendo, la cara bermeja, lo Dionísio mamando la última gota del fogo astral del ex-capanga de nobella de tele, y ké pasa, che? Neguiño explode. Dionísio explode el tío.
    Lo Dionísio no tiene limites.
    Lo Dionísio bay tentar matarte, no tenga dudas. Al minos ke tu lo expulsas luego de tu alma. Para esto, evita contactar algun fuego astral cualkier, con combinaciones de nuetas mutcho lokas, akellas arengas dionisíacas de Glauber, el fuego de las pasiones revolucionárias. Oye sólo las milonguitas ke no rompen bolas de jetcho ningún, sólo la ke tu ni reparas. Nada de pensamientos sobre la muerte y esos lances mó lokos. Confórmate con la muerte, ke esa no hay jetcho. Peinado divididito, corbata, ke és un aderezo ke bay te dejar mutcho más sexy etc.
    Dionísio puede mismo no conseguir explodirte, ahí, muy fácil. Pero Dionísio és sensible y temperamental. Se tu no morir de tantas combinaciones de nuetas mutcho lokas, se tu no morir desa pose mó loka experimental transgresora de vanguardia, deso fuego astral eléctrico ligado en lo maximum, e esas Ypióca Prata, las minas en lo medio, akella arenga toda del Glauber Rocha en lo mamadero de la eskina, Dionísio bay embuera, en un gesto de auto-exílio, y bay dejarte muy soziño.
    La pancreatitis aguda necro-hemorrágica ke lo Dionísio te metió, akellas combinaciones de sonidos mó lokos, akellas arengas todas sobre lo Glauber Rocha y sobre los lances mutcho lokos experimentales transgresores de vanguardia ke tu ia escribir, meter en películas, en milongas, la Ypióca Prata, esos lances, dejárante con akella cara un poco rara de kien no sabe lo ké decir para lo capanga de la nobella de la tele, akella cara de kien no entiende el entusiasmo dakello poeta amigo tuyo mutcho loko mamando Ypióca Prata, berrando cosas extrañas a respecto del Dionísio. Tu amigo keriendo ir mutcho más fondo en las kestiones del espíritu, de la arte, de la muerte, mutcho más far away, con mutcho más fuego astral do ke lo Zé Celso, lo Glauber Rocha, esos lances.
    En lo exílio de Dionísio, tu nunca bayas a perder la sensació de ke está faltando un something.


André Sant´Anna
Tradução para Ronaldón Bressane, um dos criadores do "Portunhol Selvagem", uma língua que usamos para nos comunicar com los hermanos latino-americanos...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vila viçosa

                                                                                                   © Sebastiaan Bremer






Pois bem, há esta rapariga que de quando em quando levanta os olhos dos livros que espalha pela mesa, a mesma mesa cada dia, os mesmos livros, será que os lê sequer ou que os traz para fazer de conta que sim. Olha-me como se me visse pela primeira vez, e, no entanto, lembro-me dela do ano passado, do ano anterior, e espero-a já para o próximo ano, não sei embora que não regressará. Sinto que me acha bonito. Bonito, não, belo. E louco. Não, não julga, disseram-lho, ela ouviu-o, e olha agora como se pretendesse deslindar um mistério qualquer. Não há mistério nenhum, moça. Há isto: saio de casa, seguiste-me um dia e anotaste no teu caderno o nome da rua, o número da porta, para um poema disseste tu, tê-lo-ás escrito?, saio de casa e repiso os passos do dia anterior, do dia de amanhã, de todos os seguintes, não penso em nada, estou ausente, apenas isso, ausente. Sento-me nuns degraus junto a uma oliveira e derramo o corpo ao sol, na mão direita um cigarro que se vai consumindo porque até de fumar por vezes me esqueço. Sou filho desta vila, não, filho não, enteado, todas as vilas do interior têm o seu, nas cidades são tantos que se confundem com os outros, os sãos, impossível dizer qual é a maioria. Dizem também que me perdi, perdeu-se, perdido, o álcool, coitado, a vida, o raio, mas não é verdade, ou só parcialmente, estou presente na minha ausência, esbarro em mim constantemente, e sei que quase ninguém pode compreender isso. Talvez a rapariga, sim, tentar, pelo menos, percebo que gostaria de tentar compreender, mas eu já nada tenho para dizer, abro a boca apenas para inalar o fumo, para o expirar. Trauteio melodias antigas em voz baixa, tão grave, tão cava, que só seres menores me ouvem e por vezes me acompanham num coro desafinado e profundo. Sento-me no framar, tomo um café, ouço os comentários, não retenho nada, deixo passar as frases, deixo-as deambular, tal como eu, passado passando, passando passado, embora o mesmo percurso sempre. Embora o futuro nenhum. As badaladas do sino da igreja matriz, ou será da sé?, conheço-as desde criança, ainda não tinha enlouquecido, estava morto por crescer, e agora, crescido, belo aprecia ela, estou morto por morrer, por penetrar de vez nessa escuridão que ensombrece a minha figura projectada nas paredes brancas caiadas da vila. Morto por morrer, mas incapaz do gesto derradeiro porque ainda exige propósito a mais. E estas mãos, belas observa ela, compridas morenas queimadas, estas mãos emudeceram ainda antes que a voz.

Hoje ocorreu-me cumprimentá-la. Como a minha voz se precipitou definitivamente no silêncio, sentei-me e levantei-me duas vezes seguidas, não sei se ela compreendeu, talvez, porque houve um esboço de sorriso no seu rosto, se me era dirigido não posso afirmar, reparei como ela sorri muitas vezes sem razão aparente. Pelas minhas mãos passou então um frémito de alegria, dirão de loucura, eu digo de alegria, há quanto quanto tempo, e quase derrubava a chávena de café, quase. Nervos nas mãos, há quanto quanto tempo. Como vês, miúda, se fosses minha chamava-te assim, miúda muito graúda, como intuías certeiramente, nada de particular para contar, se calhar foi a partir daí, quando nada mais para contar, não por falta de acontecimentos, banais, claro, mas não o são quase todos, mas por falta de vontade, por total ausência de premeditação, e depois as próprias palavras rarefizeram-se, já nem peço o café nem o tabaco, basta eu aparecer que eles aparecem também.

Foi há dez anos. Pelas badaladas do sino. Não sabes que entretanto morri, dizem eles, que na realidade continuo por aqui deambulando, sabem-no as pedras da calçada portuguesa que conhecem o peso exacto do meu corpo. Não sei que entretanto sobreviveste a um gesto pouco premeditado e quase derradeiro, que por pouco nos íamos encontrando do lado de lá da vida. E então talvez nos reconhecêssemos, talvez a minha voz me tivesse sido devolvida, restituído o meu nome próprio, caminharia na tua direcção e contar-te-ia tudo desde o princípio, quando eu era criança, filho querido desta vila, morto por crescer, quando andava a cavalo pela planície generosa, galopando por entre marmoreiras e sobreiros, até esse dia em que falhei um obstáculo e caí do cavalo e fiquei estendido na terra encarnada, para sempre contemplando a paisagem, erguendo-me depois para fazer de conta que sim, endireitada a coluna ainda que eu doravante debruçado sobre nada, acocorado no chão do meu corpo, ora tremendo de frio ora fervendo de compaixão, tal como tu, certa noite de um dia sofrido, mergulhada num lago de sangue, e um sorriso aberto acendendo o teu corpo derramado nos mosaicos tresmalhados da tua vida quebrada. Tão bela serias então, com o teu blusão e as tuas sapatilhas adidas cinzento prateado, tão bela ter-te-ia amado. 

Bénédicte Houart

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Versos que lembram (6) - Rainer Maria Rilke



                Vim ‘à fala’ com Rainer Maria Rilke através das traduções de Paulo Quintela, e não, como talvez fosse minha obrigação (eu era estudante de Germânicas), através do original. Mas as traduções do velho mestre de Coimbra fazem justiça, creio eu, à linguagem magnificamente certeira (ia dizer: cirúrgica) do poeta. E foram elas que me encorajaram a ler, mais tarde, alguns textos de Rilke em alemão.
                Como a muitos outros leitores, o poema “Herbsttag” impressionou-me duradouramente. Ainda hoje mal consigo relê-lo sem um arrepio de comoção. E até hoje continuo a tentar encontrar o verdadeiro sentido do poema — que aliás não precisava de ter sentido nenhum para ser uma obra-prima de ourivesaria poética.
                Com Miguel Torga, eu tinha aprendido que era possível aos poetas ‘falar grosso’ (mas com verdade) com Deus. Com este poema de Rilke aprendi que lhes era possível usar de ironia (que é a mais subtil forma de inverdade) para com o mesmo Deus.

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
Und auf den Fluren laß die Winde los.

                De facto só por ironia (ou sarcasmo) pode alguém — que na última estrofe do poema geme o antecipado desconforto e solidão do Inverno (velar, ler, escrever cartas, vaguear nas alamedas) — implorar a Deus que ponha termo ao Verão.
                À falta da tradução de Paulo Quintela, que não tenho à mão, aí vai uma paupérrima tradução minha destes três versos admiráveis que tantas vezes me lembram:

                São horas, Senhor. O Verão alongou-se muito.
                Pousa  sobre os relógios de sol as tuas sombras
                E larga os ventos por sobre as campinas.

 A.M. Pires Cabral

terça-feira, 3 de janeiro de 2012



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