sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Praça da figueira


 A sua pombinha era eu. Chamava-me, vem cá menina, e a voz antecipando-se amolecida, ou então agarrava-me quando passava por ele pelas esquinas da casa, puxava-me contra si, encostava-se todo, crescia, eu atirava a cabeça para trás a barriga para a frente, crescia com ele, e gostava. A sua pomba gostava.
Nem me recordo bem. Foi primeiro um empurrão, estava eu a comentar que o vizinho do terceiro tinha enviuvado, que desperdício, tão novo e bem parecido, logo havia de encontrar… e veio o empurrão. Não caí. Olhei para ele surpreendida, protestei, supliquei. Desculpou-se, ou em jeito de desculpa agarrou-me, encostou-se como de costume, suámos ambos, gememos ambos. Nem sequer perdoei. Esqueci.
A estalada chegou na semana seguinte. A propósito de… A sopa gelada? Demasiado salgada? Os vincos na camisa do escritório? A conversa com a D. Adelina do quiosque que atrasou o jantar? Um olhar de esguelha para o vizinho? Já não sei. Apanhou-me o olho direito. Levei a mão ao rosto. Encolhi-me. Foi só uma. Baixei a cabeça. Comecei a chorar, primeiro muito devagar, as lágrimas lentas, logo mais velozes, o olho que ardia, os dois olhos escorrendo, como se vazando-se, o corpo a estremecer, sacudindo-o os soluços. As pombas não choram. Esperou alguns segundos, parado a ver-me, como se. Como se certificando-se de que eram lágrimas verdadeiras, sentidas. Arrependida. E logo os mesmos gestos, a mansidão na voz, vem cá pequenina, o seu corpo tenso, teso, forte, os braços protegendo-me, de quê, de mim própria talvez, era isso que ele dizia, tu não sabes, tu és uma ingénua, se não fosse eu, tu, minha pombinha, anda cá que eu faço-te um filho, faço-te quantos quiseres, põe-te a jeito, isso, deixa-te cair, isso, que eu agarro-te, isso… Isso.
Um ano daquilo. Dois anos daquilo. Nenhum filho. Estaladas, sim, empurrões, sim, pontapés, sim. Eu continuava a baixar a cabeça, encolhendo-me, tornando-me pequena, a proteger o rosto com as mãos, mas perdia-lhe o medo. Ganhava-lhe ódio. E, quando se encostava a mim, a pombinha já não pedia mais, já não gemia, já não atirava a cabeça para trás. Já não gostava. E começava a criar garras.
Lembro-me de que dantes me enternecia quando atravessava a praça da figueira, lágrimas rasando os olhos, as pombas arrulhando, os velhos dando-lhes sobras de pão, as pombas arrulhando, e eu, eu, uma de entre elas, arrepiando-me toda, esfomeando-me, ansiosa por chegar a casa e deixar-me escorregar e cair.
Anos daquilo. Quando o eléctrico me deixava na praça, já sentia asco. Anos daquilo. Quando o eléctrico parava, eu descia e já não olhava, já não ouvia. Não sentia nada, nada, a não ser uma estranha força que se apoderava dos meus pulsos, dos meus dedos, das minhas unhas, tenso o corpo, teso, preparando-se sem saber. A pombinha estava morta. E eu já nem chorava, em silêncio cirandava afiando as garras nas esquinas da casa. E espreitava a oportunidade.
Há muito fora enterrada, a pombinha, quando me partiu um braço. Levou-me às urgências. Marido consciencioso, grande cabrão, todo falinhas mansas para as enfermeiras, despindo-as com os olhos, trincando-as, dizimando-as com as palavras, a mim já só se encostava por desfastio, e o seu desejo, vago, vezeiro, ia encorpando o meu ódio, escorregou a minha pombinha, vejam só, tão desastradazinha que ela é, sim, pois, nas escadas. As pombas mortas não escorregam. A casa não tem escadas. Tem esquinas.
Não, pois já se me tinha morrido, aquela brutalidade. Não, pois se eu própria também já tinha morrido. Os mortos não matam, apenas continuam morrendo. Que podem dois mortos um contra o outro?
A sua pomba era eu. Passava por mim ou procurava-me pela casa, ao virar de uma esquina, poucas, porque a casa era pequena, ainda assim mais do que bastante, agarrava-me pela cintura, enfiava as mãos na minha camisola, debaixo da minha saia, anda cá, anda cá, não fujas que eu sei que tu gostas, e eu a fingir, diz lá se não, diz lá que não, e eu que não que não, minha pombinha, vou dar-te a volta à cabeça, a esse corpinho tão jeitoso, ia falando e tirando a roupa, a minha, a dele, e depois, depois, se eu gostava, como eu gostava, o corpo dele metamorfoseando-se numa só mão, o meu também, as duas mãos de um só corpo, nosso ou nem sequer, uma onda de espuma que me entontecia, as pernas trôpegas, a boca cheia, a pele revirada, os olhos ardendo insones, os órgãos enlanguescendo-se. Sangue, silêncio, sémen.
Inocente e culpada, tanto se me dá, tanto se me dá. É como disser.
Senhor doutor juiz.


Bénédicte Houart     

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O hortelão de calção de banho





Para descansar do trabalho no banco, para se livrar da confusão da cidade e para ter um tempinho só para ele, Manuel Benigno Lopes vai quase todos os sábados à horta junto à barragem. É um pequeno retângulo de terreno que os pais lhe deixaram, onde planta batatas, couves, tomates, cenouras e alho francês. Se está um dia bom, aproveita para dar um mergulho na água da barragem ali mesmo ao lado. Até porque Flávia não vê com bons olhos estas suas escapadas hortícolas — Manuel não sabe porquê, talvez por  nunca ter gostado dos pais dele, que eram gente humilde e sem maneiras, ou por não lhe parecer muito viril isto de um homem se entreter a plantar legumes — e, se ele disser que vai nadar, a coisa já parece mais aceitável. Das primeiras vezes levou as filhas, mas agora vai sozinho. Ana e Susana andam ocupadas com estudos, amigas e namoros (a mais velha, pelo menos), de maneira que ele já nem lhes pergunta se querem ir “dar um mergulhito à horta”.
                Hoje, ao regressar, bateu contra um animal na estrada. Não pôde fazer nada, o bicho atravessou-se à frente do Peugeot. Manuel travou a fundo, o susto subindo-lhe pelos músculos dos braços e das pernas, mas foi tarde demais.
                Era um cão.
                Na estrada deserta Manuel sai do carro e olha o animal: deitado no asfalto, como que a dormir, sangue negro contornando-lhe o corpo, uma sombra líquida. Um cão bastante grande, de pêlo castanho e olhos escuros; um focinho até nem dos mais feios.
                Mas está morto. Manuel já não pode fazer nada por ele. Volta para o carro, segue para casa.
                Ao jantar (empadão, a comida preferida das filhas), ensaia mentalmente a melhor maneira de contar o que aconteceu. A mulher fala de uma loja “estupenda” que vende roupa “com muita classe” a “preços aceitáveis” e descreve os vestidos com grande pormenor. As filhas não largam os olhos dela. Perguntam-lhe por tamanhos e promoções. “Nem imaginam, hoje, quando vinha da horta...” “Quando voltei da barragem, hoje...” Não, pensa Manuel. Talvez seja melhor não falar de morte à mesa.
                Veem a nova telenovela da SIC, e depois as miúdas vão para o quarto ouvir música e navegar na net. Flávia deita-se na cama a ler um romance que traz na capa a fotografia de um homem e uma mulher, penteadíssimos, a simularem um beijo apaixonado. No sofá Manuel folheia o Correio da Manhã.
                À noite, sonha que está a ver um documentário sobre “a natureza portuguesa”. Planos de árvores, pássaros, campos, e sobre isso uma voz mansa que vai descrevendo o que está à vista: “oliveiras centenárias”, “garças em formação de voo”, “gado a descansar”. Manuel assiste ao programa com prazer, sentindo que aquela combinação de imagens conhecidas e narração arrastada lhe dá uma paz maravilhosa. Não se sentia tão bem há séculos. Mas, de repente, a estrada.
                A câmara avançando, num voo veloz sobre o asfalto, até descobrir o corpo caído — detém-se num grande plano do focinho. Moscas nos olhos inexplicavelmente ternos do cão, e a voz do documentário põe-se a falar de “spreads” e “juros”, “taxas” e “créditos” e “margens”. A linguagem que ele e os colegas usam no dia-a-dia do banco, meu Deus. “Capital”, “risco”, “planos”,  “dividendos”, “garantias”, “bruto” e “líquido”, “líquido” e “bruto”.
                 Às sete da manhã, Manuel levanta-se. A mulher pergunta-lhe, ensonada, o que é que se passa e ele diz que vai nadar. Não sabe porquê, para quê, mas tem de lá ir outra vez.
                “Leva o lixo”, diz ela.
                O cão já não está na estrada. Manuel estaciona o automóvel na berma, numa zona mais larga, e dá uma volta a pé, à procura. Encontra-o junto de uns arbustos cheios de pó. Alguém o terá arrastado para ali, talvez um agricultor ou um pastor. Ou talvez um automobilista mais consciencioso. O bancário olha o cadáver. Era bonito o raio do bicho. Teria nome?
                Abre o portabagagens, pega no grande saco negro e vira-o ao contrário, esvazia-o de todo o lixo. O desperdício produzido em dois dias pela sua família forma agora um montinho na berma; um monumento ao mau cheiro. Depois aproxima-se do cão morto e, com um cuidado clínico, criminoso, enfia-o no saco. Usa as duas mãos para levantar o volume negro do chão. É como se tivesse nos braços um bebé gigante, de plástico e sem forma. Um peso espantoso.
                Nesse momento, o barulho de um motor: passa um Mercedes a acelerar na direção da cidade. Manuel levanta os olhos. Ainda bem que não é ninguém que ele conheça.
                Muito devagar, deposita o saco no portabagagens. Sobre o automóvel, o céu azul, um silêncio perfeito.
                Depois de ter enterrado o cão, Manuel larga a pá e deixa-se ficar um momento na horta a admirar o resultado do seu trabalho. Não está inteiramente satisfeito, ainda falta alguma coisa. O quê, devia dizer umas palavras? Devia cair de joelhos e dizer uma oração, rezar ao deus dos bichos? Sem pensar, dirige-se à casinha de apoio onde guarda as ferramentas e pega numas sementes de cebola que deixara ali para o dia certo. É hoje o dia certo.
                Passado um bocado, olha o retângulo de terra castanha, ou negra, ou vermelha, onde plantou cebolas, e sente que sim, agora sim, fez o seu trabalho. Parece-lhe adequado que, sobre aquela morte tão estúpida, cresçam bolbos que choram.
                Do outro lado, a água da barragem; lisa e brilhante como uma lâmina.
                Manuel mergulha, nada uns metros em linha reta.
                Cá fora, seca-se ao sol, de pé, de cabeça vazia.
                Por fim, volta ao automóvel e faz a estrada de regresso. Guia calmamente, meio distraído com a paisagem que devia estar farto de conhecer. Não há domingos no campo, pensa.
                E, quando surge a placa a indicar a cidade, não vira. Segue em frente, continua viagem sabe-se lá para onde. No Peugeot, um leve cheiro a lixo, mas ele não se importa. Não se sentia assim há quanto tempo? Imagina a sua figura a sair do automóvel numa estação de serviço qualquer, daí a duzentos ou trezentos quilómetros — com aquele calção de banho florido e aquelas unhas cagadas de terra —, e ri como um perdido.


Jacinto Lucas Pires
               
               

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Fragmentos de "É mais difícil cuidar de batatas do que de ginseng"



 Diário de bordo, 21 de janeiro

Meio-dia, o silêncio habitual que se faz a essa hora. Entrou um homem no vagão-restaurante e sentou-se ao meu lado. Pediu desculpas por estar ali, acomodou os cotovelos à mesa e disse: não conheci meus pais, nem mesmo por fotografia. Moro nas hospedarias das estações de trem e, quando viajo, quase sempre consigo uma cama no vagão dos empregados em troca de trabalho, sou ajudante-geral, aguardo os imprevistos. Quando dois precisam de mim à mesma hora, não é problema meu, são os outros que decidem. Nas hospedarias, pago 10 copeques por noite e 12 nos finais de semana. Vendo objetos usados, coisas encontradas nas estações ou que ficaram esquecidas no trem. Durante as viagens recolho a comida que largam nos pratos, os últimos goles de vodca, pontas de cigarro. Tinha os olhos muito claros e mãos musculosas. Perguntou-me de onde eu vinha. Voltei-me para a janela, e aqueles amáveis olhos azuis foram repentinamente engolidos por um rosto duro inexpressivo. Nos despedimos sem nos tocar.


Diário de bordo, 24 de janeiro

O trem é um quadro móvel no branco para quem está do lado de fora. Mas não há vivalma do lado de fora. Em qualquer direção que se olhe há sempre o branco. Para quem está do lado de dentro há a total ausência de movimento do lado de fora. O trem chacoalha e parece que chacoalha parado no mesmo lugar. Nota-se que anda somente quando um pedaço de gelo é despregado da janela pelo vento. A Sibéria é uma homenagem aos mortos, ao desaparecimento, à fossilização do espaço. Outros homens já passaram pela Transiberiana fazendo o caminho inverso ao meu, deixando para trás a Europa, rumou ao oriente, ao lado de uma doce Jeanne. Enquanto nós seguimos para a capital. O que nos alivia um pouco a longa viagem é saber que chegaremos em um lugar com bairros, bairros com ruas, ruas com nomes. Construções sólidas por onde pessoas se cruzam, se esbarram, se olham ou, pelo menos, concordam que ali coexistem. No Transiberiano não é assim, você não existe. Somos um monte de trouxas ambulantes pelos corredores, cabeças baixas, bocas secas. Ninguém é homem ou mulher, jovem ou velho, simplesmente anda-se, indo e vindo para a cabine, para o vagão comum, para um chá.


Valeska de Aguirre