quinta-feira, 28 de abril de 2011

Na Páscoa, Ressuscite.


      O Cristo lá, detonado, sendo torturado. Os caras, aqueles troços humanos de dois mil e tantos anos atrás, lá, aqueles porcos, sem qualquer pensamento bom passando pelo cérebro, pregando as mãos e os pés do Cristo na cruz, rindo, que nem nesse filme que aquele ator americano gostosão fez pra ganhar uma grana, o Cristo todo ensanguentado e um romano meio gordo, porcão, morre de rir ao dar umas porradas no Cristo, lá, gemendo de dor, sentindo muita dor, horror mesmo, horror que só filme americano pra ganhar uma grana consegue mais ou menos reproduzir – é preciso muita tecnologia, muito efeito especial para reproduzir mais ou menos a brutalidade dos seres humanos sem efeitos especiais, sem maquiagem, sem igreja, sem regulamento, sem roupinha moderna, sem prozac, sem viagra, que havia na época do Cristo.
      Não que o ser humano tenha melhorado muito. Mas, você sabe, uma bela direção de fotografia, um bom maquiador, umas roupinhas douradas, um diretor de cena que compreende a linguagem das massas, filósofos, William Shekspeare, rock’n’roll, publicidade, sininhos, mensagens de Natal, mídia, poesia e… pronto! A gente consegue dar uma bela disfarçada. Quer dizer, a gente consegue enganar a maioria, aqueles tolinhos.
      A gente, lá, cristã, comendo bacalhau com ovo que sobrou do almoço santo, do almoço-penitência, no feriado, na praia, caipirinha, cerveja, dança da bundinha, assistindo ao filme do Cristo sentindo muita dor, na televisão que a gente paga para ver nitidamente a representação do Cristo sentindo muita dor.
      Deus, eu não sei quem é, o que é. A impressão que tenho é a de que Deus é uma parada que alguns humanos tiram da manga, de vez em quando, para ganhar alguma coisa de alguém, para tomar alguma coisa de alguém, para fazer uma grana, para convencer alguém a fazer algo que não queria fazer, ou não fazer algo que queria fazer – abstração, segundas intenções, essas parada.
      Mas, o Cristo, não.
      História ou ficção, a idéia, a questão, do Cristo, talvez seja a única idéia humana, a única questão humana, que talvez nos redima diante da criação, diante de Deus!!!!!??????!!!!!!!!???????!!!!!!!!!
      É verdade, a espécie humana nasceu em pecado, nasceu do pecado. A espécie humana é aquele romano porcão do filme do ator americano gostosão, é esse troço sádico, capaz de morrer de rir diante de um homem (Deus?) ensanguentado, crucificado, se retorcendo em dor. E Cristo esteve por aqui exatamente para jogar a nossa imundície, o nosso pecado, o nosso sadismo, a nossa imbecilidade, na cara da gente.
      Vejam o que vocês estão fazendo comigo, seus animais selvagens sádicos, vejam. Vocês foram autorizados pelo poder político vigente, pela religião vigente, a crucificarem homens, a torturarem homens, a rirem do sofrimento de um homem. Você, caro leitor, caro pecador, você é isso: crucificador, torturador, sádico. E se você é capaz de crucificar, torturar, debochar, você também pode ser crucificado, torturado, humilhado.
      Mas, ao inventar o amor, ao sugerir o amor, Cristo apontou para a possibilidade de você, no amor ao próximo, na compaixão, se transformar em algo melhor, escapar da auto-cruxificação, auto-tortura, auto-humilhação. Bastaria.
      Mas não.
      O ser humano é tão porcão, tão preocupado em ser melhor do que os outros, em ser melhor do que tudo, que acabou transformando a mensagem do Cristo, o amor de Cristo, em meia dúzia de regras de comportamento. Você não pode vestir tal roupa, você não pode amar tal coisa, tal pessoa, você não pode pensar tal coisa, você não pode compreender a vida, o universo, a genética, você não pode beber isso, fumar aquilo, você não pode deixar o seu cabelo crescer, você não pode falar tal palavra, você não pode, não pode. Você pode punir tal pessoa com a morte, mas você não pode aliviar o sofrimento de tal pessoa com a morte. Você pode matar Cristo em nome de Deus. Você pode torturar Cristo em nome de Deus. Você pode humilhar Cristo em nome de Deus. Afinal, o próprio Cristo inventou o perdão que te perdoa. 
      Mas, se você quer deixar de ser um romano meio gordo, um porcão, só há um caminho, pode crer: Ame o próximo. Ame o seu inimigo. Ame a você mesmo. Ame. E nunca se esqueça de ser piegas. O amor piegas ao próximo é poesia pura.
      O resto é problema do Papa, aquele político que libertou o mundo do comunismo.

André Sant’Anna

terça-feira, 26 de abril de 2011

Sábado, 4

                                           William Gaskill

“O inglês”, diz uma personagem inventada por Lluisa Cunillé, na sua belíssima Barcelona, Mapa de Sombras, “é língua boa para telegramas”. Sim, é verdade, é língua rápida,  permite bons títulos, grande poesia, diálogos cortantes (ah, Harold Pinter!). E é tão difícil de traduzir, credo. Tenho, ali, ao lado da cama, o livro de William Gaskill (o enorme director britânico, esquecido por cá, nunca conhecido, sempre por cá ofuscado por gente bem mais vistosa e oca, nem digo os nomes, mas penso-os). É um livro de 170 pgs, editado este ano pelos Nick Hern Books, e é tudo, análise da história do teatro, comentário literário, programa estético, anedotário, tudo em 170 pgs recolhendo 80 anos de vida e 60 de teatro. Chama-se “Words Into Action” e dou um doce a quem conseguir encontrar melhor definição do trabalho de criação teatral – e a quem conseguir traduzir estas três palavras na mesma telegráfica poesia. E, lá pelo meio, Gaskill (o homem que dirigiu maravilhosamente Beckett, Brecht, Farquhar, descobriu Hare, descobriu Bond – dirigiu o Saved ! -  e foi, durante anos professor na RADA (é o melhor professor, diz Maggie Smith, sua cúmplice de tanto teatro), descreve a sua profissão de encenador: é trabalhar “from the text outwards”.  Não, não se pode traduzir “ do texto para fora”, fica a faltar qualquer coisa, o movimento. Poderá ser “abrindo o texto”, ou poderíamos usar o verbo “extrair”? Não sei, não consigo. Vou ler – e, para aqueles que, tantos, acham que “encenar” é “fazer bonitinho/ mentir/ aldrabar”, vai com esta leitura uma oração de Páscoa: arrependam-se, ainda é tempo.


Jorge Silva Melo

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Quanta, quanta guerra"


 
 
 
"Quanta, quanta guerra" de Mercè Rodoreda inaugurou, juntamente com "O Caderno cinzento" de Josep Pla, a colecção Grande literatura catalã, publicada este mês na Cotovia.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Sábado, 3

                                       "Eugene Onegin" com encenação de Peter Kowitschny

Sentei-me, anoitecia, naquela esplanada da Rua Anchieta, junto ao Governo Civil, a tosta mista é descomunal e tristonha, pronto, peço mais água. E olho para o edifício morto, quartel, que, só agora, parece, irá acolher o museu do Chiado (ai, podia ter ido ver a exposição de Adelino Lyon de Castro, tinha pensado e tudo, esqueci-me). Agora, quer dizer, quando este governo acabar e se o próximo existir, há tantos anos que andam com essa promessa. E vejo, apagado, o Teatro de São Carlos (uma noite de Sábado em plena temporada, um teatro fechado, que desperdício...), esse enigma dispendioso. Como eu gostaria amanhã, domingo, de me sentar para uma matinée, ópera italiana, um Donizzetti, (há tanto tempo, tanto que não vejo!), um Bellini... até poderia ser um Ponchielli, coisas menores mesmo, mas era assim amanhã mesmo que eu me entregaria a essa volúpia, esse enredado de uma qualquer ópera. Mas não. Toda a gente disse mal da programação anterior (e com 95% de razão); mas a actual é o quê, que não a vejo? Pelo menos, em dois anos vimos dois espectáculos que não esquecerei, os que dirigiu o mais inteligente dos encenadores que agora assinam produções, Peter Konwitschny, uma extraordinária Bohème e um cansado (mas, ó!, quão límpido) Eugen Oneguin. Agora, não sei – nem nada se me afigura de bom, nem uma promessa. Amanhã será domingo, ficarei por casa e talvez me ponha a ouvir (mas é triste, aqui sozinho em casa, a ópera é bom para cumprimentar pessoas que não vemos normalmente...) Victoria de los Angeles. Ando com tais saudades do drama lírico... E este ano ainda não fui à ópera. E vivo numa cidade. Talvez me ponha a ouvir a Sutherland, sim, ando com saudades de Donizetti.


Jorge Silva Melo

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Bárbara e Wittgenstein em Casablanca



Estaríamos em Casablanca. O comboio azul pararia na estação. Entre as figuras no apeadeiro, reconheceríamos duas: a do homem curvado sob o peso das malas ou da vida; a da mulher de ar apressado cingindo o casaco de malha escura que parece fugir de todas os comboios parados, de todas as crianças paradas a perseguir o acontecido.
E aí estás tu Bárbara, miúda de sete anos: «pai, o que representa a imagem?» O jogo de faz de conta, o modo como «representar» se define pelo movimento de mãos sobre a página do jornal, o desenho do sentido e do uso, o invisível das palavras ditas a explodir sobre o tapete do que não sabemos, como sementes.
«Um dedo percorre a superfície de tinta, o inviolável da luz que os teus olhos desdobram.»


Luís Quintais

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Trecho de "O ladrão que estudava Espinosa"




Hoje publicamos o trecho dum dos primeiros títulos que inauguraram a nova colecção Gato preto


Bernard Rhodenbarr é um detective com uma particularidade única: é obrigado a investigar crimes para provar à polícia que não foi ele que os cometeu. Livreiro em Nova Iorque, Bernie cultiva outras paixões, mais lucrativas — como abrir fechaduras sem usar chaves e pilhar a propriedade alheia. Desta vez, o que faz é apropriar-se de uma moeda de cinco centavos — mas um V-Nickel, raridade estimada em meio milhão de dólares. Depois do roubo ocorrem dois assassinatos relacionados com o desaparecimento da peça. De quem desconfia a polícia? Enquanto administra os conflitos entre Carolyn, sua cúmplice, e Denise, sua amante, Rhodenbarr põe em prática um plano para se salvar. Terá de usar todo o seu talento com fechaduras e de procurar nos escritos do filósofo Espinosa as chaves para desvendar o caso, isto é: para continuar apenas com fama de ladrão.
 
Os livros da colecção Gato preto já estão disponíveis na loja online da Cotovia. Nos finais de Abril estarão nas melhores livrarias.





















segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sábado (outro)

                                  "Um Homem Falido"

Este sábado, 9 de Abril, eu não posso, mas o que queria era meter-me no carro e ir até Torres Novas, à inauguração de uma nova exposição de  Sofia Areal. Gosto da Sofia, deslumbra-me a sua agitada luz, a sua intensa, apaixonada vibração. Mas eu gostava era de ir a Torres Novas, àquela galeria Neupergama, em lembrança do seu fundador, José Carlos Cardoso, que morreu há uns meses e eu só descobri tarde demais. Era extraordinário, ali, em Torres Novas, ir às inaugurações, ficar a conversar na rua, às vezes ler poesias (Cesariny, sempre), conversar (foi lá a última vez que estive com o João Vieira, e rimos ), com o Rui Mário, o Nikias, a Sofia. Filmei lá, José Carlos Cardoso, com extrema generosidade, mostrava-me os extraordinários Lapa, Sena, Skapinakis, João Vieira que tinha. E levava-me ao café, ao restaurante, refilando contra os tempos que correm, o analfabetismo crescente, o péssimo jornalismo, falando do seu amigo Bual, de Cesariny, das mãos perfeitas de Álvaro Lapa (“era um extraordinário bricoleur, já viu estas madeirinhas?...), das suas desavenças, inquietações, gostos. Durante 30 anos quase, manteve uma galeria numa cidade pequena – e o respeito dos artistas. E a amizade de alguns. Eu gostava dele, do seu mau feitio, da sua roupa extravagante (calças vermelhas, cachecol verde, nem sei onde comprava aquelas coisas tintas por um Matisse dos anos do papel de lustro), às vezes falávamos ao telefone. Gostava de ir, com a Sofia, ver a sua exposição, conviver. Mas é a derradeira apresentação de Um Homem Falido no Instituto Francês, belo espectáculo, belo texto, belos actores – e eu vou mas é ficar nos bastidores, ouvindo-os, recolhido. E, no fim, aplaudindo-os, que bons que são os Sábados.


Jorge Silva Melo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Manoela Sawitzki lê trecho do "Suíte Dama da Noite"


A escritora Manoela Sawitzki foi convidada para participar no projecto "Leituras  Sabáticas" da TV Estadão. Aqui vai a leitura de um trecho do "Suíte Dama da Noite", publicado na colecção Sabiá.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sábados

É bom, os Sábados. Manhã toda em casa, a trabalhar desde cedinho, sumos de fruta, um pão de ló que trouxe ontem do Porto, uma sestazinha daqui a nada. E depois, lá mais para a tarde, não sei se no meu  4L (ando preguiçoso) se a pé e de táxi, vou ver a exposição do Albuquerque Mendes na  Galeria Graça Brandão (cheio de curiosidade), e a exposição de desenhos do Manuel Baptista na Fundação Carmona e Costa, expectante ( voltarei lá daqui a uma semana, que há conversa com o José Gil, sempre é bom), fiquei tão entusiasmado com a que está no Museu da Electricidade (desenhos e esculturas, Fora de Escala, chama-se), eu, que julgava conhecer o Manuel de trás para a frente, tão íntimo com o meu tempo foi sendo o seu trabalho, tão amigo dos meus amigos (Fiama, Gastão, Cármen Gonzalez, todos no Monte Branco do Saldanha, 1960 e quantos?). É a revelação deste ano, não há dúvida. E vai colocar um problema na história da arte: de que ano são os trabalhos (que foram executados agora mas planeados nos sessenta e tais), como as esculturas de Ângelo, etc. Afinal, era o que estava na gaveta, no 25 de Abril, os trabalhos que os artistas não chegaram a fazer porque não havia dinheiro, entre bolsas e aulas que tinham para dar... Ainda vou tomar banho, e à tarde sair. Tarde de Sábado, que bom. E depois, ainda passo pelo teatro, para abraçar os actores de Um Homem Falido, tão bons, tão bem feito. No Instituto Francês, que belo espectáculo. Mas... não tenho cigarros, tenho de ir à mercearia antes que feche, acabou-se a literatura.


Jorge Silva Melo