quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Piquenique

    Não, às termas nunca fui. Diz que faz bem às artroses e à asma. E olhe que bem precisava. Mas conheço as bermas todas desta estrada. Não, não sou vendedora de melões. Nem de cerejas ou laranjas. Apregoo o corpo. Mas conheço as cores todas do céu, faça sol, faça chuva. E as nuvens esvoaçam lá em cima, navegam, é onde repouso a cabeça. Por vezes o rasto de um avião. Gostava de viajar num deles, aposto que me arrepiava toda de gozo, mas o que ganho só dá para as despesas do dia a dia, mais a creche do bebé. Já, já apanhei muitas molhas, ando sempre de nariz a pingar, apesar do meu estaminé ter um toldo, não se vê da estrada, mas está todo esburacado. É do uso. Tinha dezasseis quando comecei. Nem me lembra. Graças a deus. O primeiro deve ter custado. Depois a gente vai-se habituando. Já nem os distingo. O pior, sabe, apesar dos anos, é o líquido que me escorre pelas pernas. Não, nem sempre, eles não querem e eu não insisto, sempre são mais umas notas. Nojo? Não, nojo não, são os ossos do ofício. Por vezes, à falta de toalhetes, sabe, aqueles para bebé, os de marca branca são mais baratos, hidratam e tudo, limpo-me antes com as folhas das árvores. Eucaliptos, gosto muito de eucaliptos, diz que dão cabo da terra, mas eu gosto do cheiro. E de pinheiros, por vezes cai-me uma agulha na cara, pica, até dói, mas ao menos sinto alguma coisa. Quase parece que estou a fazer um piquenique. Houve um deles que me disse isso a fazer-se de engraçadinho, parece um piquenique, só falta a panela de arroz de frango e o garrafão de tinto. Às vezes, imagino que sim, fecho os olhos, observo as árvores fazendo-se ao vento, e esqueço. É como se não estivesse ali, percebe. Embora tenha de gemer de vez em quando, eles pagam mais. Mas é a fazer de conta, de modo que mesmo assim é como se não estivesse ali. Eles dizem uma data de coisas, chamam-me puta, vou-te foder todinha, dos pés à cabeça, toma, toma, toma, estão tão aflitos que não aguentam muito tempo, é um alívio, aposto que com as mulheres ficam mudos que nem peixes, ah, pois, são quase todos casados, de aliança e tudo. Mal casados, digo eu. Ou mal fodidos, vai dar ao mesmo. Eles e elas, vai dar ao mesmo. Pois se tenho freguesia, ganho mais aqui do que se trabalhasse numa caixa de um supermercado ou numa fábrica. E não tenho salários em atraso, é tudo pago na hora. Depende do trânsito, do tempo, do tesão dos camionistas, desculpe a expressão. No Verão então é um ver se te avias. Há um que até vem de bicicleta da mealhada, chamo-lhe o atleta. A sério, juro que é verdade. Chega afogueado, afogueado torna. Trabalha num daqueles restaurantes de leitão de beira de estrada. Alguns vêm de motoreta das aldeias das redondezas. Qual hora, minutos. Minutos que a mim soam a eternidades. Por vezes, parece que estou na praia, trago uma cadeira de lona às riscas e sento-me à sombra das árvores. O farfalhar dos ramos sonho que é o marulhar das ondas. Leio a maria para passar o tempo. Ou chamo a ------ que está lá mais à frente ao km ----. O mundo está cheio de cornudos, sabe. Meio mundo a enganar a outra metade. E esta outra a primeira. As mulheres, não acredito que não saibam, fingem. Há lá na maria uma sexa, ai, desculpe, uma espécie de, de perita em sexo, sim, é isso, sexóloga, uma sexóloga que aconselha os desgraçados, coitados, qualquer coisita e ficam logo desnorteados, e elas também. Porque se vem depressa, porque não se vem de todo, porque não sentem nada, porque terá outra, porque não gosta de posições mais arrojadas, e mais isto e mais aquilo. Pieguices, é o que eu acho. É pena que ninguém me pergunte nada, com a minha experiência tenho milhares de conselhos para dar. Mas às tantas perdia clientela. Sim, trazem o nome chapado no tablier dos camiões, embora, se quiser a minha opinião, podiam todos responder pelo mesmo. António, Manuel, Isidoro. O meu? Não posso dizer. Chame-me o que quiser. E não me tire fotografias que ainda alguém lá da terra me conhece. Ah, desfocadas, não se conhece o rosto, então pode ser. Não é por mim, sabe, o meu pai pôs-me a andar, disse já que és uma desavergonhada vai mas é tratar da tua vida. Foi um vizinho que me emprenhou, era muito meu amigo, ah se era, felizmente perdi o bebé, ia fazer um desmancho, mas não foi preciso, muito eu chorei, ia ser meu e foi-o, sim, foi-o por uns meses. Aqui dentro da minha barriga. É pior, acredite, não param de doer, essas coisas que se nos morrem cá dentro, ficam a roer, a roer. Aliás, já morreram os dois, os meus pais, e não sinto falta nenhuma deles. Não, é só por causa do meu bebé, que ele não tem culpa, é o meu menino, não quero lhe dêem a alcunha de filho da puta da nacional. De pai desconhecido. Qual quê? António, Manuel, Isidoro. Não. Filho do céu, das nuvens, das moitas, da caruma, do sol, da lua. Filho do Pai, que vela pelos que como eu e por todas as criaturas. Por vezes, vem comigo, deixo-o na toalha aos quadrados vermelha e branca a brincar com os copos e os pratos de plástico. Se chora, é um desatino, os homens não gostam, desconcentram-se, cala lá essa tua cria que assim nem amanhã me venho. Coitado, chama pela mamã. Sim, já levei várias sovas, um tipo uma vez bateu-me, António, Manuel, Isidoro, violou-me e pôs-se a andar sem pagar. Rabisquei a matrícula, mas está a ver-me no posto da gnr? Ainda aproveitavam para se desforrar. Não que lhes queira mal, conheço um que é uma jóia de pessoa. E tenho outro que é freguês, esse nem sequer se põe em cima de mim, já não consegue, diz só deixa-me ficar assim agarradinho a ti um pedaço, e aperta-me quase me sufoca, e eu gosto, gosto, ficamos calados a ouvir a mata. Falasse ela, e fala, é preciso é esperar para ouvir. Não acha que anda toda a gente a tentar desforrar-se de alguma coisa? Agora trago sempre uma faca embora não me pareça que lhe dê uso, ainda se fosse para matar um porco ou uma galinha. A não ser que façam mal ao meu bebé, aí sim, sangro-os todinhos, dos pés à cabeça, nem meio litro se aproveita para amostra. É o tal garrafão de vinho tinto que faltava para o piquenique. Emborcado até à última gota. Entornado até ao último trago. Ri-se? A senhora até parece boa pessoa, tem aí um vestido que é um mimo. O que é que lhe passou pela cabeça para se interessar por gente como eu? Olhe, eu já não me rio, mas também não choro. Ri-se e chora o meu menino, embalo-o ao colo e ele adormece. Sossega, sossega, que a mamã está quase a largar o serviço. É meu, sabe, ele, é só meu. Ri-se e chora e eu limpo-lhe a baba e o ranho, assoo-lhe o nariz, mudo-lhe a fralda. É meu e de deus nosso senhor que bem lhe quer, que mais poderia querer-lhe?
    Ajeite-se aqui neste cantinho à sombra, deixe-me servi-la, gosta de arroz de frango, sim, olhe, use estes talheres de plástico, são do intermarché. Bom proveito. Como é que a senhora se chama, afinal? Ah, é um nome bonito, sim senhor. Encho-lhe o copo? Lá está a senhora a rir-se outra vez. Antes isso, antes isso. Eu quando era garota também passava o tempo todo na galhofa. O resto já eu lhe contei, e o que for não há-de ser muito diferente. Valha-me o menino. Mas olhe que quando estou deitada na caruma de cara enfiada nas nuvens, vejo coisas que de tão lindas chego a pensar que deus as pôs na terra para que nunca trocássemos o bem pelo mal, apesar das muitas misérias por que passamos. Mais uma colherzinha, vá, faça-me esse gosto, que de tão cedo não tenho mais ninguém para partilhar o meu farnel. A ---- não tem aparecido, anda fraca dos pulmões, farta-se de tossir. Lá mais adiante, ao km ----, é a -----, não nos damos, diz que lhe roubo a freguesia. Que quer, cobro preços de saldo por causa da crise e eles alinham, pois claro.
    Margarida, que nome tão bonito, condiz bem consigo.
 
       
Bénédicte Houart

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Supernova

Andava de pijama e pantufas pelo corredor da psiquiatria. Chegado à porta, dava meia-volta e regressava continuando a chorar copiosamente. Deixava aqui e ali à sua passagem pequenas poças de água salgada onde os outros pacientes patinhavam murmurando imprecações. Doses de lágrimas bem mais eficazes do que as dos anti-depressivos e anti-psicóticos que tomava diariamente. Estes engolia-os, aquelas expelia-as. Determinados psiquiatras afirmavam que se encontrava quase definitivamente curado. Tanto quanto é possível nesses casos, acrescentavam com precaução. Um psicótico não chora, fecha à chave todas as portas. Talvez já só ele tivesse pena de si próprio, talvez só ele se compadecesse da sua própria dor que derramava sem vergonha pois que era tanta, variada, e sem motivo aparente. O que era apesar de tudo um sintoma infalível da sua doença, embora em evidente remissão. Eu e tu no mesmo ser. Diriam alguns. Uma auxiliar deu-lhe uma descompostura, o senhor está a sujar o chão, ainda há pouco o lavei. Se ao menos sofresse de incontinência urinária, eu era capaz de perceber. Mas chorar assim continuamente por tudo e por nada… e por toda a parte. Por que não vai antes passear-se pelo corredor das doenças infecciosas? O senhor chora cronicamente, ao menos assoe-se de quando em vez, além das lágrimas, cai baba, ranho e o resto. O resto, julgo eu que a ouvia, seria essa tristeza, entretanto metamorfoseada em líquido, revertida em lágrimas. E baba. E ranho. O resto, éramos também nós, os outros, e o mundo, amargo ácido inóspito monótono. E cruel. Também eu por vezes mal me continha, só mesmo o orgulho me detinha.
Somos educados para nos contermos. Não gritar, não falar alto, não rir desalmadamente, não falar torrencialmente. Para chorar, há os funerais, e mesmo assim. Em criança desatei a rir num funeral. Um cortejo, uma procissão de caras sérias, de caras sem rosto, de olhos escuros sob os óculos de sol ainda que chovesse, de roupa cinzenta e negra a tresandar a naftalina, guardada para essas ocasiões particulares em que um ou outro desaparece, mas para onde? Era-me inconcebível, a morte. Ou mais exactamente, não tanto inconcebível, mas, pior ainda, não era capaz de senti-la como uma perda irreparável de um ser que ainda ontem, ainda anteontem, ainda há pouco… Se é que estivesse inteiramente vivo. Agora sim, mesmo se não sinto, concebo, mas nada me parece menos óbvio. Para as crianças, não há coisas óbvias. E quanto aos adultos, debatem-se e afundam-se num mar de obviedades intragáveis. Chegara eu à maturidade desprovida de tal insensatez. Impoluta.
O paciente lavado em lágrimas… Quando finalmente conseguiu matar-se, houvera tentado antes por várias vezes e falhara sempre, disseram que era a única coisa sensata que poderia fazer, que lhe restava fazer, o gesto de um homem livre e consciente. Eu e eu. Nunca mais adoeceria. Nunca mais desejaria morrer. De remissão em remissão tinha alcançado a sanidade total. Estava morto, é certo. Mas são. São. Era um exemplo de sucesso terapêutico citado nos compêndios e estudado com afinco. Recuperara a propriedade do seu nome, dos seus pronomes. Pessoais, reflexos, possessivos.
E transportou a sua terrena tristeza para a eternidade. Sim, porque tanto quanto julgo saber, no paraíso, que é para onde vão necessariamente todas as criaturas humanas que sofreram sem o merecerem, apesar do conforto, da temperatura aprazível e das outras milhentas amenidades, há muitas delas que não param de chorar. Há quem diga que mesmo deus chora abundantemente. É por isso que a maior parte da terra está coberta por oceanos. Qual é a percentagem? 70%? Por aí.
Pois bem, portanto, também ele desapareceu. Mas juro que durante o sono soam-me no cérebro as suas lágrimas caindo como sinos tresloucados badalando sem cessar e acordo em pânico rangendo os dentes empapada em suor e sal. Tiritando como uma supernova que cintila.
        
Bénédicte Houart