quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Outubro

MESES


Hoje apetece-me falar dos meus meses preferidos: Março e Outubro. Assim apeteça ao Leitor aturar-me os devaneios.
Os meus meses preferidos são, como digo, Março e Outubro.
Ora aqui está uma frase que faria sentido no tempo em que os meses eram fiáveis e se apresentavam, ano após ano, com características bem marcadas. Hoje deveria talvez dizer: os meses de que guardo uma imagem mais grata são Março e Outubro. Porque os meses já não são o que eram. Isto anda tudo virado, diz o povo. E é que anda mesmo. Não sei se o Leitor já reparou que não temos tido praticamente Primavera: sai-se do buraco do Inverno directamente para o buraco do Verão. E este é apenas um exemplo do desconcerto do tempo. Falhas na camada do ozono, aquecimento global, derretimento das calotes polares, emissões de CO2, testes nucleares, deflorestação — os insultos à Terra são muitos e cada vez mais graves. Que admira que ela reaja, ofendida, baralhando-nos as coisas que costumávamos tomar por estáveis e garantidas? Estamos ainda longe de conhecer todas as consequências da acção inconsiderada do Homem, que, indiferente às normativas de Quioto, vai alegremente violentando e delapidando a natureza o mais que pode. Mas que a coisa só pode acabar em catástrofe à escala planetária parece-me incontroverso. Resta-me esperar que já não seja nos meus dias, nem nos daqueles que amo.
Mas não foi para dar estes pios agoirentos que peguei hoje na caneta. Vamos a coisas mais amáveis, menos funestas.


Março e Outubro, pois.
Perguntará o Leitor: e então Abril?
Abril é um bluff. Cantam-se muitas loas a seu respeito, mas acaba por ser um prolongamento, em mais fraco, das borrascas de Março. Responsável por este quase endeusamento de Abril foram as letras com que se adaptou a bonita canção “Coimbra”, de Raul Ferrão, em França e na América: “Avril au Portugal”, “April in Portugal”… Ainda tenho no ouvido a voz de Yvette Giraud a cantar uma letra melada em que, em suma, se declara que Abril é o mês ideal para um affair de coeur em Portugal. Onde a voz cheia de Alberto Ribeiro cantava Coimbra é uma lição de amor e tradição, a cantora francesa arrulhava Avril au Portugal, à deux c’est l’idéal, etc., etc.
Abril é também the cruellest month, o mês mais cruel, na opinião do poeta T. S. Eliot. E porquê? Porque faz brotar os lilases, imaginem! Que diabo quereria Eliot que Abril fizesse? Decididamente, ninguém entende estes poetas… (Digo isto por blague, claro está; como eu entendo T. S. Eliot!)
Para nós, portugueses, Abril é o mês das melancólicas “águas mil coadas por um mandil, quantas mais puderem vir”. E quando não vêm essas águas, já os lavradores ficam apreensivos, porque, dizem, são as tais águas mil do Abril tradicional que alimentam e fazem rebentar as nascentes.
E então Maio? – perguntará agora o Leitor.
Confesso que Maio me diz também qualquer coisa, principalmente desde que desenvolvi o prazer até há pouco insuspeitado de fotografar as flores do campo. As flores de jardim, sofisticadas, geneticamente modificadas, domesticadas, de uma beleza fria e artificial, interessam-me pouco; comovo-me mais depressa diante de uma violeta ou um verbasco florido de alto a baixo do que diante da mais fina e altiva orquídea.
Maio, sim, é o mês das flores, dos dias amenos, dos amores que não se podem ver ‘alongados’ (no sentido em que usa o termo o poeta Sancho I). Pois conta o povo que uma rapariga foi de manhã à fonte, mais para falar com o namorado do que para recolher água, e ao despedir-se dele, já noite cerrada, desabafou: “Dias de Maio, dias de amargura; mal amanhece já é noite escura!” Mais uma intuição a que o povo dá forma singela mas eficaz: o tempo é mais psicológico do que outra coisa.
Mas não, ainda não é Maio o meu mês favorito.
E então Agosto? – perguntará ainda o Leitor.
Agosto evoca coisas boas — férias, a fartura estival —, e é por isso o mês por que mais suspiramos ao longo do ano, mas é muito falso e acaba quase sempre por nos decepcionar. Há vezes em que aparece aceso em brasas, obrigando-nos a permanecer em casa, quando tínhamos planeado dar aquele tal passeio que vimos adiando de ano para ano… por causa dos desabalados calores de Agosto. Ou então, capricha em fazer justiça ao adágio “Agosto, frio no rosto” ou a estoutro “Primeiro dia de Agosto, primeiro dia de Inverno”. Não é de confiar.


Gosto de Março por ser um mês temperamental. O povo — mesmo sem saber o que é o anticiclone dos Açores — diz desde sempre na sua sabedoria infusa: “Março marçagão, manhãs de Inverno, tardes de Verão”, para significar a instabilidade do tempo típica do terceiro mês. De resto, são muitas as variantes e paráfrases deste provérbio, e essa mesma abundância constitui uma validação do mesmo. Aí vai uma variante: “Março marçagão, de manhã cara de cão, ao meio-dia de rainha e à noite corta com a foicinha”. Quem tiver curiosidade de saber mais consulte O Livro dos Provérbios, de Monsenhor Salvador Parente, onde aparecem para cima de sete dezenas de adágios sobre Março, muitos dos quais insistem nessa inconstância meteorológica.
De facto, quando lhe dá na veneta, Março pode ser muito mauzinho. Muito, mesmo. Eu que o diga, que num longínquo dia 8 (ainda me lembro do dia em que foi) deste equívoco mês, quando me preparava para mudar um pneu em plena berma da estrada, e no preciso momento em que tinha tirado já toda a bagagem da mala para desencantar lá das profundezas o pneu suplente (que, é da praxe, está sempre no lugar mais inacessível do carro), apanhei uma carga de água que parecia mesmo que estava à espera do meu momento mais vulnerável para atacar.
Eu tinha lido nas Memórias do Abade de Baçal: «Em terras do Mogadouro e outras dizem que estas tais trovoadas pavorosas são feitas pelo Secular, homem de estudos diabólicos, que consegue armá-las a poder de ler nos seus livros e de bater na água de um rio ou laguna com uma vara até se formar nuvem, que o arrasta pelo ar e tudo arrasa de água, principalmente onde o Secular for cair. Dizem também que os pulverinhos, remoinhos de vento que se formam no Verão, em forma de espiral, arrastando palhas, folhas e pó, são devidos a estes tais bruxos. Perdem a força, gritando-lhe: esquerdo, esquerdo, ou apunhando o testículo esquerdo.» (vol. IX, p. 369) Terei pois ficado a dever essa molha ao pérfido ‘secular’ (nome que certamente está por ‘escolar’, isto é, estudioso, isto é, homem de livros). Pois infelizmente não me ocorreu, na altura, gritar a tal fórmula salvífica ‘esquerdo, esquerdo’; podia ser que dissipasse a carga de água como se diz em Mogadouro e noutras terras que dissipa os pulverinhos. Apunhar o testículo esquerdo é que me teria sido mais difícil, tendo ambas as mãos ocupadas com o pneu e a chave de cruz.
Mas pronto, em Março sei com o que conto. Poucos espectáculos da natureza me empolgam tanto como ver o céu escurecer de súbito quase até ficar negro e desabar sobre a terra uma granizada que, tamborilando nos telhados e vidraças, parece uma dúzia de bateristas de banda rock tomados de frenesi infernal. Por vezes, fuzilam relâmpagos em cima de relâmpagos. E depois, como que arrependidas do arremesso e como que a pedir desculpa, as nuvens dissipam-se num rufo e brilha o sol mais radioso dos nossos céus em qualquer tempo.
Esta minha preferência por Março tem, como se vê, um fundo estético. Mas também um fundo a que, por falta de melhor termo, direi místico, porque me aproxima, à sobreposse, da criatura criadora de semelhantes show-offs de força e poderio, seja ela quem for, e ao mesmo tempo me reduz implacavelmente à minha pequenez de cisco que às vezes se julga mais do que na verdade é.


Resta dizer de Outubro, o mais doce dos meses, com o sol derramando-se como leite e mel sobre campos e cidades.
Se fizer as contas aos — ai de mim! — já muitos Outubros que tenho em cima, a imagem dominante é aquela de doçura, de suave lassidão em que a terra parece comprazer-se e refazer-se dos cansaços de dar fruto, antes de se submeter de novo às agruras do Inverno.
Cheguei a ser, em verdes anos, aprendiz de caçador. Já meu Pai era caçador e tenho muito viva na memória a sua imagem ao chegar a casa ao fim do dia, exausto e contente do regresso, com meia dúzia de perdizes à cinta e seguido do cão igualmente exausto e igualmente contente por estar de volta. Em ambos me parecia então poder ler a satisfação do dever cumprido.
Era uma cena que enchia a minha infância de orgulho: em nenhuma casa da vizinhança havia um pai que chegava da caça. Terá sido isso que despertou em mim o desejo de repetir a cena, quando chegasse o tempo. Fui assim caçador um pouco por atavismo e imitação. Mas o poder da razão pôde sobrepor-se ao atavismo e hoje, tenho-o dito muitas vezes, sou incapaz de matar qualquer ser vivo, à excepção de moscas e melgas. Digamos que desenvolvi uma consciência ecológica que me está segredando a todo o momento que as aves são muito mais bonitas à solta na natureza do que dependuradas pelo bico dum cinto de caçador.
E creio muito, hoje, que o gosto pela caça na mocidade me vinha mais de andar pelos altos, nos dias bonitos de Outubro, a namorar o mundo, do que propriamente a caçar. Era essa magia de Outubro que me impelia para o campo, não o instinto predador. A espingarda? Era mais para disfarçar…
É certo que uma vez distraí-me e matei uma perdiz, por sinal a única que me pesa na consciência ter matado nas dezenas de vezes que andei a espalhar chumbo por aqueles montes. Fraquezas. Quem as não tem? A infeliz saiu-me tanto a jeito… Mas do que eu gostava mesmo era de parar no alto dum morro e percorrer com olhar embevecido as restolhadas que se estendiam a meus pés, mais abaixo alguma aldeia parda com o seu campanário a sobressair do mar de telhados de telha churra e a proclamar que ali era terra de gente cristã, ao fundo o azul indistinto das serranias a vedar os horizontes.  E acaso de ouvir tilintar ali por perto algum fiozinho dessa água fria de Trás-os-Montes, que, segundo António Nobre, «faz sede só de se ouvir» e onde alguma rã serôdia e solitária fazia chape! à minha aproximação.
Depois, encontrava sempre um galelo esquecido nalguma vinha, que me ajudava a matar a sede que o sol morno espicaçava. (Galelo, o Leitor deve saber, se chama na minha terra a um pequeno cacho de uvas que a própria insignificância fez com que escapasse aos vindimadores.)
Ou então uma maçã bravo-de-esmolfo já engelhada num ramo de macieira que se começava a despir para o Outono, maçã essa que refinava em doçura e fragrância, apuradas ambas pelos últimos raios de sol do equinócio. Ah, quantas vezes e com quanta saudade tenho lembrado essas deliciosas maçãs casuais, diante daqueles pomos muito coradinhos e polidos — dir-se-ia que engraxados —, mas totalmente insípidos, que hoje se vendem nos hipermercados a fingir que são maçãs!
Ou ainda um figo mirrado que, fora de época, era já um pingo de puro mel. Ou duas amoras tardias. Ou a tentação rubra de uns medronhos.
Tudo isso, sobredourado pela tépida mansidão de Outubro, é que era para mim a caça.


Ah, Outubros desses tempos! Ah, Dezembro, que tão perto vens!
Não liguem. Isto passa.



(A. M. Pires Cabral, do livro inédito Memorial)