Mata-Borrão

D. Zulmira

Puxam-nas para si, e as linhas, de todas as cores, escorregam do tecto para serem lambidas pelas muitas raparigas que, depois, as enfiam nas agulhas. Elas riem risos pequeninos e curtos enquanto espalham os tecidos nos joelhos. Chupam os dedos que se vão picando, ajustam dedais. O ar é uma serpente de suor ácido que aperta a garganta.

O marido de Dona Zulmira, sentado a uma mesa, lê o jornal, vigia o andamento da obra, cose os olhos nas pernas das aprendizas, não gosta dos passos de sua mulher, vinda do andar de baixo.
Não tinha eu ainda lido Jorge Amado nem visto Bergman. Talvez nem ainda soubesse ler. Gostava de subir aquelas escadas de madeira e prantava-me a olhar.

A senhora dona Zulmira era modista, portanto, muito longe da costureira de obra vulgar e, mais longe ainda, da costureira que ia a casa.

Tinha atelier, o seu ateliére, aliás.

Onde se ouve palavras boas de cantar, entretela e tafetá. Refrões rimados de cós e ilhós. Anatomias cândidas com pinças de peito. Remates minuciosos debruados a cetim. Resoluções corajosas nos cortes a toda a volta. Disfarces pueris com drapeados. Mágoas acolchoadas.

Na saleta das provas, as revistas de muito e bom papel são estrangeiras e chamam-se figurino. Manuseadas. D. Zulmira cospe ao de leve no indicador à procura de redingotes, pregas, evasés. Aconselha, em tom de segredo de Estado, os tweeds, as sedas, os moer, os veludos, as flanelas de lã. No pulso, a jóia cravejada de alfinetes incrustados em esponja cor de peito de rola. Um pouco medonha, aquela pulseira.

E tantas as provas. Tecidos riscados a giz preso a um louva-a-deus gigante que é compasso de madeira. Uma arquitecta, ajoelhada, a Dona Zulmira. Risca o pano em escrita cuneiforme.

Depois havia que esperar pelos botões. Vinham de Lisboa, para onde iam a forrar.  

Maria João Forte é socióloga

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