sexta-feira, 31 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 5


ONDE SE FALA DE CRIMES SEXY E DE SOMBRAS DO PASSADO - II PARTE

A mulher que estava diante de mim tinha cerca de quarenta anos, era bonita, embora com um aspecto cansado que nem os bons cremes, a hábil –e quase invisível- maquilhagem e o óptimo corte de cabelo conseguiam esconder. Estava bem vestida, de modo clássico. Não havia nela nada que fosse mau ou vulgar. No entanto, era como se tivesse gasto imenso dinheiro para passar despercebida.


Era médica, divorciada, com dois filhos quase-adultos, como agora todos são. Tinha duas moradas, a da casa, na Lapa e a do consultório, numa transversal à 5 de Outubro, que supus indicarem espaços condicentes. Tinha um estupendaço carro. Tinha uma carreira notável.


E, agora, estava ali à minha frente, a fazer um pergunta. Cuja resposta podia fazer rebentar em estilhaços bicudos e afiados aquela vida de Barbie-divorciada-é – uma-médica-de-sucesso.


Isto se os estilhaços não tivessem rebentado há muitos anos.


Rewind: Na casa de família, onde viviam os pais, os irmãos, os sogros e onde eram esperados, por ser véspera de Natal, muitos outros familiares.


Miguel, o pai, médico, suicidou-se com um tiro. Tinha quarenta anos e a minha cliente dez. Foi encontrado pela mulher, Rosarinho, a mãe dos três filhos de ambos. Muita coisa foi-me contada na terceira pessoa, como se ela se distanciasse, como se só conseguisse falar pela boca da avó.

...

Sentada na pequena escrivaninha, foi separando folhas de papel cheias de listas, que amachucava antes de atirar para o vaso de papier-machê. Não gostava de cestos de papéis que fossem notoriamente cestos de papéis.


Entrou na saleta, a que os netos chamavam “o escritório da avó”, sem por isso respeitarem a sua privacidade como faziam com os homens da casa e fechou a porta à chave.


Precisava de uns minutos sozinha. A noite ainda nem tinha começado e já se sentia tão cansada como se todos os preparativos tivessem sido realizados pessoalmente por ela e não apenas-apenas? – superintendidos ou delegados na Deolinda.


É verdade que nada, nem a decisão de por ou não por goma nos guardanapos de linho, em que se entrelaçavam - amorosamente? ternamente? Esperançosamente- pensou -esperançosamente era o termo mais apropriado, a sua inicial e a do marido. M e E. Margarida e Estevão.


Existiam na casa, no sótão, guardados em gavetas de cómodas enormes, em baús, em arcas e mais arcas e mais arcas quantidades inacreditáveis de toalhas de mesa e de banho, de lençois, de dezenas de guardanapos, de panos de tabuleiro, de fronhas de almofada e de travesseiro, em que o E se entrelaçava com outras letras. M e C. De Maria do Carmo, a primeira. A primeira mulher do seu marido, a primeira mãe dos filhos dele, a primeira nora, a primeira senhora da casa. Metros e metros de algodão, de cambraia, de linho, de seda, dobrados entre papel fino, cheios de saquinhos de canfora. Nunca mais foram usados, não se punha a possibilidade de os dar – no fundo, eram herança da Carminho, que nem um lenço levara consigo, ao casar contra a vontade do pai.


Tanto disparate, tanto desperdício – disse para si mesma. Mas não. Era assim. Eram usos e tradições que talvez parecessem cada vez mais anacrónicos à medida que os anos passavam, mas sem os quais, sentia sem saber bem de onde lhe vinha a certeza, coisas muito mais importantes se desmoronariam levando na enxurrada todo um modo de vida, que era a sua vida.


Sentada na pequena escrivaninha, foi separando folhas de papel cheias de listas, que amachucava antes de atirar para o vaso de papier-machê. Não gostava de cestos de papéis que fossem notoriamente cestos de papéis.


Já só sobrava uma folha. O memorando mais pessoal, o que escrevia para si própria. Quem se sentava – e sobretudo quem não se sentava - ao pé de quem. Temas a evitar. Perguntas a fazer e a não fazer.


E as cartas dos pequenos. Sorriu. Com a chegada das crianças, da televisão, dos hábitos dos amigos de colégio, fora cedendo à iconografia americana, à árvore enfeitada, aos presentes embrulhados prontos para distribuir à meia-noite.


Mas as cartas eram dirigidas ao Menino Jesus. O Pai Natal ainda não tinha entrado em sua casa.


Foi passando os pequenos envelopes. Desde que os netos sabiam escrever que guardava os seus pedidos infantis, uma demonstração de ternura que quase a envergonhava. Foi lendo os pedidos, dos quais se encarregava pessoalmente – livros, os bebés-chorões que tinham recentemente chegado às lojas, assim como o Lego e o Mecano. Um carro a pedais, escrito com a letra da irmã- sorriu - um microscópio, um Atlas – o Tomás e o João Pedro estavam a crescer tão depressa!


Parou. No meio dos bilhetes pautados, com desenhos de azevinho, estrelas e anjos, estava uma folha de papel de carta normal, adulta, dobrada em quatro. Quando é que tinha mexido a ultima vez nos pedidos? Na véspera ou na antevéspera? De qualquer modo, alguém colocara aquilo ali, furtivamente, tendo o cuidado de a misturar com as outras.


Desdobrou a folha. As frases estavam escritas a tinta permanente preta. Pouco mais eram que rabiscos, mas julgou reconhecer a letra do filho. João. O meu filho, quando penso em filho é sempre nele que penso. O meu filho. Apesar da Marga, do Filipe e da Teresinha.


“Tentei com todas as minhas forças. E mesmo assim não consegui. Talvez afinal seja um fraco, ao contrário do que todos pensam. E nesta época, ainda por cima. É ridículo pensar nisto. Quero pedir desculpa à Rosarinho…


O texto acabava assim, sem ponto final, sem assinatura. A letra era inegavelmente do filho, mas as palavras, ou o sentido que pareciam fazer, não podiam ser menos características dele.


Que disparate! Uma brincadeira? Um engano e aquilo, fosse o que fosse, não se destinava aos seus olhos?


Levantou-se com a folha na mão, sentindo-se de repente tonta, quase agoniada. Sacudiu o puxador duas vezes até se lembrar de que tinha fechado a porta à chave. Para estar sossegada, quieta, em paz, antes da longa noite que a esperava. Uma premonição, achou depois.


Saiu para o grande hall, para onde davam as portas das salas e a escada para o primeiro andar.


Estranhamente estava deserto, talvez tivessem ido todos descansar um pouco para os quartos, acabar a toilette, nem as criadas se viam, nem as crianças…


Ouviu uma espécie de gemido, como um animal ferido. Não conseguiu identificar o som, só percebeu que vinha de cima, o que fez com que erguesse os olhos para a escadaria. A Rosarinho vinha a descer, devagar, agarrada ao corrimão com as duas mãos, como uma inválida. Sentiu a onda de impaciência física que a nora lhe provocava cada vez com mais intensidade. Já nem a beleza dela lhe causava o efeito que parecia ainda causar nos outros. Com o cabelo louro pelos ombros, os olhos turquesa de gata nas feições perfeitas de criança, o conjunto de camisola e casaquinho de lã creme e as slacks de veludo preto, estava, como sempre, impecável, apropriada para a ocasião mas original, o cabelo preso atrás da orelha deixava uma pequena pérola à vista, e o classicismo do conjunto compensava o facto de ir jantar de calças na véspera de Natal.


Esta capacidade de escolher tão bem a roupa, de aparecer sempre tão bem cuidada, de fazer umas entradas tão…cinematográficas, fazia-a sempre duvidar das misteriosas maleitas e nervosos da nora, mesmo quando o comportamento dela tornava evidente que estava perturbada.


Como neste momento. Suspirou.


- Onde é que está o João, Rosarinho? Sentes-te mal? Vai para a sala que eu peço para te levarem um chá de tília, não vamos para a mesa tão cedo…- uma forma de disfarçar os sentimentos contraditórios era atacar, falar sem parar e tomar decisões. Há anos que se apercebera que eram os outros a moldar o comportamento da mulher do filho. Se não lhe dissesse nada, era capaz de ficar ali na escada, sem subir nem descer. Assim, estaria apropriadamente sentada a beber um chá, o que a tornava aceitável e…enfim. Normal.


Que exagero, repreendeu-se a si própria imediatamente antes de se aperceber que o gemido saia da boca da mulher para quem olhava. Esta parou e soltou uma das mãos, que esfregou lentamente na camisola creme.


- Cuidado, que te estás a sujar toda de baton, - ainda disse, mesmo sabendo que não era de baton que se tratava e que o terror, sim, porque fora terror, mesmo não confessado - que sentiu ao descobrir o bilhete do filho tinha razão de ser e que o inferno ia começar para todos naquela casa. Mas sobretudo, para ela.


...

Interrompi.


-Está bem, percebi tudo. A sua avó sofreu imenso. Vocês, a família próxima, sofreram imenso. O seu pai suicidou-se com um tiro na véspera de Natal mas aconteceu há mais de trinta anos. O que é que quer de mim, exactamente?


(a pedir pelas alminhas que não fosse o que eu pensava. Claro que era)


-Quero que me diga quem matou o meu pai. Porque eu tenho a certeza de que ele não se suicidou.


Apeteceu-me abaná-la.


-Quem é que estava na casa? A sua avó, as crianças, os empregados, os seus primos mais velhos e uns convidados deles, a dormirem... pouco provável, não acha. E quem mais?


-Ninguém... só... só a minha mãe.


Ficámos em silêncio, enquanto ela digeria a história. A mãe dela, que assim que surpreendeu o marido a ensaiar bilhetinhos informando da decisão de abandonar a família, tirou uma arma do armário onde estavam guardadas, carregou-a e matou o marido. A seguir pôs a arma em cima da secretária, retirou as cartas que ele estava a escrever, escolheu a que não estava manchada de sangue e pô-la entre os bilhetes que se encontravam na secretária da sogra.


Voltou para o quarto, tomou banho, arranjou-se cuidadosamente, voltou ao escritório do marido, verificou se estava tudo como o tinha deixado, a dramática cena, a cabeça para trás, o sangue na parede. Sangue. Tocou numa mancha.


E desceu a escada para a sogra a ver. Mulher eficaz. Que enganou toda a gente.


Agora, era com esta realidade que a minha cliente tinha que se haver. Ela parecia mais calma do que a maior parte das pessoas no seu lugar. Talvez, no fundo, desconfiasse da verdade há muito tempo.


Passou-me um cheque, guardou a factura cuidadosamente. Demos um aperto de mão. Não voltei a vê-la.


FIM


(A autora deste Folhetim, até aqui anónimo, chama-se Teresa Font)

terça-feira, 28 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 4

ONDE SE FALA DE CRIMES SEXY E DE SOMBRAS DO PASSADO.

Há crimes que são sexy e crimes que não o são. Esperem! Lá estão a dizer coisas antes de ouvir... Esta classificação não exclui outras adjectivações. Crimes que são em iguais doses terríveis, assustadores, sanguinários, injustos, inexplicáveis – ou explicáveis e por vezes é a explicação que causa o maior horror. Mas todos cabem nestas ou noutras classificações.

E depois uns são sexy e outros não.

Lamento. Mas não fui eu que inventei a humanidade. Posto isto.


O que os torna sexy? Muita coisa. O mistério. O horror, a violência. A -ou as- vitimas. Por exemplo, os crimes do Estripador são sexy. Não? Desculpem? Até hoje fazem-se filmes e escrevem-se livros. Há mil teorias. E porquê? Quer dizer, não era de certeza uma novidade, naquela época e naquela zona aparecerem mulheres que se prostituíam estripadas. Ou deitadas ao rio. Ou estranguladas. Ou tudo junto. Mas depois, descobria-se o culpado – o chulo, o amante, o bandido, o tratante num instantinho. E se não se descobrisse, olha, paciência, menos uma desgraçada na rua. Da amargura. Mesmo que não se falasse muito nisso.


Os crimes do Estripador são diferentes porque o perpetrador (ui! Mas é assim que se diz) construiu uma história com eles. Deu-lhes coesão, reclamou a autoria, desafiou a polícia a descobri-lo. Forneceu o frisson do medo a quem estava sossegado e seguro na sua casa vitoriana em Kensington. O ‘ah e se fossemos nós?’. Mas não podemos ser nós porque nós somos pessoas boas e respeitáveis, cumpridoras dos seus deveres para com a sociedade e a igreja. Sim? Sim.


O Estripador forneceu ao “público em geral” o medo sem o risco. Tchan tchan! (também me estou a rir. Mas é verdade)


Convém sublinhar, as vítimas eram mulheres. Uma determinada espécie de mulheres. Que as pobrezinhas fossem feias, desfeitas pela vida que levavam, doentes? Ora. Sexo, culpa, horror, mistério. Falta o quê? Dinheiro, acertaram. E não é indispensável a vítima ser mulher. Mas abrilhanta.


E, last but not least, pôs toda a gente à espera do próximo crime. O quê, pessoas honradas, mães de família respeitáveis, a desejar que mais uma pobre de Cristo fosse esventrada? Sim senhores. Não só à espera, mas ansiosos.


(isto é um interlúdio pretensioso, mas todos aqueles ‘mementos’ vitorianos, as mãozinhas, os pezinhos dos infantes, lívidos no mármore, sempre me fizeram imaginar o pater familas a entrar na nurserie e a desatar à machadada… Pronto. Eu às vezes sou afectada pelo ofício, não sou de pau, sim? Nem de mármore. Felizmente)


Neste caso, esse móbil, o dinheiro, não seria importante.


Diz que – e eu vou voltar a esta premissa muitas vezes – as explicações mais simples são as mais prováveis. Assim, a minha explicação é que Jack the Ripper foi o primeiro serial killer da criminologia moderna. Os psicopatas não precisam de razões lógicas. Têm as deles e servem-lhes perfeitamente.


Posto isto, vou contar-lhes o crime mais sexy-enfim, um dos mais sexies – que me apareceu numa carreira não muito longa-lailailai, às senhoras não se pergunta a idade, excepto a polícia, que pergunta tudo, não se enganem – mas preenchida de acontecimentos interessantes. Posso dizer isto à vontade, porque o julgamento será vosso.


“Uma tragédia no Natal

A 24 de Dezembro de 1987, há dez anos, um membro daquilo a que se chama, nem sempre com acerto, ‘jet set’, foi encontrado morto na sua casa, XXXXXXXX, Lisboa. Sendo um médico conhecido e pertencente a uma família conhecida, o caso despertou grande curiosidade, embora se tenham desenvolvido grandes esforços para abafar as notícias. O acontecimento chocou todos os próximos, mas após rigorosas investigações, o veredicto de suicídio foi aceite. Apesar da discrição dos familiares e amigos, o incidente continuou sempre envolto numa nuvem de dúvidas e suspeitas. Nunca foi, no entanto, possível encontrar o mínimo indício que permitisse reabrir este caso. Infelizmente, parece que a Justiça continua a ser desigual para ricos e pobres”
in xxxxxxx, 1997”


Um processo discreto, uma indemnização avultada e algumas mudanças no quadro do jornal encerraram o assunto.


Até hoje. Até ao dia em que tenho uma testemunha impossível de ignorar à minha frente. Aqui, no meu escritório. Daquelas que diz: – ‘Diga o seu preço’. Daquelas que diz; – ‘Eu estava lá e vi’. Daquelas que diz: – ‘Eu preciso de saber. Ou morro’.


Daquelas que são um lindo serviço.


Conto o resto na próxima vez. Espero que estejam ansiosos.

(cont.)

terça-feira, 21 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 3

ONDE SE FALA DE CRIMES, DE GATOS E DE SENHORAS.

Dedico-me a descobrir coisas. Histórias, culpas, quadros roubados. E crimes, também os há.

E, lamento o desassossego que trago, também há crimes que nunca são descobertos. E não falo do Nelo que, na Buraca, um belo dia de sol mata o cunhado e dois amigos à porta de um café manhoso e depois na televisão aparece a irmã muito chorosa e os vizinhos a dizer que ele era uma pessoa sensível e prestável, pena aquele pecadilho de matar gente.

Não. Esses estão tramados desde o princípio. Desde que nasceram.

Vou contar uma história.

Encontrava a Mafalda em todo o lado e como ela ia a muito mais sítios do que eu, suponho que estaria mesmo em todo o lado.


Era, é, que ainda anda aí, bonita. Loira, petite, cuidada, suave. Tinha umas unhas, não sei bem dizer porquê, inquietantes. Um bocado bicudas de mais. Não me perguntem, não sei. Aquelas unhas preocupavam-me.


Não havia maledicência sobre ela, personificava o equilíbrio certo entre mosca-morta e mulher desejável para ser interessante sem ter interesse nenhum. Ah, não. Havia uma coisa. O marido, um médico mais velho do que ela, conhecido e riquíssimo, tinha alergia a gatos. E ela tinha uma gata. E adorava a gata. Kitty, chama-se a gata.


Havia algumas anedotas sobre o assunto. Recorrentes sempre que ela aparecia com um novo carro ou jóia – ui, aqueles Cartier Oriental – ou vison (gracinhas tipo-achas que matou a gata?).


Despeitados, enfim. Um dia o marido morre. Inesperadamente mas sem nada que provoque dúvidas. Trabalho a mais, whisky a mais, talvez amantes a mais, falava-se numa rapariga nova ultimamente, ai eles não medem, viagra se calhar, com um coração cansado. Puf. Out marido.


A Mafalda portou-se, como era de esperar, impecavelmente. Espantosa em cinzentos, pérolas minúsculas, óculos escuros. Passado aquele período que antes se chamava ‘de nojo’, foi reaparecendo. E foi sendo cortejada, pretendida, requestada, por uma notável quantidade de notáveis da nossa praça. Pudera, viúva (portanto ‘carente’, esta palavra desculpem, mais valia esfregar as unhas num quadro de giz, mas as coisas são como são), rica, nova e bonita.


Aos magotes. Até ela ter escolhido um. Um eleito entre todos. Como descrevê-lo? Imaginem o Tomás Palma Bravo do Delfim passados muitos anos. Cabelo branco. Engatatão. Carros todos coisos. Anel de brasão e roupa à la publicidade RL. Com toques Prince of Wales. Uma desgraça, claro. Mas a Mafalda, talvez por cansaço, escolheu-o.


Pouco tempo depois a ligação era ‘the talk of the town’. Que ele punha e dispunha. Que davam jantares todas as semanas. Que retirou de casa dela algumas peças esplêndidas para as substituir por outras, a seu gosto. Que a ridicularizava, levemente, ó muito levemente, em frente de terceiros. Por fim, que tinha feito um ultimato: – ‘Não gosto desta gata. A gata ou eu, Mafalda, tenha paciência’.


Caiu da janela do mirante, ele. A casa de férias da Mafalda, no Estoril, tinha um mirante altíssimo, sobre as rochas. Parece que estavam a fazer um jantar ‘for two’, romântico, quando a Kitty saltou para o lado de fora da janela. Assustado e prestimoso, ele debruçou-se demasiado. Puf e tal. Déjà vu.


Entre as habilidades da Mafalda, que sempre se suspeitou que tinha algumas, contava-se que, na longínqua e louca adolescência, fazia ‘coisas extraordinárias com a língua’. A dela, não falo da língua natal, tão maltratada hoje. Estamos a imaginar, mas. Tirar o anel de um dedo, atirá-lo para o lado. Um brinquedo, a gatinha, a janela sobre o precipício. O brasão do senhorito, o que disparate é este, Mafalda, essa maldita gata que venha cá.


Pois. Eu não contava isto se não houvesse testemunhas, pessoas nas quais confio, que me disseram ter a impressão, quando foram ver a Mafalda – que está cada vez mais sozinha e parece cada vez mais feliz – , que disseram, repito, que a gata, afastada das visitas, parecia brincar com qualquer coisa. Um brinquedinho de gato. Dourado. Pequeno. Assim como um anel.

Durmam bem.

terça-feira, 14 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 2

ONDE SE FALA DE QUARTEIRÕES E DE SEMIÓTICA.

A primeira casa onde vivi fazia parte de um quarteirão.

Um quarteirão não quer dizer “temos que andar mais quilómetros para chegar aquela loja/praça/museu/exposição, estamos em sangue, por favor e se nos enfiássemos num táxi e fossemos comer, de qualquer modo estou farta de t-shirts giras, edifícios fantásticos, Caravaggios e o Van Gogh e as múmias que se lixem”.

Descrevi isto assim para dar ‘l’air du temps’.


O quarteirão onde vivi era limitado por quatro ruas, quatro filas de prédios que formavam um quadrado impecável no exterior. Tinha uma entrada, com uma chave ciosamente guardada por não sei quem. O interior eram as traseiras das casa, os locais onde se fazia o trabalho infindável, cozinhar, lavar roupa, engomar roupa, dar lanche às crianças.


E os quintais. Pelos quintais conheciam-se as pessoas. No nosso havia flores, algumas que não tornei a ver. Amores-perfeitos, gladíolos açucenas, todos fúnebres. E uma trepadeira de rosas. E árvores, que tinham o nosso nome. As minhas eram ameixoeiras e nunca comi melhores ameixas do que essas, amarelas e douradas ao sol. As outras, não quero lembrá-las agora.


Uma maria-rapaz que vive grande parte da vida dentro de um quarteirão, observa muita coisa. Talvez tenha começado aí. Eu lia empoleirada em árvores, caminhava sobre muros, passava de uns espaços para os outros, conhecia as rotinas mais do que as pessoas.


Era uma gata, a tomar todos os espaços como meus. Também aprendi a ser dissimulada. Porque, uma vez, disse ao jantar: – “ O pai da Teresinha vai casar com a Fiona, não vai?”


(‘casar’ foi amoroso, eu era uma criança. A mãe da Teresinha, a tia Eugénia, era uma doente crónica. Tudo lhe dava achaques e tudo, mas tudo, impedia que a Teresinha e o pai da Teresinha fizessem fosse o que fosse. Que ela piorava. Então, contrataram uma miss, a Fiona, uma inglesa leitosa, vagamente parecida com a Faithfull. E com vinte e quatro anos. E com umas mini-saias do caraças. E eu comecei a ver, nas corda da roupa, além das respeitáveis ‘cintas’ da mãe da Teresinha e o, pronto, ‘underware’ da Teresinha, muito parecido com o meu as cuequinhas de renda coloridas, da Fiona. Q.E.D.)


Levei uma descompostura. Duas semanas depois, o pai da Teresinha fez um bruto desfalque no banco onde sempre trabalhara pacatamente. Sumiu-se e a Fiona com ele. Deixou a mulher e a filha numa situação terrível. Mas, bem. Numa situação terrível já estava a mulher, coitadinha.

1ª Lição – Não abusem da paciência dos outros.

2ª Lição – O que é óbvio vê-se. Obviamente.

3ª Lição – Lá por seres amiga da Teresinha não quer dizer que o pai dela não seja um ladrão e um adúltero que se marimba na filha.


Estava formada. Mas tive que crescer, aos doze anos não se pode ser detective. Não se pode ser nada, de resto.


E, depois aconteceram-me coisas. Vou contar. Hoje não.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Semanário da Gata Livreira Maravilhas: 2


Maçada! Da maçada da página em branco se queixam os escritores, que bem os ouço nas suas longas lamentações existenciais aqui por casa. Seres demasiado peculiares. Tanto, que nem sempre me apetece entreabrir um olho para os observar. Só a maçada que isso seria. Nem eu preciso disso pois conheço-os pelo cheiro, por exemplo, mas reservo esse assunto para um dia menos maçador, o assunto “A que cheiram os escritores”, hum. Eu, por exemplo, sei.


Também os conheço pela forma como se entoam a si próprios e aos seus estados de alma. Pela voz, quero dizer. Que nunca alcança a poética presente na vasta gama de trinados dos nossos miados. Com a excepção ali do teatro de S. Carlos, meu vizinho cujos telhados conheço bem, posto que por ali flirtei quando era nova, nem sempre com sucesso por causa, justamente, da maçada dos ensaios. Mas como me afasto do tema!


Maçada. A mim, a página em branco não maça coisa nenhuma. Aquilo é, de todas as perspectivas, de frente, de costas ou, como dizem os humanos, de frente e verso, uma folha de papel. Por que havia uma folha de papel de me maçar? É verdade que é feita de pasta de papel e é verdade que, para existir e poder maçar a existência vocacionada para maçadas que é a dos escritores, morreram árvores. Ou seja, a página em branco, pensem comigo, a maçar alguém, maça as árvores. E muito.


Para mim, que graças aos deuses não sou escritora, excepto no devaneio destas páginas cuja brancura em nada me aflige, para mim, dizia, a maçada mais maçadora, excluindo a visita ao veterinário, é a semana que começa. Porque não há semana que não comece e isso é uma grande maçada. Todas as semanas começam. Pior: todas as semanas começam à segunda-feira. Mal acaba um domingo, não se pode respirar que logo entra a segunda-feira. Todos os domingos, sucessivamente. Sempre, sempre, sempre. Não muda nunca. Ora, se este disparate, se esta nascente de sonolência desinspirada, se esta MAÇADA não é coisa saída de cabeça humana, eu vou ali e já venho. Têm que estar sempre ocupados, sempre a inventar coisas, os humanos. Não conseguem dedicar-se à feliz arte do sono ou à clássica dança do lento espreguiçar ou aos banhos demorados sob o sol.


Isto do calendário semanal, digam-me, que sentido faz? Não poderia ser como a sequência numérica uma não-repetição-não-surpreendente-e-no-entanto-sempre-nova? Poderia. Agora, esta agoniante repetição, esta circularidade, esta maçada? Para quê? Excepto que me recorda a expressão “pescadinha de rabo na boca” e dessa eu gosto.


Por que me aborrecem as segundas-feiras? Há um bulício diferente. Os humanos aqui de casa aparecem, matinais, uns mais frescos e felizes da vida do que outros, e começam a trabalhar. Se fosse só, mas não. Desde que entram e até começarem a trabalhar dedicam-me algum do seu tempo. Como se eu gostasse disso. Como se eles me importassem. São de outra raça, de outro credo, de outra criação. Basta-me que me prestem a serventia para que foram criados. Que limpem o que está sujo, me ponham a mesa, enfim. E, principalmente, não me dêem festas a menos que eu as solicite. Porque o assunto “mãos” não é assunto menor.


As palmas das mãos humanas são, seguramente, das mais infelizes criações. Ao nível da água a ferver, por exemplo, esse tipo de desastre. Lisas, sem pelagem macia, ora frias ora quentes, muitas vezes húmidas, às vezes ressequidíssimas, as palmas das mãos humanas não chegam aos calcanhares das belas patas, fortes, bem almofadadas, de garras bem tratadas, de um felino. E dá-lhes para me passarem aquilo pelo lombo.


Ah, mas durante o fim-de-semana… quanta alegria! Os humanos cá de casa desampararam a loja, de vez em quando lá aparece um ou uma, mas maça menos. Com a livraria fechada tenho outro sossego e não preciso aguardar, como durante a semana, pela gratificação que são as minhas noites solitárias. Ao fim-de-semana o dia decorre inteiro como as minhas noites e vivo um sossego prolongado em que a luz de sol toma o lugar do luar. Humanos estrangeiros lá páram à porta para me observar, acham-me mais graça do que aos livros e têm razão porque bem graciosa sou. Nunca lhes ligo nada. Enfiam pacotinhos de açúcar pela frincha da caixa do correio, talvez porque lhes passe pela cabeça que vou rasgar aquele invólucro e comer aquele veneno. Nunca! Sou uma gata espertíssima.


Conhecem a expressão “aqui há gato”? Fui eu quem a inventou. Significa: aqui há um olhar sábio, aqui há juízo. Humanamente significa outra coisa; significa “marosca”, parece. É uma palavra cuja sonoridade me agrada. Lembra mosca.


E assim se fez outra página do meu semanário, assim dei cabo de mais uma página em branco.

Bien à vous.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Folhetim Detectivesco: 1

ONDE SE APRESENTA A AUTORA E SE FALA DE ACTIVIDADES MAIS OU MENOS APROPRIADAS.

Sou detective.

Não é uma profissão fácil quero dizer, não é fácil declará-la. Imaginem-se num jantar de semidesconhecidos, ambiente simpático, com algumas promessas de engate, algumas criaturas interessantes na mesa, alguns olhares trocados, aqueles jantares em que metade das pessoas quer sangria de champagne e a outra metade um vinho tinto decente e todos conseguem o que desejam.

Enfim, a primeiríssima parte do que desejam. Mas 1-1 é um resultado bom. Um resultado que augura outros.


E quando todos acertaram – ah, a mão invisível! – em tratar-se por ‘tu’ ou por ‘você’, quando conhecidos e primos comuns já foram desentocados, mas não em demasia, para não perder a graça, quase antes da fase de se tomar partido por alguma ninharia e das afinidades electivas se construírem em formas mais concretas, aparece a pergunta fatal. ‘E então, o que é que faz?’. Uma tragédia, isto que fazemos definir-nos. Por outro lado dá origem a respostas engraçadíssimas, quando saímos fora do: – ‘estou entre projectos’, ‘ajudo o meu marido no nosso negócio de imobiliária’, ‘escrevo’ ou ‘trabalho com a bolsa de valores’.


Agora imaginem: – ‘Sou detective’. Tau!


Porque ninguém pensa no Poirot ou na Miss Marple. Pensam no IRS, na ASAE. Em contabilidade criativa. Pensam no motel onde, sem dar por isso, a semana passada… Pensam nos pecadilhos. Em pensões de alimentos, em vidas das quais fugiram, mas que pairam sobre eles. Pensam em coisas más. Pecados antigos. Longas sombras. Às vezes, em coisas mesmo muito más.


Por isso nunca respondo. Sorrio. Bebo um gole da mistela que me calhou em sorte. Digo que labuto em coisas de família, ou que faço traduções, ou que estou a escrever, mas para a gaveta… Ou pura e simplesmente que sou rica-esta é desconcertante. Deixo suspeitas, ‘teúda e manteúda’? (ai estas expressões...), aventureirinha? Forrada de dinheiro, seja ele de família ou de uma bela pensão de divórcio? Habilidosa da vida, das que vão arranjando vagos tachos a reboque de políticos? Seja o que for, tudo tem que ser leve. E nunca, por nunca, posso deixar que suspeitem da verdade.


Ah porque. Não tinha dito? Sou mulher. Uma mulher-detective.


Existe coisa pior? Por acaso existem várias e mesmo nós somos mais do que pensam. E não, não pertenço a nenhuma polícia. Sou mesmo como o Marlowe. Private-eye.


O bom da profissão é ser tão divertida. O mal da profissão é ser tão divertida. Como uma linha de coca boa. Não há nada que vicie mais, que nos agarre mais do que o desejo de saber.


Fora isso moro neste hotel. Que foi um achado. Quarto e sala. Na vida tenho dois gatos e algumas outras personagens que irei apresentando.


Chamo-me Ana. Parece-me bem. O mais famoso biombo. Ana O.

sábado, 4 de março de 2017

Semanário da Gata Livreira Maravilhas: 1


Era pequenina, por isso não sei ao certo como aqui vim parar, mas sei onde aqui guardam os rolos de papel branco dito “higiénico” onde, nos primeiros tempos, eu afiava as minhas unhas. A minha casa natural é o mundo, para abreviar esta conversa sobre o espaço em que me movo. Os humanos, porém, com as suas afeições geradoras de medos geradores de privações, entenderam confinar-me a estes quatro andares edificados, contando com o rés-do-chão. Conheço todos os degraus, são o meu ginásio privado. Não me deixam sair para a rua e quando alcanço essa proeza, desesperam com Ais Jesus. Afligem-se muito. Quem o Jesus dos ais é eu não sei, mas em contrapartida sei o que é atum, e estamos conversados.


(Minto. Sei quem o Jesus é. É o Cristo. Vem nas letras da capa do livro que um homem alto, bem-parecido, comprou na quinta-feira, “Voltar a falar de Jesus Cristo”. Um livro bom porque cá em casa os livros são sempre bons. Bons e bonitos. Especialmente bons. Saborosos. Mas já me deixei disso, estou de dieta.)


De que me serve gostar da calçada à portuguesa ou da sombra fresca, qual a das catedrais em dias de canícula, que os lugares debaixo dos carros estacionados aqui em frente proporcionam? Ou de que me serve o calor que os motores libertam nos dias mais gelados? Ou de que me serve a desafiadora presença dos telhados da baixa lisboeta que observo das janelas da salinha do quarto andar? Adivinharam: de nada. Estou confinada, aprisionada. Habito este edifício velho tornado novo por arquitectos notáveis. As obras não são do meu tempo, o que não significa que eu seja nova. Sou, aliás, gata velha. Mas velhos, como sabemos, são os trapos.


Prefiro o rés-do-chão apesar das visitas frequentes dos humanos. São das espécies mais maçadoras que conheço. Piores que os humanos só mesmo os cães e os donos dos cães. Tormento de criaturas. Prefiro o rés-do-chão, ainda assim, e no rés-do-chão prefiro o mezanino pois é de lá que enxergo a passagem das horas.


Tenho manhas de poeta, ou não vivesse numa livraria. Com isto da “passagem das horas” quero dizer os que frequentam a minha casa. Alguns a medo. Imponho respeito. Sou negra, sedosa, os meus olhos verdes encandeiam os homens como os da Joaninha. (Esse livro não sei se o tenho cá, mas adiante.) O meu nome é Maravilhas, a minha profissão: livreira.


Virei semanalmente escrever as minhas memórias, se houver quem as leia. De outra forma, para quê? E quando digo “semanalmente” significo “semanalmente ou coisa que o valha”. Nem sempre estou de maré. Há aborrecimentos, muitos cheiros no ar, muita preguiça. E há o bom que é dormir, também.


Peço-vos atenção. As minhas memórias mudarão o mundo, ainda que haja um cão russo que já tenha escrito as dele, e um nariz, entre muita outra gente. Mas as minhas serão melhores, primeiro porque são minhas, depois porque tem dias em que tenho manhas de poeta e tem dias em que tenho manhas de outros géneros. Dotada sou, e multifacetada. Ademais, ronrono maravilhosamente. Sou a Maria Callas das gatas, em suma.

Bien a vous.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O blogue Cotovia reabre portas!


Atentai, leitoras e leitores!
O blogue Cotovia reabre portas!
É entrar, é entrar!

Contamos com um Folhetim Detectivesco de autoria anónima, saga semanal de grande interesse e fascínio.

Contamos com o Semanário da Livreira Gata Maravilhas, reflexões de uma gata habitante de uma casa com nome de pássaro. Hummmm.

Contamos com o Anedotário de uma Editora, onde, numa salada de ficção e realidade, se fala do que acontece dentro de portas -- a história do estrangeiro que a quis gratificar com uma nota de cem dólares ou a do autor que vomitou sobre as provas ou as conversas sobre doutores com a empregada da limpeza.

Se quer saber mais diga: like!