sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A Cotovia deseja-lhe Boas Festas


Estrela de Natal

Na estação fria, num lugar onde soe mais a quentura
que a friagem, e mais a planura que a altura,
nasceu para salvar o mundo um Menino na caverna;
o vento soprava como só no deserto quando inverna.

Para Ele, tudo parecia enorme: o seio da Mãe, o vapor
amarelo nas ventas do boi, os Reis Magos – Gaspar, Melchior,
Baltazar – mais os presentes, arrastando-se desde a porta, à espera.
Ele era apenas um ponto. E um ponto era também a estrela.

Atentamente, sem pestanejar, por entre raros fiapos de nuvens,
posto no Menino nas palhinhas deitado, de muito além,
do fundo das profundezas do Universo, o olhar
da estrela estava posto na caverna. E era o do Pai aquele olhar.



Paisagem com inundação, de Iosif Brodskii
(Tradução de Carlos Leite)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Poemas, de Tibulo

«Então, depois de celebrar o deus, a juventude vai estirar-se na relva,
onde cai a sombra suave de uma velha árvore,
ou vão com seus mantos estender sombrinhas envoltas
em grinaldas, e, assim coroada, ali ficará uma taça;
e cada um erguerá para si o seu festim bem alto e festivas
mesas com tufos de erva e com tufos de erva um leito.
Aqui, já bebido, o jovem há-de lançar maldições contra a amada,
que, logo depois, vai querer e desejar que fiquem sem efeito,
pois vai chorar de fúria contra ela e, já sóbrio,
jurar que tudo isso aconteceu num desvario.
Nessa tua paz, findem-se os arcos e findem-se as setas,
e reine somente na terra o Amor inofensivo.»

Poemas, de Tibulo
(trad. Carlos Ascenso André)


Poesia Grega de Álcman a Teócrito

A condição humana
«Ó rapaz, é Zeus tonitruante que detém o desfecho
de tudo quanto existe e tudo dispõe como quer.
Não há inteligência nos homens, mas vivemos
efémeros como gado, sem sabermos
como o deus terminará cada coisa.
Porém a esperança e a credulidade
alimentam-nos a vontade do impossível.
Uns esperam que venha o dia, outros as estações.
Não há ninguém que não julgue chegar ao ano
seguinte, amigo da riqueza e da prosperidade.
Mas a velhice, nada invejável, apanha um homem
antes de chegar à sua meta; a outros mortais
destroem as doenças miseráveis; e Hades envia
outros para debaixo da negra terra, mortos por Ares.
Outros agitados na tempestade marítima
e nas ondas numerosas do mar purpúreo
morrem, quando não conseguem sustento em terra.
Outros ainda atam uma corda ao pescoço em desgraçado
destino e deixam por sua vontade a luz do sol.
Assim, nada existe sem misérias, mas incontáveis
desgraças e sofrimentos inesperados existem
para os mortais. Mas se eu tivesse o poder de persuadir,
não estaríamos apaixonados pelas desgraças,
nem daríamos cabo do coração com dores amargas.»

Semónides in Poesia Grega de Álcman a Teócrito
(trad. Frederico Lourenço)


Odes, de Horácio

«Que pede um poeta a Apolo, a quem um templo
foi dedicado? Que suplica, derramando da pátera
um líquido novo? Nem as férteis colheitas
da fértil Sardenha,
nem o amável gado da ardente Calábria,
nem o ouro e o marfim da Índia, nem as terras
que o silente curso do Líris remordeja
com sua tranquila água.
Que a vinha seja com calena foice podada
pelos contemplados da fortuna, que em copos de ouro
o opulento mercador de um trago beba
os vinhos trocados por sírias mercadorias,
homem grato aos próprios deuses, pois todos os anos revê
impune três ou quatro vezes o mar atlântico;
quanto a mim, alimentam-me as azeitonas,
a chicória e as leves malvas.
Filho de Latona, faz com que saudável desfrute
daquilo que tenho, e que, rogo-te, de mente sã
leve uma velhice nem desagradável,
nem privada da cítara.»

Odes, de Horácio
(trad. Pedro Braga Falcão)

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O burro de ouro, de Apuleio

«1. Nestes prados de tenra erva, Psique, recostada sobre um leito de suave relva aspergida pelo orvalho, acabou por repousar docemente, uma vez acalmada a enorme perturbação de espírito. E já vivificada por um sono reparador, levanta-se com o ânimo tranquilo. 2. Avista um bosque repleto de numerosas árvores de alto porte, avista ainda uma fonte de águas cristalinas e transparentes. Mesmo ao meio do bosque, perto do lugar de onde brotava a fonte, havia um palácio real, edificado não por mãos humanas, mas antes por artes divinas. 3. Era bem evidente, logo desde a entrada, que se estava perante a morada esplendorosa e agradável de algum deus. Na verdade, o tecto elevado e cuidadosamente trabalhado em madeira de tuia e em marfim, era sustentado por colunas de ouro; as paredes estavam completamente recobertas de prata cinzelada e brindavam o olhar dos visitantes com imagens de feras e de outros animais selvagens do mesmo tipo. 4. Fora pela certa um homem admirável, ou mesmo um semideus ou até seguramente um deus, o obreiro que, com a subtileza de uma arte magnífica, havia dado a forma de feras a tanta prata. 5. Aliás, até os pavimentos, feitos em mosaicos de minúsculas pedras preciosas talhadas à medida, desenhavam nitidamente pinturas de cores variadas. É sem dúvida muitas e muitas vezes feliz quem tem o privilégio de pisar assim gemas e jóias preciosas! 6. Também os restantes aposentos da mansão, tanto no comprimento como na largura, eram de uma preciosidade incalculável e todos os muros, feitos de blocos de ouro maciços, resplandeciam com um fulgor natural, a ponto de a casa poder ter luz própria, se o sol a não quisesse dar, tal era o brilho dos quartos, das galerias e dos próprios banhos. 7. As restantes riquezas reflectiam, de igual forma, o esplendor da mansão, de maneira que até se julgaria, com acerto, que o grande Júpiter havia mandado edificar este palácio celestial, para conviver com os humanos.»

O burro de ouro, de Apuleio
(trad. Delfim Leão)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Odisseia, de Homero

«Quando surgiu a que cedo desponta, a Aurora de róseos dedos,
levantou-se da sua cama o amado filho de Ulisses;
vestindo a roupa, pendurou do ombro uma espada afiada,
e nos pés resplandecentes calçou as belas sandálias.
Ao sair do quarto, assemelhava-se a um deus.
Logo ordenou aos arautos de voz penetrante
que chamassem para a assembleia os Aqueus de longos cabelos.
Aqueles chamaram; e reuniram-se estes com grande rapidez.
Quando estavam já reunidos, todos em conjunto,
dirigiu-se Telémaco à assembleia, segurando na mão
a brônzea lança — mas não ia só: dois galgos o acompanhavam.
E admirável era a graciosidade que sobre ele derramara Atena:
à sua passagem todos o olharam com espanto.
Sentou-se no assento de seu pai; os anciãos cederam-lhe o lugar.»

Odisseia, de Homero
(trad. Frederico Lourenço)