segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A decorrer na nossa livraria e no site:


Uma Coisa Não é Outra Coisa, de José Maria Vieira Mendes



NOVA EDIÇÃO COTOVIA



«Não tenho vontade de reduzir a relação entre teatro e literatura às ideias que alimentam uma dualidade e uma tensão histórica ou uma separação gradual entre disciplinas, ou ainda uma progressiva transparência ou diluição dos limites do teatro e da literatura porque perco a oportunidade de reconhecer o espetáculo ou o texto. Mas também não tenho vontade de ignorar a presença dessas preocupações e relações ao longo de uma história feita de um conhecimento que procura certezas e mascara dúvidas em busca de entendimentos partilhados que abarquem o maior número de casos. Não quero ignorar o cético, ignorar Lear. O cético ajuda-nos a detetar quem afirma que o teatro é literatura ou que o teatro não é literatura e a perceber que estes diferentes entendimentos do mundo dependem das vontades dos sujeitos. Reformular o problema significa reabilitar a diferença entre as duas artes e libertá-las do predomínio de uma semântica de antinomias e oposições. Só assim é possível identificar esta diferença óbvia.»

Uma Coisa Não é Outra Coisa, de José Maria Vieira Mendes
(Ensaio)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Uma Coisa, de José Maria Vieira Mendes

NOVA EDIÇÃO COTOVIA

«PAI: O campo. Cheirem-me lá este ar. Isto sim é ar puro. Aqui pode-se refletir. Tudo mais lento. Abre-me logo o apetite. O que é que se passa contigo?
MÃE: Comigo?
PAI: Estás a tremer. Essas mãos...
MÃE: Não sei. Acho que é a terra por baixo dos meus pés.
PAI: A terra? Qual terra? Não treme nada.
MÃE: Será que sou eu?
PAI: Estás-me a ver a tremer? Estás a ver mais alguém aqui a tremer?
FILHO (em cima de um cavalo, com capacete e armadura de D. Quixote): “Ditosa era e século ditoso aquele em que virão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de entalhar em bronze, de esculpir em mármores e pintar em telas para lembrar o futuro. Ó tu, sábio encantador, quem quer que sejas, a quem há de tocar ser cronista desta história peregrina! Rogo-te que não te esqueças do meu bom Rocinante, meu companheiro eterno em todos os meus caminhos e estradas.” Onde é que o sol se põe? É para lá que vamos. Um campo oscilante com o vento a dar. Acordar de manhã e sentir a erva gelada por baixo das botas, ir buscar ovos à capoeira, alimentar a porca, pôr as cabras a pastar. É disso que preciso. Sai-me fogo pela boca.
PAI: Onde é que tu pensas que vais?
FILHO: Queimo quando falo, os meus dentes são labaredas. Aproximamo-nos do acontecimento, do trovão, e a pergunta que importa é: quem vai ficar para contar?
PAI: Contar o quê?
FILHO: As façanhas de Ulisses, as aventuras de D. Quixote, as minhas desgraças e desarticulação. Sou torto, não sei escrever e não estou disposto a aprender. Mas mereço a posteridade.
MÃE: Coitadinho, a adolescência é cruel.
FILHO: “É lógico que o ilógico contradiga a lógica.” Corneille, prefácio de Surena. E a seguir digo: “imagina que não há amanhã, que a vida é hoje e que hoje não existe”. E agora vou dormir.
MÃE: Meu querido filho. Estás tão perdido e confuso. Fausto. Fausto!
PAI: Não me chamo Fausto, chamo-me Polónio.
MÃE: Para onde foram os nossos filhos, Polónio?
PAI: Foram só ali aos arbustos.
MÃE: O que é que eles foram fazer aos arbustos?
PAI: Sei lá.
MÃE: Que futuro é o deles? O que vai ser deles?
PAI: Relaxa, já vêm.
MÃE: A culpa é minha. Passo a semana a trabalhar, deito-me e acordo à espera de me deitar e acordar. Nunca lhes dei a atenção que devia. Conversamos tão pouco, mal nos ouvimos. Sou sempre a última a ir buscá-los à escola. Quando não me esqueço... Sou uma péssima mãe. Sou uma mulher horrível. Não sei cozinhar. Uma mulher não é nada disto. Não sou uma mulher. Não sou feminina. Não sou nada. Não sirvo para nada. Não me tocam. Não sabem o meu nome. Já se esqueceram de mim!
PAI: Então, filha. O que é que tu tens?
MÃE: Entusiasmei-me, desculpa.
PAI: Respira fundo. Já olhaste à tua volta? Olha como é bonito, o campo. Como é tranquilo, sossegado e calmo…
MÃE: Aquilo ali é um pássaro?
PAI: É uma cegonha a passar lentamente.
MÃE: E aquilo?
PAI: São vacas a levar o seu tempo.
MÃE: E ali?
PAI: Cabras a pastar em paz.»

Uma Coisa, de José Maria Vieira Mendes
(Peças)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Os Devaneios do Caminhante Solitário, de Jean-Jacques Rousseau


Monte Sainte-Victoire e o Viaduto do Vale do Arc River, Paul Cézanne, 1882
«A solidão campestre em que passei os melhores anos da minha juventude, a leitura dos bons livros a que me dediquei por inteiro, fortaleceram as minhas predisposições naturais para os sentimentos afectuosos, e tornaram-me devoto quase à maneira de Fénelon. A meditação em locais retirados, o estudo da natureza, a contemplação do universo, forçam um solitário a voltar-se incessantemente para o autor das coisas e a procurar com suave inquietação a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando o meu destino voltou a lançar-me na torrente do mundo, já aí não encontrei nada que pudesse, por um momento que fosse, atrair o meu coração.»

Os Devaneios do Caminhante Solitário, de Jean-Jacques Rousseau
(trad. Henrique de Barros)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Agonia do Cristianismo, de Miguel de Unamuno

«A vida é luta, e a solidariedade para a vida é luta e faz-se na luta. Não me cansarei de repetir que aquilo que mais nos une, a nós homens, uns aos outros, são as nossas discórdias. E o que mais une a cada um consigo próprio, aquilo que faz a unidade íntima da nossa vida, são as nossas discórdias íntimas, as contradições interiores das nossas discórdias. Uma pessoa só fica em paz consigo própria, como Dom Quixote, para morrer.
E se isto é a vida física ou corporal, a vida psíquica ou espiritual é, por sua vez, uma luta contra o eterno esquecimento. E contra a história. Porque a história, que é o pensamento de Deus na terra dos homens, carece de uma última finalidade humana, caminha para o esquecimento, para a inconsciência. E todo o esforço do homem consiste em dar finalidade humana à história, finalidade super-humana, como diria Nietzsche, o grande sonhador do absurdo: o cristianismo social.»


A Agonia do Cristianismo, de Miguel de Unamuno
(trad. Artur Guerra)

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O que é a filosofia?, de José Ortega e Gasset


«Recordo ter lido há anos isto num poeta contemporâneo e nosso compatriota, Juan Ramón Jiménez:
Meu jardim tem uma fonte,
e a fonte uma quimera,
e a quimera um amante
que agoniza de tristeza.
Daqui resulta que no mundo onde há jardins há também quimeras, e há-as capazes, nada menos, de deixar à morte um poeta que passa. Se não as há, como é que falamos delas e as distinguimos dos restantes seres e definimos a sua contextura e até as retratamos e esculpimos nas fontes que pulsam nos nossos jardins? E como a quimera é só representante de toda uma fauna semelhante, diríamos que há também centauros e tritões, grifos, sátiros, unicórnios, pégasos e ardentes minotauros. Mas rapidamente — talvez demasiado rapidamente — resolvemos a quimérica questão dizendo que se trata de uma grei fantasmagórica, que não há no Universo ou realmente, a não ser na nossa fantasia ou imaginariamente. Deste modo tiramos a quimera do jardim real onde pretendia existir junto dos cisnes e namoriscar com os poetas, e metemo-la de
ntro de uma mente, de uma alma, de uma psique.»

O que é a filosofia?, de José Ortega e Gasset
(trad. José Bento)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Heróides (Cartas de amor), de Ovídio



FEDRA A HIPÓLITO

«A saudação que, se lha não enviares tu, vai faltar-lhe a ela,
é o que envia a mulher de Creta ao varão filho da Amazona.
Lê-a por inteiro, seja como for. Em que é que a leitura de uma carta pode ser danosa?
Pode bem haver nela alguma coisa que te seja, ainda, grato.
Com estas linhas, há segredos que são levados por terra e por mar;
observa o inimigo as linhas que do inimigo recebeu.
Três vezes tentei falar-te, três vezes me ficou colada, sem préstimo,
a língua, três vezes, à entrada da boca, se desvaneceu o som.
Até onde nos for consentido e formos capazes, devemos juntar
vergonha ao amor;
aquilo que tive vergonha de dizer, o amor me ordena que o escreva;
tudo quanto o Amor ordena, desprezá-lo não é seguro;
ele governa e tem poder sobre os deuses que tudo mandam.
Ele, no começo, ante a minha hesitação em escrever, disse-me:
“Escreve. Aquele homem de coração de ferro há-de estender-te as mãos, de vencido.”
Que ele me acompanhe, e, tal como inflama, com fogo insaciável, as minhas entranhas,
assim trespasse o teu coração do meu desejo.
Não é por perfídia que vou romper o meu pacto conjugal;
a minha fama, quem dera que o indagasses, está isenta de crime.
Chegou tanto mais forte o amor, quanto mais tardio; ardo por dentro;
ardo, e uma ferida cega atormenta-me o coração.»


Heróides (Cartas de amor), de Ovídio
*Tradução de Carlos Ascenso André

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O filho da mãe, de Bernardo Carvalho

«— Não posso ter filhos. Demorei mais de vinte anos para dizer isso sem ter que me explicar. Esperei as mulheres da nossa geração chegarem à idade de não poder mais ter filhos.
— Então, por quem você veio?
As duas estão sentadas num café da rua Rubinshtein. Não se viam fazia quase quarenta anos. Foram colegas de classe. Ainda estão sob o impacto do acaso e do reconhecimento, embora nem fossem tão próximas na escola.
No início da tarde, Iúlia Stepánova aproveitou a visita ao médico para rever o mercado da travessa Kuzniétchni — uma lembrança de infância, de quando a mãe a levava para comprar verduras e smetana — e depois fazer o que vinha planejando havia dias, desde que recebera o resultado dos exames. Não precisava voltar ao trabalho. Já não reconhecia quase nada naquela parte da cidade. Raramente passava por ali. Fazia vinte anos que não voltava ao consultório do dr. Juravliov. Agora, terá que decidir se quer recomeçar as sessões e passar por tudo de novo. O mundo em volta está mudado — ou em obras, recebendo os últimos retoques. “A cidade vai renascer”, diz um cartaz pendurado num edifício construído no style moderne, uma fantasmagoria típica do início do século XX, cenário recorrente dos seus pesadelos de criança. Há mais policiais nas ruas, por causa dos atentados, mas sobretudo depois do massacre no teatro da rua Dubróvskaia, em Moscou, em outubro passado.
Ao sair do mercado com um pacote de queijo e outro de frutas, ela seguiu por mais três quadras até a rua Raziézjaia e parou diante da entrada soturna de um prédio que permanecia deteriorado a despeito dos preparativos para a comemoração do tricentenário.
A voz do médico ainda ecoava nos seus ouvidos: “Há vinte anos, optamos por um procedimento radical para uma mulher da sua idade, que não tinha filhos, porque não queríamos correr riscos. E durante vinte anos nós lhe demos uma vida de qualidade. Agora, temos um novo problema aqui, está vendo? Não vou lhe dar esperanças. Cabe a você decidir o que vamos fazer”. Ao ouvir a sentença, Iúlia sentiu, pela primeira vez, que não podia morrer sem salvar uma vida.»


O filho da mãe, de Bernardo Carvalho