quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Poema "A Lição", de Charles Tomlinson

A LIÇÃO
Este ano, as cotovias
voam tão cedo e tão alto,
significando, dizes, que este Verão
vai ser quente e seco,
e quem sou eu para discutir tal profecia?
Vinte anos aqui passados ainda não
me ensinaram a ler com precisão
nem os sinais do tempo nem os sinais do céu:
continuo com o olhar de um recém-chegado,
um olhar citadino:
contudo há ainda tempo
para aprender mais coisas
sobre a estação e o canto:
Verão após Verão.

Poemas, Charles Tomlinson
(trad. Gualter Cunha)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Conversa com os estudantes das escolas de arquitectura, Le Corbusier


«Consideraram-nos como agitadores: cientistas, pensadores, sociólogos, artistas. Lá fora – no universo – assistia-se, paralelamente, às conquistas e à devastação de uma revolução técnica de que não poderia deixar de surgir, na hora fatídica, a conclusão filosófica: essa revolução das consciências que nos espera. Ora, técnica e consciência são as duas alavancas da arquitectura, nas quais se apoia a arte de construir. Assistiu-se à fractura, à derrocada de valores seculares, milenares. As velocidades mecânicas difundiam em todos os pontos do território uma nova informação. Uma vez violadas certas relações naturais, o homem viu-se de certo modo desnaturalizado, abandonou as suas vias tradicionais, perdeu pé, acumulou horrores por todo o lado, fruto da sua desqualificação: nas casas, nas ruas, nas cidades, nos subúrbios, nos campos. Um espaço edificado novo e invasor, imundo, burlesco, boçal, nefasto e feio, conspurcou paisagens, cidades e corações. Ultrapassaram-se os piores limites, consumou-se a catástrofe. O homem destes cem anos indestrinçavelmente sublimes e ignóbeis juncou o solo com os detritos da sua acção. A arquitectura está moribunda, viva a arquitectura!»

Conversa com os estudantes das escolas de arquitectura, Le Corbusier  (trad. António Gonçalves)