quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Prática da Arte, de Antoni Tàpies


«A contemplação de um quadro, como ouvir música ou ler poesia, não nos exige forçosamente uma análise intelectiva das obras. O espectador já faz bastante ao consentir o impacto, ainda que de forma confusa, que a obra faz ecoar no seu espírito. A arte actua sobre toda a nossa sensibilidade e não exclusivamente sobre a inteligência.
O sentido de uma obra baseia-se sempre na possível colaboração com o espectador. Apoia-se sempre no espírito mais ou menos trabalhado daquele que a contempla. Um homem vazio de imagens, sem imaginação e sem a sensibilidade necessária para que se desencadeiem no seu interior associações de ideias e de sentimentos, não verá nada.»

A Prática da Arte, de Antoni Tàpies
(trad. Artur Guerra)

National Gallery (2014), Frederick Wiseman

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ornamento e crime, de Adolf Loos


«Não, não, o ser humano não é uma besta. As bestas amam — amam de um modo simples e como a natureza determina. Porém, o Homem maltrata a sua natureza e a natureza maltrata o Eros que há em si. Nós somos bestas — bestas que foram encurraladas; bestas a quem é negado o alimento; bestas que têm de amar por decreto. Somos animais domésticos. Se o Homem tivesse permanecido besta, o amor só entraria no seu coração uma vez por ano. Porém, a volúpia reprimida a custo faz-nos estar permanentemente predispostos para o amor. Fomos traídos pela Primavera. Essa volúpia não é simples, mas complexa; não é natural, mas 'anti natura'.

Esta volúpia pouco natural surge de forma diferente em todos os séculos, em todas as décadas, até. Ela anda no ar e tem um efeito contagiante. Não tarda em propagar-se como uma praga que não se consegue evitar; logo se espalha por todo o lado como uma epidemia secreta e as pessoas que forem acometidas por ela sabem escondê-la umas das outras. Os flagelantes não tardarão a percorrer o mundo e as piras transformar-se-ão em festas populares; a sensualidade não tardará em recolher-se nos recantos mais secretos da nossa alma.»
Ornamento e crime, de Adolf Loos
(trad. Lino Marques)


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Memorial de Aires, de Machado de Assis

«Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta pena vadia. Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer que eu me vá desta vida, semtempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem depois da missa de sétimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio cuidados de amor.
Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha mesa, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre a rua e o céu, e ali ou acolá acharás descanso. Comigo, o mais que podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo; primeiro que ele chegue, virá a troça dos malévolos ou simplesmente vadios.
Escuta, papel. O que naquela dama Fidélia me atrai é principalmente certa feição de espírito, algo parecida com o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la se tiver ocasião. Tempo sobra-me, mas tu sabes que é ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José, e para ti, se tenho vagar e quê, — e pouco mais.»


Memorial de Aires, de Machado de Assis

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Guerra Junqueiro: A musa dual - antologia

[A arte]
«A arte, quando grande, é religiosa e panteísta. Sente infinito, exprime infinito, sugere infinito. Universaliza indivíduos, evapora números, eterniza momentos. Chega à unidade, toca na essência. Eucaristia sublime, mistério esplêndido, inefável! Deus a cantar no som, a brilhar na cor, a desenhar-se nas formas! Sim! a arte é Divindade, encarnando em música.»

Guerra Junqueiro: A musa dual - antologia (introdução, selecção de textos e organização de A. M. Pires Cabral)




terça-feira, 21 de junho de 2016

Sonetos, de Florbela Espanca

A UM LIVRO
No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.
Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!
Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu e salma
As orações que choro e rio e canto!…
Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!… Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!…

in Sonetos, de Florbela Espanca


quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf


«Baixa, morena, de olhos fogosos, com uma pena de faisão no chapéu, Mrs. Jarvis era precisamente o tipo de mulher susceptível de perder a fé nos moors – ou seja, de confundir Deus com o universal –, mas não perdeu a fé, nem deixou o marido, nunca acabou de ler o poema e continuou a passear nos moors, a contemplar a lua por entre os olmos e a sentir, quando se sentava na espessa relva ao alto de Scarborough… Sim, sim, quando é largo o voo da cotovia; quando as ovelhas, dando um passo ou dois, arrancam o pasto e ao mesmo tempo fazem tinir os sinos que trazem ao pescoço; quando uma brisa começa a soprar e depois morre deixando um beijo no rosto; quando no mar lá em baixo os navios parecem cruzar-se e passam como que puxados por uma mão invisível; quando no ar se ouvem distantes concussões e cavaleiros fantasmas galopam e estacam; quando o horizonte líquido é azul, verde, emocional – então Mrs. Jarvis suspira e pensa para consigo “Se alguém me pudesse dar… se eu pudesse dar a alguém…”. Mas não sabe o que quer dar, nem quem dar-lho poderia.»

O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf (trad. Maria Teresa Guerreiro)
Capa da primeira edição, de 1922,
ilustrada pela irmã de Virginia Woolf, Vanessa Bell