sexta-feira, 29 de abril de 2016

A realidade do artista, de Mark Rothko

«Vulgarmente, que ideia se tem dos artistas? Se reunirmos uma série de descrições, o combinado resultante dar-nos-á o retrato de um palerma: alguém reputadamente infantil, irresponsável e ignorante ou estúpido nos afazeres quotidianos.
Esta imagem não acarreta necessariamente censura ou antipatia. Atribuem-se aquelas fraquezas à grande preocupação dos artistas com as fantasias que lhes são peculiares, e à natureza etérea desse fantástico. A tolerância trocista com que se olha o professor distraído abrange também os artistas. À ingenuidade dos seus juízos, os biógrafos contrapõem os píncaros que a arte deles alcança; e, embora se comente à boca pequena essa sua ingenuidade ou atrevimento, vê-se nisso sinais de Simplicidade e de Inspiração, que são as aias da arte. E se o artista se exprime atabalhoadamente e sem o costumeiro manancial de factos e informações, que sorte! comenta-se, que a natureza tenha conseguido afastá-lo de todas as distracções deste mundo, deixando-o dedicar-se exclusivamente ao seu ofício singular. Este mito, como todos os mitos, tem vários fundamentos razoáveis. Em primeiro lugar, confirma a popular crença nas leis da compensação: este sentido agudiza-se graças à deficiência daqueloutro. Homero era cego, Beethoven surdo. Pior para eles, melhor para nós — pelo vigor acrescido da sua arte. Mas, mais importante, confirma a crença persistente no carácter irracional da inspiração, que descobre entre a inocência da infância e os desaires da loucura a verdadeira percepção — que não é concedida ao homem normal. Quando pensa nos artistas, o mundo continua a partilhar o ponto de vista que Platão veicula no 'Íon' a propósito do poeta: "Não há nele invenção até se deixar inspirar e abandonar os seus sentidos, e então o seu espírito já não o habita". Embora a ciência ameace diariamente, com os seus pesos e medidas, separar o mistério da imaginação, a persistência deste mito é a homenagem inadvertida que o homem presta à penetração no seu ser íntimo, que é diferente da sua experiência racional.
Não deixa de ser estranho que os artistas nunca tenham feito grande alarido contra o facto de lhes serem recusadas essas estimáveis virtudes, sem as quais os outros homens não podem passar: a capacidade intelectual, a capacidade de ajuizar, o conhecimento do mundo, e uma conduta racional. Eles podem até ser acusados de terem fomentado este mito. Nos diários íntimos, Vollard conta que Degas se fingia surdo para escapar às arengas e discussões a respeito de coisas que ele considerava falsas e de mau gosto. Mudando o orador ou o assunto, logo o seu ouvido melhorava. Maravilhemo-nos perante esta sageza, pois Degas terá apenas suspeitado daquilo que hoje sabemos inquestionavelmente: que a constante repetição da falsidade é mais convincente do que a demonstração da verdade. Deste modo, é compreensível que o artista cultive realmente esse ar apalermado, essa surdez, esse atabalhoamento, num esforço para escapar às mil e uma irrelevâncias que diariamente se acumulam em torno do seu trabalho. Pois, ainda que jamais se conteste a autoridade do médico ou do canalizador, toda a gente se crê bom juiz e árbitro capaz de julgar o que uma obra de arte deve ser e como deve ser feita.»


A realidade do artista, de Mark Rothko
(trad. Fernanda Mira Barros)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Paraíso Perdido, de John Milton

«Deus falava, e a ambrósia dava hálito
Ao Céu, e entre os eleitos anjos bentos
Um inefável gozo se alastrou.
Sem par em verbo o Filho de Deus veio
Glorioso mais, nele todo o Pai fulgiu
Substancialmente expresso, e na face
Visível compaixão de Deus mostrou,
Amor sem fim, e graça sem medida,
Que proferindo assim ao Pai falou.
Ó Pai, gracioso o termo que fechou
A sentença, que o homem terá graça;
Pela qual terra e Céu te exaltarão
Em louvor, com sons e ecos desses sons
De hinos e cantos sacros, com que o trono
Envolto te ecoará, sempre bendito.
Deveria por fim o homem perder-se,
Criatura recente do teu mimo,
Teu benjamim cair destarte em logro
P’lo tolo que é?»

Paraíso Perdido, de John Milton
(tradução de Daniel Jonas)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Porquê Ler Marx Hoje?, de Jonathan Wolff


Marx já não tem nada a dizer-nos? Valerá a pena voltar a lê-lo? Na verdade, Marx parece ter-se tornado um anacronismo: o falhanço dos regimes marxistas arrastou-o inequivocamente para uma zona proibida; a queda do Muro de Berlim é hoje o símbolo da queda das políticas e economias marxistas. Neste livro, Jonathan Wolff defende que Marx continua a ser o mais impressionante crítico de sempre da sociedade liberal, capitalista e burguesa, e que se deve separar o 'crítico da sociedade actual' do 'profeta da sociedade futura'. O valor dos grandes pensadores não depende apenas da verdade ou validade das suas teorias e Marx é dos maiores pensadores de todos os tempos. Merece, evidentemente, continuar a ser lido.
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«O dinheiro é a parte central da explicação de como é possível a alienação em relação às outras pessoas. Funciona como um biombo para trás do qual não costumamos olhar. Mas este não é o único efeito negativo que o dinheiro tem. Nos Manuscritos de 1844, Marx também se permite um pouco de crítica literária, reflectindo sobre um passo longo do "Timão de Atenas" de Shakespeare e sobre um passo mais curto do " Fausto" de Goethe. Cita Shakespeare quando este nos diz que o ouro "vai fazer do branco, preto; do belo, horrível; do certo, errado; do nobre, vil; do novo, velho; do valente, cobarde" (Colletti 376).
Marx faz aqui uma série de comentários distintos mas relacionados. Em primeiro lugar, afirma-se que o dinheiro subverte e muda tudo aquilo em que toca. O dinheiro mercantiliza, transforma e degrada as relações humanas. Devia-se gostar das pessoas, por exemplo, porque são simpáticas ou talvez por causa das suas relações familiares. Mas, numa sociedade capitalista, pode-se gostar de pessoas porque são ricas e vilipendiar outras porque são pobres. Devíamos admirar aqueles que impõem respeito pelas suas acções, pela sua visão, ou pela preocupação com os outros. Mas, mais uma vez, tendemos a admirar os que são ricos, independentemente de como lá chegaram. Em segundo lugar. o dinheiro corrói e tudo, mais cedo ou mais tarde, tem o seu preço. Hoje pagamos a outros para fazerem coisas que dantes eram feitas porque se achava que era isso o que as pessoas deviam fazer umas pelas outras - tomar conta dos nossos filhos ou dos nossos pais quando são velhos, por exemplo. A economia capitalista está cheia de pessoas que pagam umas às outras para fazerem coisas que já foram feitas sem pensar em pagamento. O dinheiro, dizem Marx e Shakespeare, é a "prostituta universal".»

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«...pensem no sistema de crédito, que é talvez o sistema financeiro elevado ao mais alto grau de abstracção. Aqui, diz Marx, a decisão de conceder crédito a um indivíduo pode mesmo ser um assunto de vida ou de morte para ele. (Fica-se a pensar se Marx falará por experiência própria.) E neste sistema de financiamento sem dinheiro físico o indivíduo torna-se a unidade monetária. Assim, para obter crédito é muitas vezes necessário ser-se "económico com a verdade" acerca do próprio passado e futuro. É preciso falsificar-se a si mesmo. Isto, por sua vez, gera uma indústria de espiões e bisbilhoteiros, dedicados à manutenção de registos e à investigação para saber quem é "merecedor" de crédito. E aqui está a linguagem humana rebaixada de outra forma. "Qual é o seu valor líquido?" e "Que crédito é que você tem?" são perguntas sobre riqueza e escalão de crédito, não sobre a avaliação moral do carácter.
O cume final é o sistema bancário e a bolsa de valores. E já vimos o que isso nos pode fazer: pode fazer "crash" a toda a nossa volta.»


Jonathan Wolff
(trad. Joana e Francisco Frazão)

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JONATHAN WOLFF é Professor de Filosofia no University College de Londres. É autor de "Uma introdução à Filosofia Política" e co-autor de uma colecção sobre Pensamento Político da Oxford University Press.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Pessach

Por que celebramos Pessach? Porque a história bíblica de Moisés e o povo de Israel nos mostra um líder e seus seguidores convivendo com as contradições da liberdade humana. Pois somos todos impulsionados, ao mesmo tempo, pelo desejo de mudança e pelo medo do desconhecido, pelo amor e pela vontade de dominar, pelo egoísmo e pela solidariedade.
Celebramos Pessach para lembrar que a luta pela liberdade é o confronto constante entre o escravizador e o escravo que carregamos dentro de nós. O nosso faraó, que não aceita limites, a não ser os seus, e quer ser reconhecido, mas não reconhece o direito à dignidade e à autonomia dos outros. E a travessia do povo de Israel, que cada vez que se desespera perde a liberdade, que é a capacidade de enfrentar desafios, preferindo a segurança de um passado idealizado, do que apostar em um mundo novo a construir.
A narrativa bíblica do sofrimento imposto ao povo egípcio, nos tempos atuais, possui um sentido metafórico: o Faraó teve que sofrer para se abrir ao sofrimento dos outros. Porque o sofrimento e a dor podem nos aproximar da nossa comum humanidade, lembrando que todos nós somos frágeis e que devemos ser sensíveis aos sentimentos dos outros. E que reagindo contra o fanatismo de outros podemos nos transformar em fanáticos.
A história de Pessach deve ser lida como um marco em um processo que nunca termina. Processo que se inicia na história bíblica com um ato de liberdade, o de Eva, que desobedece uma ordem, e graças a sua curiosidade a aventura humana começa. Aventura que continua no Monte Sinai, quando Moisés apresenta uma constituição, já que não existe liberdade individual sem regras que assegurem a convivência e o respeito pela liberdade dos outros. E que continua na mensagem dos profetas, que afirmam que os ritos e as orações são irrelevantes, se os poderosos humilham e maltratam os mais fracos.
Pessach nos lembra que a liberdade é a luta diária para não deixar que o amor se transforme em posse, o cuidado do outro em controle, o afeto em simbiose, o medo em paralisia, a insegurança em agressividade e o sucesso em arrogância.
Como qualquer tradição cultural, o judaísmo pode ser usado para o bem e para o mal, para expandir a nossa sensibilidade ou a negar a humanidade do outro, como uma identidade que não teme o que é diferente ou como antolhos narcisistas que nos empobrecem. Por isso festejamos Pessach como uma celebração da rebeldia, da liberdade ao serviço do bem e de aproximação de todos aqueles que são perseguidos, humilhados, estigmatizados e sofrem injustiças, e agradecemos:
Shehechyanu, ve´quimanau ve’higuianu lazman haze.
Que vivemos, que existimos, que chegamos a este momento.

Bernardo Sorj


*Pessach: Páscoa judaica, "Festa da Libertação"

Gravura de Bernard Picart (1725)


Do Autor, na Cotovia (Colecção Judaica):



terça-feira, 19 de abril de 2016

Poemas (Cantos de amores), de Tibulo

Baco, de Caravaggio

























«Despeja vinho! Abafa com vinho puro estas últimas dores,
para que o sono tome conta dos olhos de um homem cansado,
e ninguém desperte quem foi quebrado pela abundância
de Baco, enquanto repousa um triste amor,
pois foi montada guarda severa à minha amada,
e está fechada a porta cruel com fortes trancas.
Porta de um senhor teimoso, que a chuva te flagele,
que os raios enviados por mando de Júpiter te atinjam.
Porta, abre-te logo, só para mim, vencida de meus queixumes,
e, ao abrires-te no rodar furtivo dos batentes, não faças barulho,
e, se alguma praga te rogou a minha loucura,
perdoa; que ela caia, eu o suplico, sobre minha cabeça!
A ti, fica bem lembrar quantas coisas desfiei em mil palavras
suplicantes, quando nos teus portais deixava grinaldas de flores.
E tu, também, não tenhas medo, ó Délia, de enganar o guarda;
há que ousar! Os valentes, ajuda-os a própria Vénus.
Ela favorece, quer o jovem que arrisca novos limiares,
quer a amada que mete a chave e abre a porta;
ela ensina a deslizar às escondidas para o aconchego do leito,
ela ensina a ser capaz de pousar os pés sem ruído,
ela ensina a trocar, diante do marido, acenos que dizem tudo
e a esconder palavras meigas em mensagens combinadas;
mas não ensina isto a todos; apenas àqueles a quem a preguiça
não retarda,

nem impede o medo de se levantarem na escuridão da noite.»

Poemas (Cantos de amores), de Tibulo
(trad. Carlos Ascenso André)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Três Peças para uma Mulher, de Arnold Wesker


«Prometemos que íamos ouvir a conferência do Lorde inglês não-sei-quantos sobre os tesouros artísticos que foram roubados não se sabe a quem, e a quem devem ser devolvidos. Por isso mexe esse rabo e vai ter comigo à cozinha para cantarmos o "Summertime" enquanto cortamos os cogumelos. Lembra-te:

A procrastinação é a ladra do tempo;
Ano após ano rouba até tudo sumir
E à mercê do momento deixa
As profundas preocupações de uma cena eterna

O tal Lorde talvez não seja uma preocupação profunda, mas é melhor não nos deixarmos à mercê do momento.»

Três Peças para uma Mulher, de Arnold Wesker
(trad. Maria Velho da Costa e Manuel Cintra)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Em breve, na Cotovia

Edição de bolso de O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf, e reedição de Cassandra, de Christa Wolf:


«O quarto de Jacob tinha uma mesa redonda e duas cadeiras baixas. Um frasco pousado na cornija da lareira com flores amarelas; a fotografia da mãe; cartões de sociedades com pequenos crescentes em relevo, brasões e iniciais; notas e cachimbos; em cima da mesa estava papel com uma margem traçada a vermelho – um ensaio, sem dúvida – ‘A História consiste das Biografias das Grandes Figuras?’ Havia muitos livros; muito poucos livros franceses; mas uma pessoa que se preza lê aquilo que quer, conforme lhe apetece, com extravagante entusiasmo. Por exemplo, Vidas do Duque de Wellington; Espinosa; as obras de Dickens; a ‘Faery Queen’; um dicionário de grego com acetinadas pétalas secas de papoila guardadas entre as páginas; todos os isabelinos. Os chinelos de Jacob estavam incrivelmente coçados como se fossem barcos queimados até à superfície da água. E havia fotografias dos Gregos e uma meia-tinta de Sir Joshua – tudo muito inglês. Havia também as obras de Jane Austen em deferência, talvez, aos gostos de outro. Carlyle fora um prémio. Havia livros sobre os pintores italianos da Renascença, um ‘Manual das Doenças dos Cavalos’ e os livros de texto habituais. Num quarto vazio o ar é desatento, apenas enfolando a cortina; as flores estremecem no frasco. No cadeirão de palha uma fibra geme, embora ninguém lá esteja sentado.»


O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf (trad. Maria Teresa Guerreiro)


*
«Agora a minha curiosidade, voltada também para mim própria, libertou-se totalmente. Quando percebi isto, soltei um grito, durante a travessia, eu como todos num estado miserável, moída do mar agitado, molhada até aos ossos do espumejar das ondas, incomodada com o choro e os cheiros das outras troianas sempre hostis para comigo, porque todas sabiam quem eu era. Nunca me permitiram que me misturasse com elas, quando eu quis já era tarde, porque na minha vida anterior tudo tinha feito para ser conhecida. Recriminarmo -nos a nós próprios também só serve para impedir que as perguntas importantes ganhem forma. Agora, a pergunta crescia como o fruto na casca, e quando se soltou e apareceu diante de mim dei um grito, de dor ou de prazer:
Porque havia eu de querer o dom da profecia?»

Cassandra, de Christa Wolf (trad. João Barrento)


terça-feira, 12 de abril de 2016

Memorial de Aires, de Machado de Assis

«Não há como a paixão do amor para fazer original o que é comum, e novo o que morre de velho. Tais são os dous noivos, a quem não me canso de ouvir por serem interessantes. Aquele drama de amor, que parece haver nascido da perfídia da serpente e da desobediência do homem, ainda não deixou de dar enchentes a este mundo. Uma vez ou outra algum poeta empresta-lhe a sua língua, entre as lágrimas dos espectadores; só isso. O drama é de todos os dias e de todas as formas, e novo como o sol, que também é velho.»
Memorial de Aires, de Machado de Assis

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A noite em que a noite ardeu, de A. M. Pires Cabral

PRINCÍPIO ACTIVO

Pergunto-me às vezes qual será
o princípio activo de uma noite que arde.

Ou melhor: qual será o meio comburente
em que ela se alonga e se compraz.

Será servidão? Será viagem?Será renúncia ao sono
— aquele sono que costuma vir
furtivo, como que a pedir desculpa,
quando a luz da manhã já força as persianas?

Será o inclemente apelo da distância
que se me faz sempre mais distância
à medida que caminho para ela?

Será apenas vómito
embrulhado em trevas —
— coisas que não foi possível digerir,
restos, dúvidas, silêncios culposos,
trapos embebidos em bílis e suor?


A noite em que a noite ardeu, de A. M. Pires Cabral

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Histórias de Imagens, de Robert Walser

Départ du Soldat Suisse de Sigmund Freudenberger

Esboço sobre 'Départ du Soldat Suisse'

A casa rural, coberta de palha,
ela ainda lhe dá algo
para comer pelo caminho.
“Não me tornes maior
o peso da ausência”,
diz ele à noiva vestida com primor,
que já não o olha nos olhos,
agarra‑se só ao seu peito,
até ele sair de cena,
pois tem de marchar, partir.
Os velhos estão à parte, perplexos,
afectados,
esperando, contudo,
que o inconcebível se clarifique,
ele volte para eles.
Ela combate corajosamente as suas lágrimas,
enquanto ele a preferiria como mulher,
não se protegendo tanto do sentir.
Já coloca um pé na barca,
o vermelho da sua farda
ainda os honra por um momento, à distância,
porém os passarinhos na árvore
cantam, que sejam pacientes,
é também esse
o seu hábito.
O que é que não terá para contar,
se os deuses, com suas mãos e seus olhos
em tudo, lhe permitirem regressar,
que enorme alegria vos dará.
Qual é a vossa propriedade?
A casa e o que está em redor,
na terra, movendo‑se silenciosa,
há muitos, muitos anos,
em volta do grande sol.
O que está parado,
só o está aparentemente.
Ela vai então trabalhar, contente.

Histórias de Imagens, de Robert Walser
(trad. Pedro Sepúlveda)

terça-feira, 5 de abril de 2016

Memorial de Aires, de Machado de Assis


«Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta pena vadia. Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer que eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem depois da missa de sétimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio cuidados de amor.
Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha mesa, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre a rua e o céu, e ali ou acolá acharás descanso. Comigo, o mais que podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo; primeiro que ele chegue, virá a troça dos malévolos ou simplesmente vadios.
Escuta, papel. O que naquela dama Fidélia me atrai é principalmente certa feição de espírito, algo parecida com o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la se tiver ocasião. Tempo sobra-me, mas tu sabes que é ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José, e para ti, se tenho vagar e quê, — e pouco mais.»


Memorial de Aires, de Machado de Assis

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Seis Contos Morais, de Eric Rohmer

O AMOR, À TARDE
«No comboio, gosto muito mais de ler um livro do que o jornal, e não só devido à comodidade do formato. O jornal não mobiliza grandemente a minha atenção, e sobretudo não me faz sair o bastante da vida presente. Actualmente, sou fanático por relatos de exploração. O livro que tenho comigo é a "Viagem à volta do mundo", de Bougainville. O meu trajecto, de manhã à noite, corresponde mais ou menos à dose de leitura que gosto de absorver sem interrupções.

À noite, em casa, também leio, mas outras coisas. Gosto de fazer várias leituras simultaneamente, cada uma no seu tempo e no seu lugar, e todas me transportam para fora do tempo e do lugar onde vivo. Mas não poderia ler, se estivesse sozinho numa cela de paredes nuas: preciso de uma presença física a meu lado.
Quando era estudante só podia ficar no meu quarto, depois de jantar, quando tinha de estudar. Agora, eu e a Hélène saímos pouco. Ela é professora de Inglês no Liceu de Saint-Cloud e, à noite, prepara as aulas ou corrige testes. O facto de estar, por vezes, a mil léguas dela, em pensamento, só torna mais doce a sensação da sua proximidade física... Porque é que, na multidão das belezas possíveis, fui sensível à sua beleza? Já não sei muito bem.»


L'amour l'après-midi (1972), Éric Rohmer
Seis Contos Morais, de Eric Rohmer
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)