quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Memorial de Aires, de Machado de Assis

Sem data

«Já lá vão dias que não escrevo nada. A princípio foi um pouco de reumatismo no dedo, depois visitas, falta de matéria, enfim preguiça. Sacudo a preguiça.
A noite passada estive em casa da viúva Noronha, quase que a sós com ela; havia mais o tio, um colega da Relação e uma parenta velha. Tristão fora a Petrópolis, levado pelos padrinhos até à barca da Prainha, e por mim que os vi passar na Rua da Quitanda, e subi ao carro convidado por eles. Não lhe ouvi então o motivo da ida a Petrópolis, mas já o sabia de véspera; foi examinar uma casa para o noivado. Concluí, não sei porquê, que eles ficavam morando aqui.
Posso dizer que verdadeiramente fiquei a sós com ela. Tendo ouvido ao tio que a sobrinha andava com saudades do velho amigo, - que sou eu, - imaginei que era mentira; o tio queria parceiro para cartas. Não fui e acertei; a parenta foi ao voltarete com os dous magistrados.
Eu, relativamente a Fidélia, já cheguei à liberdade de lhe perguntar se não tinha saudades do noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada, um sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristão foi o assunto mais frequente da nossa conversação, dizendo eu todo o bem que penso dele e francamente é muito, ao que ela retrucava sem vaidade, antes com modéstia e discrição; em si mesma devia estar feliz. Disse-me que ele recebera cartas da família, confirmando por extenso o que já lhe mandara em resumo. A da mãe era toda ternura, citou-me algumas frases da futura sobra, e foi buscar a carta dela para que eu a lesse também.
- Cartas políticas não vieram?
- Parece que vieram.
Li e louvei muito a carta da paulista, que achei efectivamente terna, ainda que derramada, mas ternura de mãe não conhece sobriedade de estilo. Era escrita à própria Fidélia.
Vendo que esta gostava da conversa, não lhe pedi música; ela é que foi de si mesma tocar piano, um trecho não sei de que autor, que se Tristão não ouviu em Petrópolis não foi por falta de expressão da pianista. A eternidade é mais longe, e ela já lá mandou outros pedaços de alma; vantagem grande da música, que fala a mortos e ausentes.»


Memorial de Aires, de Machado de Assis

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A Festa de Mrs Dalloway, de Virginia Woolf


O vestido novo
As Horas (2002), Stephen Daldry

«Mabel teve a primeira séria suspeita de que algo de errado se passava quando tirou a capa e Mrs Barnet, ao alcançar-lhe o espelho e ao tocar na escova, chamando-a assim à atenção, talvez exageradamente, para todos os utensílios destinados a dar um jeito ao cabelo, tez, roupas, existentes na mesinha do toucador, confirmou a sua suspeita - que não estava bem, que não estava nada bem, e que aumentava à medida que subia as escadas até surgir com convicção no instante em que cumprimentou Clarissa Dalloway; logo se dirigiu ao ponto mais distante da sala, a um canto na sombra onde estava um espelho e olhou. Não! Não estava "bem". E de imediato a angústia que sempre tentava ocultar, o profundo descontentamento - a sensação que tivera, desde criança, de ser inferior às outras pessoas - instalou-se nela, implacável, desapiedadamente, com uma intensidade que não conseguiu repelir, como sucedia quando acordava de noite em casa, lendo Borrow ou Scott; pois, oh, estes homens, oh, estas mulheres, todos eles pensavam - «O que é que Mabel traz vestido? Está horrível! Que vestido novo mais feio!» - com suas pálpebras pestanejando ao erguerem-se, para logo de seguida se cerrarem.»


A Festa de Mrs Dalloway, de Virginia Woolf
*Tradução de Mário Avelar


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Paisagem com inundação, de Iosif Brodskii

BLUES
Vivi dezoito anos em Manhattan.
O senhorio era bacano, mas tornou-se bera.
Um safado, a bem dizer. Odeio-o, meu.
O dinheiro é verde, mas é como sangue a correr.
Creio que tenho de mudar-me pr'á outra margem.
New Jersey acena com o seu brilho de enxofre.
Olha, a conta dos anos pouca importância tem.
O dinheiro é verde, mas não cresce.
Levarei comigo a mobília, o meu velho sofá, enfim.
Mas que fazer com a vista da janela? Sinto-me
como se tivéssemos sido casados, ou algo assim.
O dinheiro é verde, mas dá tristeza à gente.
Um corpo, regra geral, sabe para onde vai.
Creio que é a alma que nos leva a rezar,
mesmo que lá em cima haja apenas um Boeing.
O dinheiro é verde, e eu já deixei de esperar.

Iosif Brodskii, Paisagem com inundação
*Tradução de Carlos Leite

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Poemas (Cantos de amores), de Tibulo

«Malvado Amor, oxalá eu veja quebradas as setas que são as tuas armas,
se isso é possível, e apagado o teu fogo!
Tu atormentas um desventurado, tu obrigas-me a invocar sobre mim
males terríveis e a dizer, de cabeça perdida, coisas nefandas.
Já teria posto fim à desgraça com a morte, mas, na sua ingenuidade,
a esperança acalenta a vida e diz que amanhã será sempre melhor;
a esperança alimenta o lavrador, a esperança confia aos sulcos dos arados
as sementes que com grande proveito o campo lhe há-de devolver;
é ela que apanha no laço os pássaros, é ela que apanha na linha o peixe,
quando o pequeno anzol se esconde atrás do isco;
a esperança dá conforto, até, a quem está acorrentado a pesadas cadeias:
as pernas ressoam no ferro, mas ele canta, em meio dos trabalhos;
a esperança promete-me uma Némesis dócil, mas ela rejeita;
ah, pobre de mim!, não hás-de vencer, ó mulher cruel, uma deusa.»


Poemas (Cantos de amores), de Tibulo
*Tradução de Carlos Ascenso André

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O último Natal de guerra, de Primo Levi

Nariz contra nariz

JORNALISTA: Espere um momento, por favor! Estou há dois dias inteiros, quarenta e oito horas, à espera de o ver sair, e vai já voltar para debaixo da terra. O meu director não quer saber de justificações: se voltar sem entrevista, perco o emprego. E quer a entrevista já, antes do final da estação dos amores.
TOUPEIRA: Vamos lá, então, mas despache-se. Não é que eu tenha pressa: é que não gosto de luz. Para a próxima, se me avisar antes, marcamos à noite, de noite é tudo mais fácil e mais tranquilo. Não ouve este zumbido? Tractores, motas, até aviões: é insuportável. Antigamente não era assim, ouço dizer: havia paz nos campos. Mas para já, ajude-me, se faz favor, sabe que eu vejo mal: o senhor é um macho ou uma fêmea?
JORNALISTA: Macho. Mas não sei porque é que isso interessa.
TOUPEIRA: Claro que interessa. Não podemos confiar nas fêmeas. Interessam-me só duas semanas por ano; depois acabou-se, estou melhor sozinho. As fêmeas — incluindo as vossas — só querem saber do nosso pêlo. Não deixam de ter razão: o senhor sabia que o nosso é o único pêlo que pode ser acariciado em sentido contrário? Se não fosse assim, não poderíamos andar em marcha atrás nos nossos túneis.
JORNALISTA: Mas diga -me uma coisa: a sua é uma escolha radical. Nada de céu, nada de sol ou lua, apenas a escuridão e o silêncio eternos. Não é monótono? Não se aborrece?
TOUPEIRA: Vocês são todos iguais, e julgam tudo pela vossa medida humana. É uma escolha, sim, mas ponderada. Ao contrário da visão, privilegiei o ouvido, o cheiro e o tacto. Não pense que não tenho orelhas, só porque não as vê a partir de fora. Tenho um ouvido dez vezes mais apurado do que o vosso — numa escala logarítmica, claro. Ouço crescer uma raiz, ouço o rastejar de uma minhoca. E para me proteger dos vossos fracassos insuportáveis, basta-me descer uns 50 ou 60 centímetros: a essa profundidade, nem o gelo me afecta. Qual monotonia!

O último Natal de guerra, de Primo Levi
(trad. Clara Rowland)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Ano Novo


Não estás comigo e tanto quanto sei
Podes nem ter sobrevivido.
O mau tempo «está quase a passar»
Como tu dizias
E assim foi.
Criança perdida,
Olha para ali: estes trinta e tal metros
De terra sem préstimo, ainda fortificada
Contra os estranhos, já viram melhores dias:
As árvores a que não conseguias subir,
Exausta, aparecem burlescamente hirsutas
Contra uma parede de céu inexpressiva e sombria.
Casas tão longe de casa.

Tanto quanto me é dado ver, nem isso
Nem nós, meu amor, nos importamos muito
Com a próxima perda:
Mais um lapso do coração deliciado
Que desistiu de ti,
Mais um contentamento por que esperar, e esperar,
E esperar ainda; os relvados meninos
Que não devias ter pisado, semi-charcos
De um verde cintilante de humidade.

Ian Hamilton, Cinquenta Poemas
(trad. Nuno Vidal)