segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Três Contos da Índia, de Rudyard Kipling

NA MURALHA DA CIDADE

«A profissão de Lalun é a mais antiga do mundo. Lilith era a sua própria bisavó, e isto antes dos tempos de Eva, como toda a gente sabe. No Ocidente, as pessoas falam desagradavelmente
da profissão de Lalun; escrevem ensaios sobre ela e distribuem-nos entre os jovens para que a Moralidade seja mantida. No Oriente, onde tal profissão é hereditária e passa de mãe para filha, ninguém escreve ensaios ou repara, o que prova a incapacidade do Oriente para tratar dos seus próprios assuntos.
O verdadeiro marido de Lalun – pois, no Oriente, até mesmo as mulheres com a profissão de Lalun têm de ser casadas – era uma grande árvore de jujuba. A mãe, que tinha casado com uma figueira, gastou dez mil rupias com o casamento de Lalun, que foi abençoado por quarenta e sete sacerdotes do credo da mãe, e distribuiu cinco mil rupias em esmola aos pobres. Era esse o costume do país. As vantagens de ter uma árvore de jujuba como marido são óbvias. Tem um ar imponente e é impossível
ofendê-la.
O marido de Lalun erguia-se na planície fora das muralhas da cidade e a casa dela ficava sobre a muralha Leste diante do rio. Se alguém caísse do largo parapeito da janela, caía dez metros até à vala. Mas se uma pessoa se deixasse ficar onde devia e contemplasse as redondezas, via o gado a ser levado para beber água, os estudantes do colégio do governo a jogar críquete, as
árvores e a erva alta nas margens do rio, grandes bancos de areia que orlavam o rio, os túmulos vermelhos dos imperadores mortos para lá do rio e, muito ao longe, através da neblina azul do calor, a neve dos Himalaias a cintilar.
Wali Dad costumava deitar-se no parapeito da janela durante horas seguidas a contemplar esta vista. Era um jovem maometano que sofria gravemente da educação administrada pelos ingleses e dava-se conta disso. O pai tinha-o enviado
para uma escola missionária a fim de adquirir sabedoria e Wali Dad absorvera mais do que o pai ou os missionários tinham tencionado dar-lhe. Quando o pai morreu, Wali Dad ficou por conta própria e passou dois anos a estudar os diferentes credos deste mundo e a ler livros sem utilidade nenhuma para ninguém.
Após uma malograda tentativa para ser admitido na Igreja Católica Romana e Presbiteriana ao mesmo tempo (os missionários aperceberam-se disso e fartaram-se de lhe chamar nomes sem compreender o seu problema), Wali Dad avistou Lalun na muralha da cidade e tornou-se no mais constante dos seus poucos admiradores. Tinha uma cabeça que faria os artistas ingleses delirar e pintá-la no meio de extravagantes decorações – um rosto que as romancistas usariam com deleite ao longo de novecentas páginas. Na verdade, ele era apenas
um jovem maometano de boa aparência com sobrancelhas bem desenhadas, narinas pequenas, mãos e pés pequenos e uma expressão cansada nos olhos. Pelo facto de ter vinte e dois anos, deixara crescer uma barba negra bem cortada que ele afagava com orgulho e mantinha delicadamente perfumada. A sua vida parecia dividir-se entre pedir-me livros emprestados e fazer a corte a Lalun no parapeito da janela. Compunha canções em homenagem dela e algumas dessas canções ainda hoje são cantadas na cidade, da rua dos Talhantes de Carneiro ao pátio dos Latoeiros.
Uma das canções, a mais bonita de todas, conta que a beleza de Lalun era tão grande que perturbou o coração do governo britânico e fez com que os seus funcionários perdessem a paz
de espírito. É assim que essa canção é cantada nas ruas, mas, se prestarmos atenção e nos apercebermos do seu significado oculto, verificaremos que há nela três trocadilhos – “beleza”,
“coração” e “paz de espírito” – e, assim, a sua interpretação é a seguinte: “A subtileza de Lalun perturbou a administração do governo que perdeu tal e tal funcionário.” Quando Wali Dad canta esta canção, os seus olhos brilham como carvões em brasa e Lalun recosta-se nas almofadas e atira-lhe botões de jasmim.»

in "Três Contos da Índia", Rudyard Kipling
(trad. José Luís Luna)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

O BIBLIÔMANO

«Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito.
É um bibliômano. Não conhece o autor; este nome de Brás Cubas não vem nos seus dicionários biográficos. Achou o volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar único… Único! Vós que não só amais os livros, senão que padeceis a mania deles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhais, portanto, as delícias de meu bibliômano. Ele rejeitaria a coroa das Índias, o papado, todos os museus da Itália e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse único exemplar; e não porque seja o das minhas Memórias; faria a mesma cousa com o Almanaque de Laemmert, uma vez que fosse único.
“Bookworm” (1926), Norman Rockwell

O pior é o despropósito. Lá continua o homem inclinado sobre a página, com uma lente no olho direito, todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito. Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles… Um exemplar único!»

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Promoções de Natal e Ano Novo

De 17 de Dezembro a 8 de Janeiro, os Livros Cotovia (excepto os títulos em promoção permanente) estarão com 20% de desconto, na nossa livraria, situada na Rua Nova da Trindade, nº 24.



O Bibliotecário, de Giuseppe Arcimboldo

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O último Natal de guerra, de Primo Levi

«Timóteo, o pai, e todos os antepassados desde os tempos mais remotos tinham sempre fabricado espelhos. Num aparador da casa conservavam-se ainda espelhos de cobre, esverdeados pela oxidação, e espelhos de prata escurecidos por séculos de emanações humanas; outros de cristal, emoldurados em marfim ou em madeiras de qualidade. Morto o pai, Timóteo sentiu-se liberto do vínculo da tradição; continuou a fazer espelhos a preceito, que vendia com lucro por toda a região, mas recomeçou a meditar sobre um projecto antigo.
Desde pequeno, às escondidas do pai e do avô, tinha violado as regras da corporação. De dia, nas horas da oficina, como um aprendiz diligente fazia os habituais espelhos aborrecidos, transparentes, incolores, aqueles que, como se costuma dizer, devolvem a imagem verídica (mas virtual) do mundo, e em particular dos rostos humanos. À noite, quando ninguém o vigiava, fazia espelhos diferentes. O que faz um espelho? “Reflecte”, como uma mente humana. Mas os espelhos habituais obedecem a uma lei física simples e inexorável: reflectem como uma mente rígida, obcecada, que pretende recolher dentro de si a realidade do mundo. Como se existisse apenas uma realidade! Os espelhos secretos de Timóteo eram mais versáteis.
"O Apartamento" (1960), Billy Wilder
Havia espelhos de vidro colorido, estriado, lactescente: reflectiam um mundo mais vermelho ou mais verde que o verdadeiro, ou variegado, ou com contornos delicadamente esfumados, de forma que os objectos ou as pessoas pareciam aglomerar-se entre si como nuvens. Havia espelhos múltiplos, feitos de lâminas ou estilhaços engenhosamente dispostos em ângulo: estes quebravam a imagem, reduziam -na a um mosaico gracioso mas indecifrável. Um engenho, que a Timóteo custara semanas de trabalho, invertia o alto e o baixo e a direita e a esquerda. Quem olhasse para o espelho sentia primeiro uma vertigem intensa, mas insistindo algumas horas acabava por se habituar ao mundo virado do avesso, e sentia depois náusea perante o mundo subitamente direito. Outro espelho era constituído por três painéis, e quem se olhasse nele veria o seu rosto multiplicado por três: Timóteo ofereceu-o ao pároco para que, na catequese, explicasse às crianças o mistério da Trindade.
Havia espelhos que aumentavam, como erroneamente se diz dos olhos dos bois, e outros que diminuíam, ou faziam com que as coisas parecessem infinitamente distantes. Em alguns espelhos as pessoas viam -se esticadas, noutros largas e gordas como um Buda. Para o oferecer a Ágata, Timóteo fabricou a partir de uma lâmina de vidro levemente ondulada um espelho de armário, mas obteve um resultado que não tinha previsto. Se a pessoa olhava sem se mover, a imagem mostrava apenas leves deformações; se, pelo contrário, se movia para cima e para baixo, flectindo levemente os joelhos ou levantando-se em bicos de pés, a barriga e o peito escorriam impetuosamente para a parte alta ou baixa do corpo. Ágata viu-se transformada primeiro numa mulher-cegonha, com ombros, seio e ventre comprimidos num pacote suspenso sobre duas longuíssimas pernas magras; logo depois, num monstro filiforme de onde pendia tudo o mais, um monte de hérnias esmagado e tosco como o barro de um ceramista que cede debaixo do seu peso. A história acabou mal. Ágata quebrou o espelho e rompeu o namoro, e Timóteo sofreu. Mas não muito.
Pensava num projecto mais ambicioso. Experimentou secretamente vários tipos de vidro e de prateação, submeteu os seus espelhos a campos eléctricos, irradiou-os com lâmpadas que tinha feito chegar de países distantes, até que lhe pareceu estar próximo do seu objectivo, que era o de obter espelhos metafísicos. Um Spemet, ou seja um espelho metafísico, não obedece às leis da óptica, mas reproduz a imagem de uma pessoa do ponto de vista de quem estiver à sua frente: a ideia era antiga, já tinha sido pensada por Esopo e sabe -se lá por quantos outros, antes e depois dele. Timóteo foi o primeiro a conseguir concretizá-la.
Os Spemet de Timóteo eram do tamanho de um cartão de visita, flexíveis e autocolantes, pois destinavam -se a ser aplicados na testa. Timóteo testou o primeiro exemplar colando-o na parede, e não viu nada de especial: a sua imagem habitual e algo chã, de homem de trinta anos já a ganhar entradas, com ar arguto e distraído: fazia sentido, era uma parede que não vê ninguém, não alberga nenhuma imagem de quem lhe está à frente. Preparou umas vinte amostras, e pareceu -lhe justo oferecer a primeira a Ágata, com quem mantinha uma relação atormentada, para que ela lhe perdoasse a história do espelho ondulado.
Ágata recebeu -o friamente; ouviu as explicações com desatenção ostensiva, mas quando Timóteo lhe propôs que colasse o Spemet na testa, não esperou que ele lho dissesse duas vezes: tinha percebido demasiado bem, pensou Timóteo. De facto, a imagem de si próprio que viu, como se olhasse para um pequeno écran, era pouco lisonjeira. Em vez de ter entradas, a cabeça era completamente careca, tinha os lábios semicerrados num esgar melífluo através do qual se entreviam os dentes estragados (pois é, há muito que adiava os tratamentos que o dentista lhe tinha proposto), a sua expressão não era distraída mas idiota, e o seu olhar era muito estranho. Estranho porquê? Não demorou muito a perceber: num espelho normal, os olhos olham sempre para quem olha; naquele, ao contrário, olhavam enviesados para a esquerda. Aproximou-se e afastou -se um pouco: os olhos, de golpe, fugiram para a direita. Timóteo deixou Ágata com sentimentos contrastantes: a experiência correra bem, mas se era assim que Ágata o via, a separação só podia ser definitiva.
Ofereceu o segundo Spemet à mãe, que não pediu explicações. Viu-se adolescente, louro, róseo, etéreo e angélico, com os cabelos bem penteados e o nó da gravata à altura certa: como a recordação de um morto, pensou de si para consigo. Nada a ver com as fotografias escolares que encontrara anos antes numa gaveta, que mostravam um rapazinho esperto mas indiferenciável da maior parte dos seus colegas.
O terceiro Spemet estava destinado a Emma, não tinha dúvidas. Timóteo deslizara de Ágata para Emma sem sobressaltos. Emma era pequena, preguiçosa, quieta e esperta. Debaixo dos cobertores, tinha ensinado a Timóteo alguns truques de que ele nunca se teria lembrado sozinho. Era menos inteligente do que Ágata, mas não tinha dela a dureza pedregosa: Ágata-ágata, nunca lhe tinha ocorrido, os nomes afinal sempre querem dizer alguma coisa. Emma não percebia nada do trabalho de Timóteo, mas frequentemente batia à porta do seu laboratório, e ficava a olhar para ele durante horas com um olhar encantado. Na testa lisa de Emma, Timóteo viu um Timóteo maravilhoso. Via-se de busto, e de peito descoberto: tinha o tórax harmonioso que, para seu desgosto, nunca fora seu, um rosto apolíneo com fartos cabelos enleado por uma coroa de louros, um olhar ao mesmo tempo sereno, alegre e aquilino. Naquele momento, Timóteo percebeu que amava Emma com um amor intenso, doce e duradouro.
Distribuiu vários Spemet pelos amigos mais próximos. Notou que não havia duas imagens que coincidissem entre si: em resumo, não existia um verdadeiro Timóteo. Notou ainda que o Spemet possuía uma virtude incontestável: reforçava amizades antigas e sérias, e desfazia rapidamente as amizades assentes no hábito ou na convenção. No entanto, qualquer tentativa de lucro falhou: todos os vendedores concordavam que os clientes satisfeitos com a sua imagem reflectida na testa de amigos ou parentes eram muito poucos. As vendas seriam sempre baixas, mesmo reduzindo para metade o preço do produto. Timóteo patenteou o Spemet e esforçou -se durante anos na tentativa de manter viva a patente, tentou em vão vendê-la, e depois resignou-se: continuou a fabricar espelhos planos, aliás de grande qualidade, até à idade da reforma.»


O último Natal de guerra, de Primo Levi
*Tradução de Clara Rowland

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Remédios contra o amor, de Ovídio




«Tu, que estás apaixonado, lugares ermos são-te nefastos; cuidado com lugares ermos!
Para onde hás-de fugir? No meio da multidão, podes estar mais seguro.
Não precisas de esconderijos (os esconderijos fazem crescer
o desvario); a turba-multa serve-te de apoio.
Triste é como ficas, se ficares sozinho, e o rosto da dama que deixaste
há-de plantar-se diante dos teus olhos, como se fora ela em pessoa;
é mais triste a noite, por isso mesmo, do que as horas de Febo;
para aliviares o penar, uma multidão por companhia é o que aí te falta.
Nem fujas do convívio, nem tenhas a porta fechada,
nem escondas na escuridão o teu rosto lavado em pranto.
Terás sempre um Pílades qualquer, para curar Orestes;
nesse momento, também, cultivar a amizade não é de somenos.»

Remédios contra o amor
Ovídio
(Tradução de Carlos Ascenso André)



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello

«DIRECTOR (levanta-se e olha-o com desdém): Então para si o nosso ofício é um ofício de loucos?
PAI: Claro, fazer o que não é verdadeiro parecer verdadeiro sem necessidade: como uma brincadeira. A sua função não é a de dar vida, em cena, a personagens imaginárias?
DIRECTOR (vivamente, faz-se o porta-voz da indignação crescente no grupo): Mas saiba, meu caro senhor, que a profissão de actor é uma das mais nobres do mundo! Se hoje em dia suas santidades os jovens autores não nos propõem mais do que peças estúpidas e marionetas em lugar de pessoas reais, ao menos nós ainda nos podemos orgulhar de ter dado vida — aqui mesmo, neste palco — a obras imortais!
[Os ACTORES, satisfeitos, aprovam e aplaudem o DIRECTOR.]
PAI (interrompendo incisivo e com ímpeto): Aí está! É isso mesmo! Pessoas vivas, mais vivas que as que respiram e usam roupas: menos reais, talvez, mas mais verdadeiras! Aí estamos de acordo.
[Os ACTORES, siderados, trocam olhares.]
DIRECTOR: Como? Então há bocado estava a dizer…
PAI: Não, senhor, permita-me: disse-lhe isso a si ao replicar-nos que não tinha tempo a perder com loucos, quando ninguém sabe melhor que o senhor que a natureza serve como um instrumento da imaginação humana a fim de perseguir a criação num plano mais elevado.
DIRECTOR: Seja. Mas aonde é que isso tudo nos leva?
PAI: A lado nenhum. Somente quero demonstrar-lhe que nascemos para a vida de muitas maneiras e de muitas formas:
como árvore ou pedra, como água, borboleta… ou como humano. Ou ainda até como personagem!»

Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello
(trad. Daniel Jonas)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Júlio César, de William Shakespeare

«CÁSSIO: Quem está aí?
CASCA: Um romano.
CÁSSIO: Casca, pela voz.
CASCA: Tens bom ouvido, Cássio. Que noite!
CÁSSIO: Noite boa para os homens de bem.
CASCA: Quem já viu nos céus tal ameaça?
CÁSSIO: Os que vêem a terra tão cheia de delitos.
Quanto a mim, calcorreei as ruas,
Sujeitando-me aos perigos da noite,
E, desabotoado, Casca, como vês,
Expus o peito ao fogo da tormenta;
E quando o risco azul do raio parecia abrir
O seio ao firmamento, eu próprio me oferecia
Como alvo à sua chama.
CASCA: Mas para que tentaste assim os céus?
Devem os homens temer e tremer
Quando os mais poderosos deuses nos mandam,
Como sinais, estes terríveis arautos para nos apavorar.
CÁSSIO: És obtuso, Casca, e não tens
A centelha de vida que deve haver num romano,
Ou não a queres usar. Pareces pálido e pasmado,
Vestes-te de medo e cobres-te de assombro,
Ao veres a estranha impaciência do céu.Mas se pensares na verdadeira causa
De todos estes raios, no porquê destes fantasmas errantes,
Por que pássaros e animais mudam a sua qualidade e
natureza,
Por que velhos, loucos e crianças fazem profecias,
Por que todas estas coisas se desviam da ordem natural,
Mudando as suas inatas faculdades
Em qualidades disformes, então perceberás
Que o céu lhes infundiu esses espíritos
Para os mudar em instrumentos de medo e de presságio
De alguma monstruosa situação.
Agora, Casca, podia nomear-te um homem
Semelhante a esta noite assustadora,
Que troveja, relampeja, abre túmulos,
E ruge como o leão no Capitólio;
Um homem não mais forte do que tu
Ou eu na sua acção, mas que se tornou tão prodigioso
E tão temível como estes estranhos sucessos.

CASCA: É de César que falas, não é, Cássio?»

William Shakespeare
(trad. José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto e Luís Miguel Cintra)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

À Espera de Godot, de Samuel Beckett


«VLADIMIR: Lembras-te da história?
ESTRAGON: Não.
VLADIMIR: Queres que ta conte?
ESTRAGON: Não.
VLADIMIR: Ajuda a passar o tempo (Pausa). Eram dois ladrões que foram crucificados ao mesmo tempo que o nosso Salvador. Um deles -
ESTRAGON: O nosso quê?
VLADIMIR: O nosso Salvador. Dois ladrões. Dizem que um foi salvo e que o outro foi... (procura o contrário de "salvo")... condenado.
ESTRAGON: Foi salvo de quê?
VLADIMIR: Do inferno.
ESTRAGON: Vou-me embora.
(Não se mexe)
VLADIMIR: E no entanto... (Pausa.) Como é que - espero não te estar a aborrecer - como é que, dos quatro evangelistas, apenas um fala do ladrão que foi salvo. Estiveram lá todos - ou pelo menos não andaram longe - e só um deles fala de um ladrão que foi salvo. (Pausa.) Então, Gogo, de vez em quando podias dizer qualquer coisa.
ESTRAGON: (com um entusiasmo exagerado) Isso é extraordinariamente interessante.
VLADIMIR: Um em quatro. Dos outros três, dois deles nem sequer falam de ladrões e o terceiro diz que os dois o insultaram.
ESTRAGON: Quem?
VLADIMIR: O quê?
ESTRAGON: O que é que estás para aí a dizer? (Pausa) Insultaram quem?
VLADIMIR: O Salvador.
ESTRAGON: Porquê?
VLADIMIR: Porque ele não os queria salvar.
ESTRAGON: Do inferno?
VLADIMIR: Não, estúpido! Da morte.
ESTRAGON: Pensava que tinhas dito do inferno.
VLADIMIR: Da morte, da morte.
ESTRAGON: Então e depois?
VLADIMIR: Então devem ter sido os dois condenados.
ESTRAGON: E porque não?
VLADIMIR: Mas um dos quatro diz que um dos dois foi salvo.
ESTRAGON: E depois? Não estão de acordo, paciência.
VLADIMIR: Mas estiveram lá os quatro. E só um deles é que fala de um ladrão que foi salvo. Porque é que devemos acreditar mais nesse do que nos outros?
ESTRAGON: Quem é que acredita nesse?
VLADIMIR: Toda a gente. Só se conhece essa versão.
ESTRAGON: As pessoas são mesmo umas ignorantes de merda.
(Levanta-se a custo, coxeia até à esquerda, pára, olha para longe com a mão na testa a proteger os olhos, vira-se, vai à direita, olha para longe. Vladimir segue-o com o olhar, depois pega na bota, olha para dentro, larga-a precipitadamente.
VLADIMIR: Bah!
(Cospe. Estragon vai ao centro da cena e fica de costas para a plateia.)
ESTRAGON: Que sítio encantador. (Vira-se, vai até à boca de cena, olha para o público.) Perspectivas animadoras. (Vira-se para Vladimir.) Vamos embora.
VLADIMIR: Não podemos.
ESTRAGON: Porquê?
VLADIMIR: Estamos à espera do Godot.»

Samuel Beckett
(tradução de José Maria Vieira Mendes)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

No Alvo, de Thomas Bernhard

«MÃE: Muito interessante
Você escreve embora saiba
com isso que não pode mudar a sociedade
ESCRITOR: Sim
Nenhum escritor alguma vez
modificou a sociedade
MÃE: Isso está provado
ESCRITOR: Isso está provado
Nós apenas temos provas para o fracasso
dos escritores
Todos os escritores falharam
Houve sempre apenas escritores falhados
MÃE: E Shakespeare
ESCRITOR: Shakespeare também
mas eu disse todos
partem todos do princípio
de que falham
quando têm algum valor
Só os estúpidos os medíocres
nunca pensaram nisso
Pensar em falhar
é o pensamento essencial
MÃE (para a filha): Isto é tudo muito absurdo
não achas
Está tudo em aberto e tudo falha
porque tem de falhar»

No Alvo, de Thomas Bernhard
(trad. Anabela Mendes)