quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Um Homem Célebre, de Machado de Assis

SINGULAR OCORRÊNCIA

«— Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.
— De preto?
— Justamente; lá vai entrando; entrou.
— Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua recordação de outro tempo, e não há de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.
— Deve ter quarenta e seis anos.
— Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?
— Não.
— Bem; o marido ainda vive. É velho?
— Não é casada.
— Solteira?
— Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.
— Por exemplo, ao senhor.
— Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis anos, meio advogado, meio político, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, donde viera em 1859. Era bonita a mulher dele, afetuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois anos.
— Apesar disso, a Marocas…?
— É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa, conto-lhe uma coisa interessante.
— Diga.
— A primeira vez que ele a encontrou, foi à porta da loja Paula Brito, no Rocio. Estava ali, viu a distância uma mulher bonita, e esperou, já alvoroçado, porque ele tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o número ali escrito. Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provável da casa. Ela cortejou com muita graça; ele ficou sem saber o que pensasse da pergunta.
— Como eu estou.
— Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Ele não chegou a suspeitá-lo. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estátua nem jardim, e ir à casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao Ginásio; dava-se a Dama das Camélias; Marocas estava lá, e, no último ato, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sozinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra afeição, não cogitando de nenhum outro interesse.
— Como a Dama das Camélias.»

"Um Homem Célebre - antologia de contos", de Machado de Assis
(Curso Breve de Literatura Brasileira)

............................................................................
«O gosto da história breve é perfeitamente visível nos romances de Machado, todos eles, a partir das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", recheados de episódios demarcados do enredo principal, a ponto de quase se autonomizarem; são, porém, introduzidos pela forma livre da composição romanesca, através de procedimentos de digressão que arrastam inevitavelmente o problema da integração no todo. A forma breve do conto impede o trânsito para outra forma mais ampla, ou talvez melhor, circunscreve-o a limites estreitos. Como todos os grandes contistas, Machado inscreve na particularidade do conto uma teoria implícita da forma, como se esta incluísse necessariamente a própria justificação e ao mesmo tempo a fizesse sempre precária. Nunca adquirida, por isso reiterável: cada conto desdobra-se para contar a história — sempre a mesma, mas sempre outra — do seu aparecimento, da sua razão de ser, da sua finalidade.»

in "A emenda de Séneca", posfácio de Abel Barros Baptista

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A menina morta, de Cornélio Penna

«— Não, Dona Frau, vancê não pode costurar mais êsse babado no vestido, neste vestido — disse a velha negra, que acentuou bem as duas últimas palavras enquanto erguia as mãos, no gesto das Verônicas das procissões, agarradas ao corpinho de brocado branco entretecido de prata, em desenhos de flôres de sonho, de contornos vagos.
Estavam na sala de costura da fazenda de altas paredes caiadas onde se encostavam dois armários de jacarandá escuro, bojudos, e cujas portas entre colunas tinham sido escancaradas. Via-se bem o seu interior onde se amontoavam peças de linho, de sêda, de merinó e de cassa da Índia pousadas em prateleiras sucessivas até bem no alto e, lá em cima, as plumas e flôres artificiais deixavam ver suas côres delicadas. Sôbre a cadeira estavam já prontas a pequena camisa decotada, as meias de sêda branca e os borzeguins feitos a mão, destinados à menina morta.
A senhora de meia idade a quem chamavam “dona frau” devia ser alemã pela côr dos olhos e da pele, mas vestia-se tal como as fazendeiras brasileiras o faziam e trazia enfiada nos cabelos certa agulha muito grossa e longa. Considerou com grave atenção a roupa posta diante dela pela escrava e reconheceu tristemente ter esquecido de não se tratar de vestuário de gala destinado a figurar nas reuniões da Côrte longínqua, apenas entrevista quando de sua vinda da Europa para “as Américas”. Aquêle pesado estofo de pregas duras não iria revestir o corpinho quente e agitado da criança que recebera com tanto carinho e crescera tão diferente da imperiosa e morena selvagem imaginada por ela…
Era simples mortalha que confecionava ajudada pela mucama de dentro cujo gôsto e bom-senso ela confessava em seu íntimo sem nunca deixar transparecer, pois era perpétuo absurdo aquela criatura disforme, côr de chocolate, com enormes olhos coruscantes, ora acesos ora apagados, iguais aos das aves domésticas, ter critério e tato para saber o que ficava melhor e mais elegante nos trajes confecionados por elas, para pessoas tão diferentes. Teve de admitir não ser possível ajuntar mais o folho por ela pretendido à saia redonda encomendada pela Senhora. Reviu com nitidez o rosto da dona da fazenda, impassível, quase sem mover os lábios, ao lhe dizer que fizesse o vestido com manguinhas de quitute e a saia curta.»

"A menina morta", de Cornélio Penna
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
............................................................................

«(...) a excelente qualidade dum romance como "A menina morta" de Cornélio Penna assenta na espessa corrente de mal-estar que antes de tudo produz no seu leitor, qualquer seja a solicitação — estética, cultural, antropológica, crítica — que o mova na densa rede duma escrita exigente, que instiga um corpo a corpo extremado com a sua inteligência.»
Posfácio de Roberto Vecchi, "Autópsia da Casa-Grande"

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Laços de Família, de Clarice Lispector

O JANTAR
«Ele entrou tarde no restaurante. Certamente ocupara-se até agora em grandes negócios. Poderia ter uns sessenta anos, era alto, corpulento, de cabelos brancos, sobrancelhas espessas e mãos potentes. Num dedo o anel de sua força. Sentou-se amplo e sólido.
Perdi-o de vista e enquanto comia observei de novo a mulher magra de chapéu. Ela ria com a boca cheia e rebrilhava os olhos escuros.
No momento em que eu levava o garfo à boca, olhei-o. Ei-lo de olhos fechados mastigando pão com vigor e mecanismo, os dois punhos cerrados sobre a mesa. Continuei comendo e olhando. O garçom dispunha os pratos sobre a toalha. Mas o velho mantinha os olhos fechados. A um gesto mais vivo do criado ele os abriu com tal brusquidão que este mesmo movimento se comunicou às grandes mãos e um garfo caiu. O garçom sussurrou palavras amáveis abaixando-se para apanhá-lo; ele não respondia. Porque agora desperto, virava subitamente a carne de um lado e de outro, examinava-a com veemência, a ponta da língua aparecendo — apalpava o bife com as costas do garfo, quase o cheirava, mexendo a boca de antemão. E começava a cortá-lo com um movimento inútil de vigor de todo o corpo. Em breve levava um pedaço a certa altura do rosto e, como se tivesse que apanhá-lo em vôo, abocanhou-o num arrebatamento de cabeça. Olhei para o meu prato. Quando fitei-o de novo, ele estava em plena glória do jantar, mastigando de boca aberta, passando a língua pelos dentes, com o olhar fixo na luz do teto. Eu já ia cortar a carne de novo, quando o vi parar inteiramente.
E exatamente como se não suportasse mais — o quê? — pega rápido no guardanapo e comprime as órbitas dos olhos com as mãos cabeludas. Parei em guarda. Seu corpo respirava com dificuldade, crescia. Tira afinal o guardanapo da vista e olha entorpecido de muito longe. Respira abrindo e fechando desmesuradamente as pálpebras, limpa os olhos com cuidado e
mastiga devagar o resto de comida ainda na boca.»

in "Laços de Família", de Clarice Lispector
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
___________________________________________
«As cenas à mesa permitem tratar uma das mais importantes tensões dialécticas presentes na obra de Clarice: a natureza e a convenção, o instintivo e o racionalmente imposto. De um lado, o instinto de devoração, que se consubstancia na voracidade, do outro, a regra, a conveniência.»
Posfácio de Carlos Mendes de Sousa, "A íntima desordem dos dias"

_______________
* Carlos Mendes de Sousa é autor do mais completo estudo até hoje realizado sobre a obra de Clarice Lispector - "Figuras da Escrita" -, contemplado com o Grande Prémio de Ensaio da APE, em 2000, e publicado no Brasil pelo Instituto Moreira Salles.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Teatro Desagradável, de Nelson Rodrigues

TODA A NUDEZ SERÁ CASTIGADA

«HERCULANO
O que é que uma prostituta pode me dar?
PATRÍCIO
É simples, tão simples! Pode te dar (vivamente) num sorriso, numa palavra, num gesto, sei lá. Pronto: relação humana. Você, Herculano, está aí nessa dor burra. Isso não é nem viril. Você sofre, muito bem. E daí? Uma dor idiota que não conduz a nada.
HERCULANO (taciturno)
Sofro pouco. Devia sofrer mais.
PATRÍCIO
Você quer morrer?
HERCULANO (triunfante)
Agora você disse tudo. Morrer. Só não meto uma bala na cabeça — por causa do meu filho. Só. (começa a chorar) Eu devia estar enterrado com a minha mulher.
PATRÍCIO
Ou você não percebe que essa inércia é uma degradação?
HERCULANO (desatinado)
O que é que você entende de degradação? Você que.
(Herculano agarra Patrício pela gola do paletó.)
PATRÍCIO
Olha! Faz alguma coisa! Ao menos, bebe! Bebe, pronto!
HERCULANO (atônito)
Foi por isso que você trouxe essa garrafa?
PATRÍCIO (exultante)
Toma um porre! Você está cheirando mal, apodrecendo!
HERCULANO (num crescendo)
Beber? Ah, você quer que eu beba? Sabendo que eu não posso tocar em álcool? Eu só bebi uma vez, aquela vez. Você viu como eu fiquei. (agarra o irmão pela gola do paletó) Bêbado, eu posso ser assassino, incestuoso. Agora você vai dizer, na minha cara — vai dizer se gosta de mim! (os dois irmãos estão cara a cara)
PATRÍCIO
Estou querendo te salvar.
HERCULANO
Ou é ódio?
PATRÍCIO
Pena!»

Nelson Rodrigues in "Teatro Desagradável"
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
__________________________________________
«A obsessão pela morte é um delírio alimentado pelo desejo. Ninguém escapa. (...) Moral e perversão se confundem. Sexo e morte andam de mãos dadas. E o humor de Nelson Rodrigues vem da disparidade entre o que dizem, sentem e fazem os personagens. Porque, por mais que falem, estão condenados a sentir e a fazer o que condenam da boca para fora.»
Bernardo Carvalho, no texto de apresentação da obra

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos

UM HOMEM SEM ABISMOS

«Encontrei Florêncio, ao sair da Secretaria, e passamos a tarde juntos. Onde está Florêncio, está o chope, e não preciso dizer que entramos em águas. Anotação para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo. Não é que tenha procurado embriagar-me. Só nos tempos de república isso me aconteceu algumas vezes, em companhia de alegres estudantes.
É que Florêncio, achando-me disposto, foi, sorrateiramente, renovando-me os copos. Entretanto, fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende, não da quantidade de álcool ingerida, mas do estado de espírito sob que a ingerimos.
Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. Está sempre provido das melhores e mais recentes. Excelente e repousante amigo. Não tem problemas: é o homem sem abismos — o homem linear — na expressão do Silviano. Às vezes penso que, dos poucos amigos descobertos, no decurso destes magros trinta e oito anos, só ele me restará, afinal. Redelvim, o fiel companheiro, deixa-me pelas idéias. Silviano é uma criatura complicada, com quem a gente não pode contar sempre. Se às vezes nos compreende, outras vezes se mostra impermeável; vive nos seus “altiplanos”. Glicério não passa de uma criança. Pertence a outra geração, e as gerações não se entendem; as preocupações são outras, e outra é a compreensão das coisas.
Jandira, por mais que seja masculina a nossa amizade, não é senão mulher, e a mulher é vária, conforme ensina a ópera.
Além disso, pode ser que se case, e era uma vez a amiga.
Quando se casam, só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. No que, aliás, fazem muito bem.
Talvez só me fique o Florêncio. E a bebida pode levá-lo cedo. 
Se eu me casasse… Ora, aí vem tolice. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925, e está num cemiteriozinho branco, no Largo do Cruzeiro, em Vila Caraíbas. Por que te deixei, Camila? Na verdade, eu te amava. O que amo nessa Carmélia, que não atinjo, é, talvez, apenas a tua imagem.»


in "O amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
..........................................................................

«Do ponto de vista da fortuna crítica, pode-se dizer que o livro não passou desapercebido, sendo objeto de análises pontuais, embora não de grande fôlego, de críticos brasileiros conhecidos: Antonio Candido, por exemplo, destaca o diálogo que o texto estabelece entre lirismo e análise, bem como a sua filiação machadiana. Considera que a “visão dramática da vida”, que seria propriamente machadiana, soma-se, n’O amanuense Belmiro, a um “maravilhoso sentido poético das coisas”.»
Alcir Pécora, no posfácio à obra

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A educação pela pedra, de João Cabral de Melo Neto

OS VAZIOS DO HOMEM

«Os vazios do homem não sentem ao nada
do vazio qualquer: do do casaco vazio,
do da saca vazia (que não ficam de pé
quando vazios, ou o homem com vazios);
os vazios do homem sentem a um cheio
de uma coisa que inchasse já inchada;
ou ao que deve sentir, quando cheia,
uma saca: todavia, não qualquer saca.
Os vazios do homem, esse vazio cheio,
não sentem ao que uma saca de tijolos,
uma saca de rebites; nem têm o pulso
que bate numa de sementes, de ovos.
2.
Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:
o que a esponja, vazia quando plena;
incham do que a esponja, de ar vazio,
e dela copiam certamente a estrutura:
toda em grutas ou em gotas de vazio,
postas em cachos de bolha, de não-uva.
Esse cheio vazio sente ao que uma saca
mas cheia de esponjas cheias de vazio;
os vazios do homem ou o vazio inchado:
ou o vazio que inchou por estar vazio.»

in "A educação pela pedra", de João Cabral de Melo Neto
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
.................................................................................
«A educação pela pedra é um dos mais singulares livros de poesia escritos em língua portuguesa. A crítica assinalou, desde o primeiro momento, a densidade e o grau de exigência de um texto que suscita atenção minuciosa e pede uma leitura lenta. Em 1966, o ano da publicação, Óscar Lopes, numa recensão que publica no jornal Comércio do Porto, faz justiça à superior mestria do artefacto verbal, sublinhando a dimensão reflexiva: “A educação pela pedra é, quase poema a poema, uma obra-prima de meditação profunda e inesgotável” (10 de Dezembro).»
Carlos Mendes de Sousa, no posfácio "Dar a ver o poema"

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

São Cosme e São Damião, de Rubem Braga

SÃO COSME E SÃO DAMIÃO
«Escrevo no dia dos meninos. Se eu fosse escolher santos, escolheria sem dúvida nenhuma São Cosme e São Damião, que morreram decapitados já homens feitos, mas sempre são representados como dois meninos, dois gêmeos de ar bobinho, na cerâmica ingênua dos santeiros do povo.
São Cosme e São Damião passaram o dia de hoje visitando os meninos que estão com febre e dor no corpo e na cabeça por causa da asiática, e deram muitos doces e balas aos meninos sãos. E diante deles sentimos vontade de ser bons meninos e também de ser meninos bons. E rezar uma oração.
“São Cosme e São Damião, protegei os meninos do Brasil, todos os meninos e meninas do Brasil.
Protegei os meninos ricos, pois toda a riqueza não impede que eles possam ficar doentes ou tristes, ou viver coisas tristes, ou ouvir ou ver coisas ruins.
Protegei os meninos dos casais que se separam e sofrem com isso, e protegei os meninos dos casais que não se separam e se dizem coisas amargas e fazem coisas que os meninos vêem, ouvem, sentem.
Protegei os filhos dos homens bêbados e estúpidos, e também as meninas das mães histéricas ou ruins.
Protegei o menino mimado a quem os mimos podem fazer mal e protegei os órfãos, os filhos sem pai, e os enjeitados.
Protegei o menino que estuda e o menino que trabalha, e protegei o menino que é apenas moleque de rua e só sabe pedir esmola e furtar.
Protegei ó São Cosme e São Damião! — protegei os meninos protegidos pelos asilos e orfanatos, e que aprendem a rezar e obedecer e andar na fila e ser humildes, e os meninos protegidos pelo SAM, ah! São Cosme e São Damião, protegei muito os pobres meninos protegidos!
E protegei sobretudo os meninos pobres dos morros e dos mocambos, os tristes meninos da cidade e os meninos amarelos e barrigudinhos da roça, protegei suas canelinhas finas, suas cabecinhas sujas, seus pés que podem pisar em cobra e seus olhos que podem pegar tracoma — e afastai de todo perigo e de toda maldade os meninos do Brasil, os louros e os escurinhos, todos os milhões de meninos deste grande e pobre e abandonado meninão triste que é o nosso Brasil, ó Glorioso São Cosme, Glorioso São Damião!”»

Rubem Braga, in "Conversa de burros, banhos de mar e outras crónicas exemplares"
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
________________________________
«Rubem Braga, apesar de apenas dever a fama às suas crónicas, está consciente dos limites do género: “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento.” Para muitos, porém, ele encarna o que o género tem de melhor. Homem de esquerda, de extensa e variada vida pública, ele sempre, sem ignorar as injustiças sociais, procura uma nota mais íntima e menos “engajada”, como se vê muito claramente em “São Cosme e São Damião”, prece por “todos meninos e meninas do Brasil”, inclusive os ricos.
A sua crónica talvez seja a mais difícil de definir e, ao mesmo tempo, a que melhor define o que é uma crónica (...).»
John Gledson, no texto de apresentação da antologia por si organizada

terça-feira, 15 de setembro de 2015

S. Bernardo, de Graciliano Ramos

«Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difíceis. E quando os amigos deixaram de vir discutir política, isto se tornou insuportável.
Foi aí que me surgiu a idéia esquisita de, com o auxílio de pessoas mais entendidas que eu, compor esta história. A idéia gorou, o que já declarei. Há cerca de quatro meses, porém, enquanto escrevia a certo sujeito de Minas, recusando um negócio confuso de porcos e gado zebu, ouvi um grito de coruja e sobressaltei-me.
Era necessário mandar no dia seguinte Marciano ao forro da igreja.
De repente voltou-me a idéia de construir o livro. Assinei a carta ao homem dos porcos e, depois de vacilar um instante, porque nem sabia começar a tarefa, redigi um capítulo.
Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, à hora em que os grilos cantam e a folhagem das laranjeiras se tinge de preto.
Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me ajeito com esta ocupação nova.
Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto.
Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos mil-réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma.
O que estou é velho. Cinqüenta anos pelo S. Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada.»

S. Bernardo, Graciliano Ramos
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)
___________________________________________
«A opção pelo narrador sem autoridade, e sem autoridade precisamente porque se trata de uma personagem autoritária, que se define antes do mais pela procura do domínio, pelo exercício do poder e da autoridade, eis onde reside o cerne da originalidade de S. Bernardo.»
Posfácio de Abel Barros Baptista, "O piu da coruja"

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Os ratos, de Dyonelio Machado



«Depois de uma trégua, os ratos voltaram a roer, a roer... Outra vez naquele canto do assoalho de comedouro o triturar fininho de madeira roída (decerto é a madeira). Talvez depois de consumido o dinheiro, eles passem a roer, a roer a tábua da mesa... Presta atenção. Alonga o ouvido. Espera ouvir o crepitar miudinho das mandíbulas, vindo lá do fundo, de longe...O seu ouvido pega mil ruidozinhos de novo, capta outra vez aquele chiado, o tinir do malho na bigorna...


Tudo se vai agora confundindo nos seus ouvidos. Só individualizado, independente, o roer, o roer da tábua do assoalho...
Quem sabe se será mesmo do soalho, do soalho da varanda!... Talvez não seja. Deitado, àquela hora, no meio daquele chiado, o ouvido confunde as distâncias... Quer "localizar" exatamente. É a sua tarefa, a grande questão desse instante. Procura afastar o chiado incômodo. Mas ele se avolumou, tomou conta outra vez do quarto, e novamente aquela esfera, aquela bola... Está tão perto dos seus ouvidos, que ele quase que o sente com o tato. Entretanto, precisa eliminá-lo, precisa isolar apenas o roer do rato na madeira... (...)
Põe outra vez o ouvido no ar: vê se pega de novo o ruído do rato. Parecera-lhe surdo, meio redondo, abafado pela espessura da madeira...
Está exausto... Tem uma vontade de se entregar, naquela luta que vem sustentando, sustentando... Quereria dormir...»

Os ratos, Dyonelio Machado
_____________________________________
«(...) Os Ratos continuam até hoje, no nosso presente longínquo e desgarrado, a colocar-nos frente a frente com uma situação inquietante de alheamento e desespero, na qual ainda nos podemos espelhar, condenados, também nós, ao ratage, ao jogo incerto e invencível da vida – presos, enfim, na ratoeira sem saída da nossa humana condição.»
"Ratage - O 'trivial dramático' em Os ratos", posfácio à obra, por Ettore Finazzi-Agrò
(Colecção Curso Breve de Literatura Brasileira)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Força Humana, de Rubem Fonseca

A FORÇA HUMANA
«Eu queria seguir em frente mas não podia. Ficava parado no meio daquele monte de crioulos—uns balançando o pé, ou a cabeça, outros mexendo os braços; mas alguns, como eu, duros como um pau, fingindo que não estavam ali, disfarçando que olhavam um disco na vitrina, envergonhados. É engraçado, um sujeito como eu sentir vergonha de ficar ouvindo música na porta da loja de discos. Se tocam alto é pras pessoas ouvirem; e se não gostassem da gente ficar ali ouvindo era só desligar e pronto: todo mundo desguiava logo. Além disso, só tocam música legal, daquelas que você 'tem' que ficar ouvindo e que faz mulher boa andar diferente, como cavalo do Exército na frente da banda.

A questão é que passei a ir lá todos os dias. Às vezes eu estava na janela da academia do João, no intervalo de um exercício, e lá de cima via o montinho na porta da loja e não agüentava—me vestia correndo, enquanto o João perguntava, “aonde é que você vai, rapaz? você ainda não terminou o agachamento”, e ia direto para lá. O João ficava maluco com esse troço, pois tinha cismado que ia me preparar para o concurso do melhor físico do ano e queria que eu malhasse quatro horas por dia e eu parava no meio e ia para a calçada ouvir música. “Você está maluco”, dizia, “assim não é possível, eu acabo me enchendo com você, está pensando que eu sou palhaço?”
Ele tinha razão, fui pensando nesse dia, reparte comigo a comida que recebe de casa, me dá vitaminas que a mulher que é enfermeira arranja, aumentou meu ordenado de auxiliar de instrutor de alunos só para que eu não vendesse mais sangue e pudesse me dedicar aos exercícios, puxa!, quanta coisa, e eu não reconhecia e ainda mentia para ele; podia dizer para ele não me dar mais dinheiro, dizer a verdade, que a Leninha dava para mim tudo que eu queria, que eu podia até comer em restaurante, se quisesse, era só dizer para ela: quero mais.»

Rubem Fonseca in "Lembrancas do presente - o conto contemporâneo", colecção Curso Breve de Literatura Brasileira
______________________________________

«Rubem Fonseca constrói, com paradoxal elegância, com corte rigoroso da frase, uma imagem de mundo irremediavelmente ordinária e perversa. O relato alheado e frio deixa transparecer um tremendo esforço de contenção do pesar, da dor da inadaptação à vida. Tanto maior a frieza da narrativa, tanto mais evidencia a catástrofe, o desastre, a degradação. (...) 
Pode-se dizer também que Rubem Fonseca tornou-se mestre em obter o efeito de um qualquer lirismo que, entretanto, só existe quando gerado em concomitância com o sórdido.»

Alcir Pécora, no texto de apresentação da antologia

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Jesus sem milagres

Frederico Lourenço

Página da "Jefferson Bible"
No final da sua vida, um antigo presidente dos Estados Unidos da América dedicou-se afincadamente ao estudo da vida de Jesus, tal como ela é relatada pelos quatro evangelistas. Feita uma reflexão aprofundada sobre os evangelhos, o antigo presidente pegou numa navalha bem afiada e pôs-se a retalhar as páginas da sua edição da “King James Bible”. Cortou dos evangelhos tudo aquilo que ele pensava ser relevante para o conhecimento de Jesus; depois colou, juntou, e remontou os pedaços de papel: e assim obteve um texto dos evangelhos com que ele podia concordar. De fora, ficava tudo aquilo que, na leitura dele, não passava de fantasia, de superstição, de mentira. De fora ficavam todos os milagres alegadamente praticados por Jesus e a ressurreição daquele que, na opinião de Jefferson, nunca quisera apresentar-se como filho de Deus.
Cristo caminhando sobre as águas, na imaginação do pintor italiano Tintoretto
Ora no entender de Thomas Jefferson (o terceiro presidente dos EUA, cuja efígie se encontra na nota de 2 dólares), os evangelistas eram praticamente uns analfabetos, que, não obstante relatarem muitas palavras autênticas de Jesus, encheram também os evangelhos de ficções supersticiosas e ridículas, como a virgindade de Maria (que Jefferson achava ser tão provável quanto o nascimento da deusa grega Atena da cabeça de Zeus), os milagres e exorcismos de Jesus e a ressurreição. A versão que, com navalha e tesoura, Jefferson compôs dos evangelhos termina com Jesus a ser sepultado.
Para Jefferson, a mensagem de Jesus era essencialmente filosófica e, dentro da filosofia, era uma mensagem que tratava acima de tudo de assuntos de Ética. Por isso ele chamou à primeira versão do seu Novo Testamento feito com tesoura e navalha “The Philosophy of Jesus of Nazareth”. Uma segunda versão recebeu o título mais explícito “The Life and Morals of Jesus of Nazareth”.
O que fica do testemunho de Jesus se lermos os evangelhos na versão de Thomas Jefferson? Um Jesus que não caminha sobre a água, que não pratica a multiplicação dos pães, que não cura cegos, paralíticos e leprosos e que não expulsa “demónios” é um Jesus que nos diz alguma coisa? Um Jesus que não ressuscita Lázaro dos mortos e que não subiu ao céu no terceiro dia após a sua morte ainda nos pode falar à distância de dois mil anos? A versão de Thomas Jefferson dá-nos uma resposta clara a estas perguntas. É uma resposta simples: sim.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Tempestade, de William Shakespeare

«MIRANDA
Se por vossa arte, querido pai, pusestes
Neste alvoroço as bravas águas, acalmai-as,
Por favor. O céu parecia querer derramar
Fétido breu, se o mar, subindo à sua face
Enevoada, não lhe apagasse o fogo.
Ai, o que eu sofri com os que eu vi sofrer!
Um tão soberbo barco, tendo certamente
Nobre gente a bordo, desfeito em pedaços.
Ai, como aqueles gritos me feriam o coração!
E morreram essas pobres almas.
Fora eu um poderoso deus,
E faria que o mar na terra se afogasse,
Antes que engolisse a bela nau,
E com ela a carga de tantas almas.
PRÓSPERO
Sossega. Não te assombres mais.
Diz a teu condoído coração
Que não houve dano algum.
MIRANDA
Oh, que triste dia!
PRÓSPERO
Não houve dano. Tudo o que fiz,
Fi-lo só cuidando em ti, em ti,
Minha querida, em ti, ó minha filha,
Que ignoras quem és, e não sabes
De onde eu venho, nem que sou melhor
Que Próspero, senhor de uma pobre gruta,
E teu humilde pai.
MIRANDA
Para saber mais
Nunca eu sondei meus pensamentos.
PRÓSPERO
Chegou a altura de mais te revelar.
Ajuda-me a tirar o manto mágico.
(Miranda ajuda-o a despir-se.)
Isso. Repousa aí, minha magia.
Seca as tuas lágrimas: serena.
O terrível espectáculo do naufrágio,
Que em ti moveu a mais profunda compaixão,
De tal modo o concebi por minha arte,
Que nenhuma alma—sim –
Nem um cabelo sequer, se perdeu
Das criaturas que no barco ouviste gritar
E que tu viste afogar-se. Senta-te,
Pois agora vais ter que saber mais.»

(trad. José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto e Luis Miguel Cintra)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Políticas culturais: o que não se diz é mais importante do que os anúncios

António Pinto Ribeiro

Numa análise dos programas dos partidos políticos com vocação parlamentar ou executiva torna-se evidente que, para estes, o Estado tem interesse e legitimidade em intervir naquilo que consensualmente se designa como "cultura", embora o termo em si tenha um significado tão flutuante que pode integrar as maiores contradições.
Não é por isso de estranhar que na redacção destes textos se apresente a estrutura do Ministério dos Assuntos Culturais seguindo o modelo criado em França por André Malraux no pós-guerra, assumido pela maioria dos Estados europeus, sul-americanos, africanos e canadiano, com diferenciações importantes no universo anglófono e contrastando em muito com o americano e em parte com o asiático.
Esta estrutura comum não obsta a que não haja divergências nas propostas programáticas, nomeadamente no que separa os partidos de esquerda e de direita. Durante anos a direita sobrevalorizou o património contra a arte contemporânea, que, por sua vez, era prioritária nas políticas de esquerda. Esta oposição, aparentemente muito simplificada, sempre existiu e, embora hoje pareça diluir-se, ainda subsiste no modo de uso.
Os partidos de direita esperam do património uma rentabilização, usam-no para propaganda nacionalista e em relação à arte contemporânea privilegiam o decorativo, rondando muitas vezes o kitsch; a esquerda, como podemos ver na generalidade dos partidos portugueses, tem uma visão do património como uma herança contraditória e encara a arte contemporânea como um modo de conhecimento crítico. Também é um facto que dentro desta divisão há por vezes comportamentos inesperados.
No entanto, a nítida divisão entre a esquerda e a direita pode ser confirmada pela prática dos governos de direita. A forma como os últimos pretendem alienar a gestão pública, atirando-a para a responsabilidade do mecenato, ou como "terceirizam" a gestão de palácios e outros monumentos rentáveis são exemplos. Subjacente a esta decisão está uma visão da actividade cultural como maioritariamente de entretenimento e de lucro. Oposta a esta visão, a esquerda considera fundamental a dimensão pública das actividades culturais e artísticas associadas ao desenvolvimento de mecanismos de literacias várias.

Se o Estado pode e deve intervir na cultura, é bom ter consciência de que, ao fazê-lo, cria sempre mecanismos e dispositivos de controlo, tanto mais quanto mais se lhe atribuir o estatuto de uma função reguladora justa. Essa é a herança dos Estados modernos, mesmo dos mais democráticos. Cabe pois aos governos de esquerda a consciencialização deste facto e a defesa de uma ecologia das políticas culturais quando intervêm através das suas organizações. Para tanto é um pressuposto fundamental assumir que uma política cultural é uma política de mediação, sendo o seu destinatário as pessoas. E para tanto deve ser considerado:
a) falar do cultural como um sistema de relações entre pessoas através das obras, e não de cultura;
b) deixar de identificar política cultural com política das artes – os artistas não são os principais destinatários das políticas culturais (tal atitude acaba por guetizar as próprias artes);
c) assumir a política cultural como uma forma de contribuir para a produção e transmissão de conhecimentos, embora estes tenham formas mais simbólicas do que pragmáticas.
Uma avaliação dos programas de política cultural anunciados passa por critérios simples: coerência com todo o programa de governo, prática anterior de governação, credibilidade dos seus protagonistas e linguagem utilizada.
No que diz respeito ao programa apresentado pela coligação PSD-CDS, ele é coerente com o restante programa na sua prolixidade – uma lista infinita de anúncios, muitos dos quais relativos a medidas que, iniciadas por governos anteriores, ou foram por esta coligação extintas ou aparecem de uma forma desconexa. A prática anterior desta coligação extinguiu o Ministério da Cultura – com todo o impacto negativo em termos simbólicos e de perda de peso político – e colocou a governação da cultura nas mãos de um secretário do primeiro-ministro para a Cultura, em qualquer dos casos, impreparados até para esta função. Esta, aliás, é a terceira avaliação negativa do programa que decorre de não se ver na coligação na actualidade protagonistas preparados para tais funções. A lista apresentada tem contornos populistas, porque, apesar da incoerência dos anúncios, destina-se a um universo de auditores que é o universo das práticas culturais tido como maioritariamente à esquerda, com o propósito de angariação de votos. A linguagem utilizada, pretensamente moderna – há uma espécie de camp provindo do contributo do CDS –, é de contornos nacionalistas e o “economês” é a sua semântica.
No que diz respeito ao conjunto dos partidos de esquerda com programas ou pessoas com experiência parlamentar ou executiva, há aspectos comuns que estabelecem pontos programáticos, havendo também, contudo, diversidades decorrentes das histórias dos respectivos partidos, da análise do cultural, das expectativas de governação nesta área e do carácter mais reivindicativo ou mais proactivos dos mesmos. E aqui a linguagem estabelece as grandes diferenças.
A todos os partidos e coligações – Livre/Tempo de Avançar, CDU, Bloco de Esquerda e Partido Socialista – é comum a existência imperativa de um Ministério da Cultura (MC) a que se associa a urgência do aumento do orçamento. Livre/Tempo de Avançar propõe chegar ao fim da legislatura com 1% do OE, o PS assegura o aumento sem o quantificar, tal como a coligação CDU, o BE, que se assume ainda com um programa de partido contrapoder, reivindica 1% logo no primeiro ano da legislatura.
Outro aspecto comum a todos os partidos de esquerda é o uso da televisão e da rádio como instrumentos fundamentais da política cultural. Expressando uma visão democrática da relação dos Estados com estes instrumentos, nota-se a ausência de qualquer intenção de associar esta colaboração com um ministério da comunicação com todos os contornos de um ministério da propaganda.
O PS, assumindo uma relação de inclusão da RTP no MC, identifica esta colaboração como uma forma de produção de sinergias e de economia de escala. A todos é comum a intenção de cooperação entre a educação, a internacionalização e a política cultural. Tais intenções decorrem sempre de programas de colaboração que, sendo sempre minoritários, podem ser eficazes – contudo, só uma decisão radical de uma legislação zero, à maneira de um orçamento zero, poderia criar uma organicidade maior nestas colaborações.
O Livre/Tempo de Avançar proclama com alguma ingenuidade que “as artes visuais são fundamentais para a representação/construção de um mundo mais humanizado” (Serão? E a serem serão só estas?), anunciando com enorme pertinência e sentido de justiça que “dos agentes culturais se deve esperar o sentido dos deveres e da responsabilização”.
É reconhecida a capacidade de gestão e de políticas culturais de muitas autarquias geridas pelo PCP, algumas delas modelares. O programa apresentado reflecte essa experiência, pretendendo transpô-la para um governo central, aqui utilizando uma forma reclamativa. A associação da festa com a reivindicação é matriz das políticas culturais do PCP, herdadas na relação da natureza com a cultura do Iluminismo francês e consubstanciadas nas festas dos partidos comunistas europeus, como a antiga festa do PC francês e a Festa do Avante!, uma das primeiras experiências de internacionalismo artístico em Portugal. Assim, tem toda a coerência a crença na cultura como aprendizagem da democracia e a defesa da acessibilidade às práticas culturais. O dilema com que este programa se confronta é com a proposta de uma cultura para o povo. O que quer dizer "povo" aqui? A classe média suburbana? Os desempregados? Ou é um povo idealizado, mas que na verdade não existe? Perante um programa de entretenimento medíocre das televisões e uma remota festa de origem operária que escolherá este "povo" do século XXI? É um dilema do PCP que é um dilema de toda a esquerda. Os Verdes associados ao PCP e que têm no seu manifesto a defesa de uma vida ecológica deveriam produzir algum pensamento sobre esta questão.
Se o Livre/Tempo de Avançar tem como questão inicial "Governar para quê e como", o PS responde "Governar melhor, governar diferente". Para além da ligeireza da frase, o que é de analisar é o que é diferencial no seu programa que gera expectativas de que a governação seja melhor. O PS é um partido com uma história de governação na área cultural importante – foi o partido que criou em Portugal o Ministério da Cultura, teve muito bons protagonistas, outros nem por isso, mas tem uma experiência de governação e de legislação nesta área que são determinantes, sobretudo tendo a expectativa de vir a ser o próximo governo. Neste aspecto há um conjunto de propostas que, não sendo novas, aparecem porque foram iniciadas em governos anteriores do PS e interrompidas e, portanto, propõe-se retomá-las e há ainda as diferenciais que são as que podem responder a uma política cultural nos tempos de hoje. Destas, a que gera mais expectativa é a reestruturação das várias instituições e organizações que dependem do MC, o que supõe uma nova lei orgânica que privilegia a autonomia e a descentralização de competências. O programa, que combina aspectos de política geral – e é aqui que coincide com alíneas dos outros partidos de esquerda – com aspectos demasiado particulares, assume a necessidade de investimento, ou seja, sabe que sem recursos financeiros não é possível implementar acessibilidades gerais, literacias, internacionalização e dignificação do trabalho cultural, mas espera-se que neste momento de capitalismo assanhado proponha formas de investimento que ultrapassem a expectativa do mecenato. Também neste programa a acessibilidade cultural está associada à democracia. É um aspecto determinante, porque, na verdade, a democracia é uma aprendizagem constante; ninguém nasce democrata, pode aprender-se a sê-lo, mas isso implica que uma política cultural admita ser muitas vezes uma política contra os gostos e as tendências maioritárias. É uma questão com que um governo PS terá de se confrontar no sistema de relações culturais.
O BE é o partido que, pela sua linguagem, mostra ter um programa essencialmente reivindicativo. E do conjunto das ideias mais reivindicativas há dois aspectos determinantes: um que diz respeito aos direitos dos trabalhadores da cultura e outro em relação ao digital, tema também aflorado pelos outros partidos.
A questão dos direitos e do trabalhador cultural coloca definitivamente este tipo de actividade sujeito à lógica das relações de produção e de mercado no capitalismo actual com tudo o que tem de assustador. Mas é importante esta assunção, porque é a recusa do trabalho intelectual e cultural como passível de ser gratuito, fácil, sem competências próprias.
O aspecto do digital é muito bem colocado neste programa porque da forma como o digital for utilizado, gerido e controlado, assim se garantirão a preservação cultural, a criação contemporânea, a acessibilidade e a independência do país.
A relação de todos os programas com a Europa é maioritariamente focada na expectativa de financiamento de fundos europeus. Tal exige uma preparação técnica invulgar, mas principalmente uma política de auto-representação do país e da sua produção cultural que seja diferenciada na UE e, passadas as décadas de solidariedade e de entreajuda entre governos europeus, é importante preparar uma política de internacionalização que será também de disputa de territórios de influência e em que a questão do cultural é também um campo de rivalidades.
Gestor cultural e ensaísta
in Público (1 Set. 2015)
__________________________________
*António Pinto Ribeiro. Nasceu em Lisboa. Viveu em várias cidades africanas e europeias. A sua formação académica foi feita em Filosofia, Ciências da Comunicação e Estudos de Cultura. A par destas áreas de trabalho tem feito investigação e produzido teoria em dramaturgia, política cultural, programação artística e estudo das cidades. É professor-conferencista de várias universidades internacionais. Tem vários livros publicados, entre os quais os ensaios: Por exemplo a cadeiraSer feliz é imoral?, AbrigosÀ procura da escala, É Março e é natal em OuagadougouQuestões permanentes (Livros Cotovia). Miscelânea é o seu livro mais recente.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

"Quando nós, os mortos, despertamos", de Henrik Ibsen

«Nestas peças, vemos os fantasmas avançarem.
E os velhos acabam por sair de casa - para a natureza, da qual a vida inteira se tinham protegido. Ela chama-os, expulsa-os e submerge-os.
E não é um fantasma a Irene que Rubek entrevê na véspera de começar "Quando nós, os mortos, despertamos?" A Irene que passeia no jardim, vestida de branco e seguida pela sua enfermeira-diaconisa e que a si própria se considera morta?
O intenso poder de Ibsen é fazer as suas peças ecoar apenas ofolhetinesco passado dos seus burgueses perplexos. O palco não é lugar de acção, mas remoinho, rebentação do que há muito foi jogado.»
Jorge Silva Melo, "E quando a Primavera Chegar"
________________________________________
*Tradução da peça "Quando nós, os mortos, despertamos" por Fátima Saadi e Karl Erik Schollhammer

«RUBEK: (levantando os olhos do jornal) O que foi, Maja? Algum problema?
MAJA: É este silêncio, ouve.
RUBEK: (com um sorriso condescendente) E tu estás a ouvir?
MAJA: O quê?
RUBEK: O silêncio.
MAJA: É claro que sim!
RUBEK: Pois, talvez tenhas razão, mein Kind. Talvez seja possível ouvir o silêncio.
MAJA: Por amor de Deus, claro que é! Ainda mais quando ele é tão barulhento como...
RUBEK: Aqui na estância?
MAJA: Aqui na nossa terra. Claro, nas cidades há barulho e algazarra, mas mesmo aí... de certa forma... no barulho e na algazarra há qualquer coisa de morto.»