segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Na selva das cidades, de Bertolt Brecht

«Brecht, que chegou às cidades “em tempo de desordem”, viu que “os homens se revoltavam” e “com eles se revoltou”. E aprendeu a não respeitar as leis e a gostar dos canalhas e das vielas, a proclamar, vaidoso, a poesia das tabernas contra o bruxulear dolente das academias, a exigir da vida a aventura ilimitada. Há neste jovem Brecht, nesta avidez, neste leitor incessante de Rimbaud, tocador de guitarra como Wedekind, um ímpeto imparável. Para este Brecht, romântico extremo e anti-romântico por ódio à expressão das almas, o teatro (como para outros, nessa altura ou depois ou ainda agora, o cinema, a pintura, a música) nasce da literatura. Por isso, este homem orgulhosamente novo e assombrado por um cio secular tem que arrombar as portas aveludadas dos palcos com a brutalidade da palavra.»
Jorge Silva Melo, "Com Bertolt Brecht. Aprender a impiedade, preparar a amabilidade"
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*Tradução da peça "Na selva das cidades", por Jorge Silva Melo, José Maria Vieira Mendes e Vera San Payo de Lemos

«SKINNY: Se a gente leu bem, isto aqui é uma loja onde se alugam livros. E a gente quer alugar um livro.
GARGA: Que género de livro?SKINNY: Grosso.
GARGA: Para si?
SKINNY: (que antes de cada resposta olha para Shlink) Não, não é para mim, é aqui para este senhor.
GARGA: Nome?
SKINNY: Shlink, negociante de madeiras, Mulberry Street 6.
GARGA: (anota o nome) Um cêntimo à semana por livro. Pode escolher.
SKINNY: Não, quem escolhe é o senhor.
GARGA: Tem aqui um policial, não é lá grande coisa. Esse é melhor, um livro de viagens.
SKINNY: E diz isso assim: este livro não presta?
SHLINK: (aproxima-se) É a sua opinião? Quero comprar-lhe essa opinião. É pouco, dez dólares?
GARGA: Dou-lha de graça.
SHLINK: Quer dizer que o senhor muda de opinião e que agora o livro já é bom?
GARGA: Não.
SKINNY: Mas com este dinheiro podia ir comprar roupa nova.
GARGA: O meu trabalho aqui é só embrulhar livros.
SKINNY: Assim afasta os clientes.
GARGA: Mas o que é que quer de mim? Não o conheço, nunca o vi.
SHLINK: Dou-lhe quarenta dólares pela sua opinião sobre este livro que eu não conheço, nem me interessa conhecer.
GARGA: Eu vendo-lhe as opiniões do mister V. Jensen e do mister Arthur Rimbaud, mas não lhe vendo a minha opinião.»

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Jornada para a Noite, de Eugene O'Neill

«Participando igualmente do realismo superior de um Ibsen, pelo qual se reformara o teatro nos fins do século passado, e da vaga de expressionismo que varreu os palcos no primeiro quartel deste século, muito lido na poesia e na filosofia em voga no seu tempo (essas leituras são largamente referidas nesta peça), profundamente marcado pelo seu "background" católico e irlandês e pelas aventuras marítimas da sua mocidade tempestuosa, Eugene O'Neill ergueu uma obra estranha e poderosa - de quem, como ele disse, estava primacialmente interessado nas relações do homem com Deus (...). Dessa obra, "Jornada para a Noite" é, de certo modo, o coroamento.»

Jorge de Sena, tradutor de "Jornada para a Noite", na introdução à obra.
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«TYRONE: Tem tento na língua! Vê se engoles esse calão ordinário de vadio da Broadway! Não tens piedade? (Perdendo o domínio.) O que eu devia era pôr-te na rua a pontapés! Mas, se o fizesse, tu bem sabes quem choraria e pediria por ti, e te desculpava e te lamentava até que eu te deixasse voltar.
JAMIE: (um espasmo de dor lhe perpassa no rosto) Raios! E eu não sei isso? Piedade? Tenho por ela toda a piedade do mundo! Compreendo muito bem como é dura a luta que ela trava... Mais dura do que o pai jamais conheceu! A minha linguagem não quer dizer que eu não tenha sentimentos. Eu estava simplesmente a declarar cruamente o que todos sabemos e com que temos de viver agora, mais uma vez. (Com amargura.) Os tratamentos não valem de nada, a não ser por pouco tempo. A verdade é que não há cura, e que fomos uns anjinhos em esperar...
(Cinicamente.) Porque nunca mais voltam a ser o que eram!
EDMUND: (com desprezo, parodiando o cinismo do irmão) Não tornam a ser o que eram! É tudo uma treta! Tudo um fingimento de tarados que não valem nada. (Com desdém.) Meu Deus, se eu sentisse como tu sentes...
JAMIE: (por momentos ferido, e depois secamente, encolhendo os ombros) Julguei que sentias. A tua poesia não é muito alegre. Nem o é o que lês e dizes admirar. (Indica a pequena estante ao fundo.) Por exemplo o teu bem-amado. o que tem um nome que nem se pode pronunciar!
EDMUND: Nietzsche. Não sabes de que estás a falar. Nunca o leste.
JAMIE: O bastante para saber que é uma patacoada!
TYRONE: Calem-se ambos! Há pouca diferença entre a filosofia que aprendeste com os vadios da Broadway, e a que o Edmund bebeu nos livros que lê. Ambas estão mais que podres. Vocês desprezaram os dois a fé em que foram nados e criados... a única verdadeira, a da Igreja Católica... e a vossa descrença só trouxe perdição!
(Os dois filhos fitam-no com desprezo. Esquecem a briga que os separa e unem-se contra ele.)
EDMUND: Isso é que é a treta, papá!
JAMIE: Ao menos não fingimos . (Causticamente.) Não noto que tenha gasto os joelhos das calças a ir à missa.»

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Os rústicos, de Carlo Goldoni

«"Os rústicos" fornecem uma imagem nova, no corpus da comediografia goldoniana, da burguesia veneziana que serepercute em "A casa nova" e noutras comédias do triénio 1760-1762. Pouco resta nas personagens dos quatro rústicos e, em especial, de Lunardo, da exemplaridade que distinguia o Pantalone das comédias da década de 1750, quer na condução dos negócios, quer na direcção da vida doméstica. Nas personagens da peça de 1760, as posições de defesa obstinada da tradição e dos velhos costumes, assim como a rejeição de tudo o que não se quadra com o seu horizonte de valores conservadores, pondo em evidência o agora descabido menosprezo pelas aspirações e desejos dos parentes mais próximos, revelam-se constituir um risco para a harmonia familiar, tão fervorosamente preservada pelo velho Pantalone.»

Maria João Almeida, no prefácio ao II volume de "Carlo Goldoni - Pelças escolhidas".

*Tradução da peça "Os rústicos" por José Peixoto
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«MARGARITA: Quem é que convidou?
LUNARDO: Pessoas distintas, entre as quais há dois que são casados e virão com as suas patroas, e estaremos todos em alegria.
LUCIETTA (à parte): Ainda bem, ainda bem, agrada-me. (Alegre, para Lunardo:) Querido senhor meu pai, então quem são?
LUNARDO: Senhora curiosa!
MARGARITA: Veja lá, meu velho, não quer que saibamos quem há-de vir?
LUNARDO: Querem que vos diga? Então lá vai. Virão o senhor Canciano Tartuffola, o senhor Maurizio da le Strope e o senhor Simon Maroele.
MARGARITA: Cos diabos! É acertar em cheio! Um ramalhete bem escolhido.
LUNARDO: O que é que quer dizer? Não são homens com tudo no sítio?
MARGARITA : Sim, senhor. Três selvagens como vós.
LUNARDO: Ah, senhora, hoje em dia, as coisas são como são, a um homem que tem juízo, chamam-lhe selvagem. E sabe porquê? Porque as mulheres são muito livres. Não se contentam com as coisas honestas. Agrada-vos as patuscadas, a balbúrdia, as modas, as palhaçadas, as criancices. Estar em casa é como estar na prisão. Se os vestidos não custam os olhos da cara, não são bonitos. Se não têm convívios, são tomadas de melancolia e não pensam em mais nada; não têm dois dedos de testa e só ouvem o que vos vem à cabeça, e não vos faz qualquer espécie ouvir o que se diz dessas casas, de tantas famílias que se arruínam. Quem vos acompanha é vítima de murmúrios, torna-se ridículo, e quem quer viver na sua casa com discrição, com seriedade, com reputação, as coisas são como são, é um desmancha-prazeres, um rústico, um selvagem. Estou a falar bem? Acha que estou a dizer a verdade?»

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O servidor de dois amos, de Carlo Goldoni

«Goldoni é um reformador cauteloso. Não se pôs a destruir as formas velhas, caducas embora, estudou-as, calçou-as com os sapatos sujos da realidade, encontrando nelas as lentes que lhe permitiram observar a vida, esse segredo escancarado. No imenso cortejo que ele criou, repleto de pais burgueses e filhas casadoiras, criados espevitados e aristocratas empobrecidos, comerciantes espertos e notários ávidos, encontramos a reduzida galeria de tipos que fizera a comédia popular, os Pantaleões, os Arlequins, as Colombinas, os Brighella da tradição. Mas, ao volteface permanente desse teatro de todos os efeitos, a que, em "O Servidor de Dois Amos" simultaneamente rende homenagem e volta costas, contrapõe Goldoni um outro tempo dramático. As suas peças serão cada vez mais lentas, as intrigas mais desnudadas, o enredo rarefaz-se, as cenas serão mais demoradas, as conversas mais importantes do que as reviravoltas da intriga, é como se o carrocel tivesse que parar e o teatro de Goldoni apanhasse as personagens na volta final e na descida, quando se apoiam umas às outras, depois do sarrabulho, depois da vertigem. É que o mundo está a mudar, muda.»

Voltar sempre a Goldoni — e sorrir, por Jorge Silva Melo (prefácio ao 1º volume das "Peças escolhidas" de Carlo Goldoni)

*Tradução da peça O servidor de dois amos por Alessandra Balsamo
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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Don Carlos, de Friedrich Schiller

«Conhecer por dentro o original alemão permitiu-me a ousadia de tentar reproduzir, em português, os próprios efeitos poéticos de Schiller. Muitos dos versos portugueses têm ritmos e sons absolutamente idênticos aos que se encontram “por trás”, no texto alemão; isso explica a estranheza passageira que algumas frases poderão provocar no ouvinte português. Visto que o texto original prescinde da rima, fui também fiel a essa opção, apostando antes, quanto a ritmos musicais, nas aliterações, nos ecos internos e na utilização
expressiva do próprio desenho fonético-morfológico das palavras, processos característicos da poesia alemã. Em suma, se é verdade que, em muitos passos, desisti de procurar reproduzir a letra do Don Carlos de Schiller, não é menos verdade que procurei sempre reproduzir a sua estética.»

Frederico Lourenço, enquanto tradutor da obra, no Posfácio de Don Carlos, de Friedrich Schiller
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O leque, de Carlo Goldoni



«Uma visão do mundo que continua penetrante e válida. Um mundo que continua muito aparentado ao nosso porque fala de gente muito parecida connosco, já muito metida pelas problemáticas do aparente, do dinheiro, dos penteados, das roupas, dos negócios, do capitalismo e do quotidiano burguês. Nada mais actual que aquelas figuras dos rusteghi, verdadeiros antepassados dos banqueiros actuais, esses criadores dos produtos que nos intoxicam pela acumulação da sua condição especulativa até ao valor fetiche insustentável.»
Fernando Mora Ramos, no prefácio de Carlo Goldoni - Peças escolhidas 3
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*Tradução da peça O leque por Tereza Bento



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Minetti, de Thomas Bernhard

«MINETTI
A sociedade sem classes
não percebe patavina
não percebe patavina
Estamos constantemente a construir
uma tragédia
ou uma comédia
quando criamos a tragédia
no fundo acaba por ser só uma comédia
e vice-versa
apelando à responsabilização de cada um
se me faço entender bem
E voltamos sempre e apenas à arte teatral
(A Senhora bebe)
MINETTI
Existência
Arte teatral
se me faço entender bem
A construção é dramática
teatral
O meio acaba sempre por ser teatral
A ideia
Arte teatral
Teatro
Existência
na medida em que servimos a arte teatral
uma monstruosa construção
em que nós somos tudo (...)»

Minetti, de Thomas Bernhard 
(trad. João Barrento)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Assassínio na Catedral, de T. S. Eliot




«A sua música de verso é bem típica; a sua arte de modulação rítmica, duma riqueza muito grande. Confesso que não quis mais do que imitá-la, mas a velha história dos "génios" de cada língua é uma real verdade que humanos - desde Babel - não conseguirão neste mundo unificar pondo todos os particulares numa geral linguagem.» (lê-se no Posfácio do tradutor José Blanc de Portugal)
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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder

"As Lágrimas Amargas de Petra von Kant", de Rainer Werner Fassbinder (tradução de Yvette K. Centeno), é uma nova reedição da Cotovia:


«KARIN: Pára de chorar, Petra, por favor. Olha, eu gosto de ti, a sério, amo-te... mas... (Encolhe os ombros. Petra chora descontroladamente.) Era evidente que eu de vez em quando dormiria com um homem. Sou assim. Mas não nos prejudica em nada. Eu só me sirvo dos homens, não lhes dou mais valor do que isso. É só um divertimento. Palavra. Falaste sempre em liberdade e assim. Disseste sempre que entre nós não havia compromissos... Não chores! Olha, já sabes que eu volto para ti.
PETRA: Dói-me tanto o coração. Como se mi tivessem enterrado uma faca no peito.
KARIN: Não faz falta doer, o coração. Nem eu nem tu precisas disso.
PETRA: Nem eu nem tu 'precisamos' disso. Sujeitos no singular ligados por 'nem', obrigam ao verbo no plural se a acção pertence a ambos os sujeitos.
KARIN: Ah, Petra. Claro que não sou tão inteligente como tu, nem tão educada. Sei isso muito bem.
PETRA: És bela. Gosto tanto de ti. Dói-me tudo, de tanto gostar de ti. Meu Deus, meu Deus. (Vai arranjar uma bebida.) Queres outra?
KARIN: Não, tenho que ter cuidado com a linha.
(Olham uma para a outra, começam a rir ao mesmo tempo, param também de rir quase simultaneamente, ficam a olhar uma para a outra mais um momento, e depois Petra volta-lhe as costas.)»

Rainer Werner Fassbinder (1946-1982) colabora, em 1966, com o Büchner Theater de Munique e com o Action Theater. A partir de 1971 estabelece-se como escritor, encenador e realizador, dando um notável contributo para a nova dramaturgia e filmografia alemãs. A sua produção é marcada por um realismo agreste, que põe a descoberto as grandes paixões e as pequenas turpitudes dos indivíduos e dos grupos sociais, no tempo de sofreguidão e violência que é o nosso.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

À Espera de Godot, de Samuel Beckett

«VLADIMIR: O que é que eu estava a dizer? Podíamos começar por aí.
ESTRAGON: O que estavas a dizer quando?
VLADIMIR: Mesmo ao princípio.
ESTRAGON: Ao princípio do QUÊ?
VLADIMIR: Do fim da tarde… eu estava a dizer… eu estava a dizer…
ESTRAGON: Não sou historiador.
VLADIMIR: Espera… nós abraçámo-nos… estávamos contentes… contentes… o que é que fazemos agora que estamos contentes… continuamos à espera… à espera… deixa me pensar… está quase… continuamos à espera… agora que estamos contentes… deixa cá ver… ah! A árvore!
ESTRAGON: A árvore?
VLADIMIR: Não te lembras?
ESTRAGON: Estou cansado.
VLADIMIR: Repara nela.
(Olham para a árvore.)
ESTRAGON: Não vejo nada.
VLADIMIR: Então, ontem estava toda preta e despida. E agora está coberta de folhas.
ESTRAGON: Folhas?
VLADIMIR: Numa só noite.
ESTRAGON: Deve ser a primavera.
VLADIMIR: Mas numa só noite!
ESTRAGON: Estou a dizer-te que ontem não estivemos aqui. Foi mais um dos teus pesadelos.
VLADIMIR: Então, onde é que tu achas que estivemos ontem?

ESTRAGON: Como é que queres que eu saiba? Num outro compartimento. O que não falta é vazio.
VLADIMIR: (seguro de si) Muito bem. Não estivemos aqui ontem à tarde. Então o que é que fizemos ontem à tarde?
ESTRAGON: Fizemos?
VLADIMIR: Tenta lembrar-te.
ESTRAGON: Fizemos?… Devemos ter tagarelado.
VLADIMIR: (controlando-se) Sobre o quê?
ESTRAGON: Oh… sobre isto e sobre aquilo, acho eu, nada em especial. (Seguro.) Pois, agora já me lembro, passámos a tarde de ontem a tagarelar sobre nada em especial. Isto já dura há
meio século.»


A edição Cotovia "À Espera de Godot", de Samuel Beckett, é uma tradução de José Maria Vieira Mendes. A peça estreou em Portugal em 1959, numa encenação de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), no Teatro da Trindade.