sexta-feira, 31 de julho de 2015

Informamos que vamos estar encerrados durante a primeira quinzena de Agosto. Reabrimos no dia 17.



Preferir ser fábula a ser um deus sem amor

Hugo Pinto Santos

Um poeta que viveu e escreveu há mais de dois mil anos surge numa cuidadosa tradução que nos devolve uma obra de enorme importância para a lírica universal



Os Livros Cotovia voltam à edição de clássicos latinos (no seguimento do trabalho com os gregos levado a cabo por Frederico Lourenço). Esta nova edição de Tibulo, autor inédito em volume (uma pequena amostra em Romana, de Maria Helena da Rocha Pereira), surge depois de livros consagrados a Ovídio (A Arte de Amar e Amores, tradução de Carlos Ascenso André; Metamorfoses, tradução de Paulo Farmhouse Alberto), Horácio (Odes, tradução de Pedro Braga Falcão), Petrónio e Apuleio (Satyricon e O Burro de Ouro, tradução de Delfim Leão). Esperam-se ainda novas traduções de Horácio e Ovídio.
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Não sabemos quase nada sobre Álbio Tibulo. Mesmo as informações mais ou menos fidedignas que nos chegaram são resultado de suposições feitas a partir da sua obra, ou de escassas notícias biográficas. Terá talvez nascido em 54 a.C., e é quase seguro que tenha morrido em 19 a.C. — há testemunhos que fazem coincidir o ano da sua morte com o de Virgílio. Seria de família com posses, pertencente à ordem equestre, mas as confiscações que se seguiram às guerras civis terão levado algum do património familiar, como sucedeu a outros poetas, entre os quais Virgílio e Propércio. Talvez Horácio tivesse Tibulo em mente quando escreveu numa epístola (uma vez mais, não é certo): “Álbio, cândido crítico das minhas sátiras,/ pergunto-me o que farás na região do Pedo./ Escreves algo que exceda as obras de Cássio de Parma,/ ou em silêncio passeias pelos salubres bosques,/ pensando no que é digno de um homem sábio e bom? (Epístolas, 1. 4, em tradução, inédita, de Pedro Braga Falcão).
Assim como Horácio fez parte do círculo de Mecenas, Tibulo pertencia à roda do poderoso Valério Messala Corvino, cujas hostes integrou, tendo combatido às suas ordens na Gália. Tibulo refere-o em vários poemas, num dos quais fala mesmo do seu “amigo Messala” (p. 66). O poeta foi contemporâneo da gloriosa geração que incluiu nomes como os de Galo, Virgílio, Horácio (mais velhos do que ele), Propércio e Ovídio (mais novos). Este último, historiando poeticamente os tempos e a sucessão dos poetas elegíacos, escreveu: ? ?Vi, apenas, Virgílio; e a avareza dos fados/ não concedeu a Tibulo tempo para a minha amizade”; e prossegue: “este foi o teu sucessor, ó Galo, e Propércio o dele;/ o quarto nesta cadeia de tempo fui eu” (Tristia, 4.10, em tradução também inédita de Carlos Ascenso André). O mesmo Ovídio viria a lamentar a morte de Tibulo — “arranca os cabelos que tal não merecem, ó chorosa Elegia!/ Ah, por demais verdadeiro é o nome que tens!/ O famoso poeta que trouxe glória ao teu género, Tibulo,/ arde, cadáver inanimado no cimo de uma pira” (Amores, Livros Cotovia, 2006, tradução de Carlos Ascenso André).
É certamente Tibulo o destinatário da ode de Horácio que assim começa: “Álbio, não sofras demasiado ao lembrares-te da indócil/ Glícera, nem recantes plangentes versos de elegia/ perguntando-te, quebrada a confiança que tinhas,/ porque um mais novo te eclipsa…” (Odes, Cotovia, 2008, tradução de Pedro Braga Falcão). Segundo o tradutor, é certo ser a Tibulo que Horácio se dirige, dado que refere a elegia (género em que Tibulo se distinguiu) e que comentadores antigos e modernos confirmam a relação. Nos versos horacianos estão resumidos alguns elementos importantes na poesia de Tibulo: o predomínio de uma figura feminina (factor não eliminatório, porém) cantada em elegias (a elegia romana foi desenvolvimento específico do género, que, de qualquer forma, se distingue razoavelmente da acepção vulgar hoje dada, em exclusivo, ao termo “elegia”), sob a égide do que o poema chamará, alguns versos depois, “cruel divertimento?de Vénus”. O nome aduzido por Horácio constitui um jogo de palavras com o sentido de “doce”, e não é o cognome eleito por Tibulo para as duas mulheres presentes no Livro I e II das elegias. Mulheres, essas, cuja identificação é naturalmente difícil hoje em dia. No primeiro conjunto, a figura feminina é Délia; no segundo, Némesis. Os poemas do Livro I descrevem um quadro não isento de atrito, mas essa tensão eleva-se, no Livro II, a outros níveis — não nos esqueçamos de que o nome Némesis aponta para vingança. Com a primeira, o poeta ainda alimenta fantasias bucólicas — “eu mesmo hei-de plantar, no tempo certo, tenras videiras,/ volvido camponês, e, com mão ágil, árvores de fruta já crescidas” (p. 49) —, num desejo de existência idealizada, espécie de via de modéstia resignada mas venturosa, um tópico que lembra Horácio – e que não passaria, com grande probabilidade, disso mesmo: um tópico. No entanto, em dois poemas consecutivos (5 e 6), relata-se uma história de traição — “Agora desfruta outro do amor” (p. 65); “Délia às escondidas,/ no silêncio da noite, acalenta não sei quem no seu aconchego” (p. 68). O último destes, aliás, começa, no original latino, com a palavra “semper”, que enfatiza a instabilidade do amor, ao propor que o único aspecto permanente na existência é a própria mudança. Quanto a Némesis, “devota da ganância” (p.38), na expressão do tradutor e estudioso Carlos Ascenso André, protagoniza um conjunto de três poemas que são elucubrações quase neuróticas em torno daquela temática. Por esse motivo, em ambos os casos, o tradutor propõe que se trata de um conjunto de relações marcadas por uma profunda e efectiva artificialidade. Fórmulas como “retórica de amor inconsequente”, “devaneio poético”, ou “breve desvario”, com que o estudioso descreve o discurso poético de Tibulo, dão bem a medida da filiação em certa gramática literária, e não parecem ser a expressão poética de um acervo afectivo irreprimível, como sucedia com Catulo cerca de duas gerações antes. Segundo Carlos Ascenso André, situar-se-á noutro pólo a zona da obra de Tibulo que conhece a mais genuína recriação literária do amor enquanto material biográfico a transfigurar pela poesia.
Paralelamente à presença feminina, dividida pelos dois núcleos de poemas de Tibulo, há três composições, no Livro I, que se centram num jovem, Márato. Esta presença é declaradamente distinta — “Só aí se fala em carícias, em beijos, na concretização do amor, para além do mero plano das palavras”. (p. 22). Por outro lado, o seu surgimento não parece ser arbitrário na própria organização dos poemas. Ele é “‘encastrado’ entre as elegias a Délia, a assumir com clareza que não se trata de um facto episódico” (p. 29), conforme afiança o tradutor. E mesmo no contexto da composição isso sucede: desde logo, a primeira ocorrência dá-se no final do poema, “como corolário de toda esta arte de amar que veio sendo enunciada” (p. 30). As suas presenças levam a que Ascenso André proponha tratar-se da “crónica de um amor errático”. Na segunda, Márato partilha o protagonismo do poema com uma amante; na última, trairá o sujeito poético com outro homem. As actividades amorosas, foi o jovem, gananciosamente, “vendê-las (p. 81), como diz o poema. Comparando os três alvos de interesse do sujeito poético, constata-se que existe a uni-los o elemento da perfídia.
Num famoso passo de Institutio Oratoria, escreve Quintiliano: “Rivalizamos também com os Gregos na elegia, onde Tibulo me parece, acima de todos, autor escorreito e elegante; há quem prefira Propércio; Ovídio é mais lascivo que qualquer deles, tal como Galo é mais áspero”. A elegância e a sofisticação estilística de Tibulo são um dos aspectos marcantes da sua poesia. Por vezes, em antecipação de um poeta especialmente cotado nesse particular, como Ovídio, com assonâncias e construções anafóricas de assinalável engenho. Uma atenção tecnicamente atenta à feitura do verso e ao jogo entre sentido e som alia-se ao cuidado extremo posto na orientação vocabular dentro do verso, e entre versos.
Em relação à fixação do conjunto dos poemas do autor, o menos arriscado é considerar apenas os dois primeiros livros do chamado Corpus Tibullianum, uma vez que o terceiro é de atribuição dubitativa. Há mesmo estudiosos que o rejeitam por completo como não tibuliano. Outros há, porém, que o consideram legítimo, com a exclusão das duas elegias de Lígdamo e de três elegias de autoria desconhecida — uma das quais de louvor a Messala. Carlos Ascenso André inscreve-se nessa corrente. O Ciclo de Sulpícia inclui um poema que Ascenso André considera (na esteira de outros latinistas) da autoria de Tibulo, e que, portanto, junta aos poemas dos Livros I e II, bem como as elegias finais do Livro III, que serão, “com toda a probabilidade” (p. 133), suas — “Mulher alguma me tirará o teu leito”. Integra, ainda, no seu próprio corpus, que define enquanto especialista e tradutor, outras quatro em que o eu poético será o de Sulpícia, mas que leva em linha de consideração. Por fim, traduz e inclui as elegias de Sulpícia, “dada a relação estreita que mantêm com as elegias anteriores” (p. 42).


in Público

terça-feira, 21 de julho de 2015

Daniel Jonas



O MEU POEMA TEVE UM ESGOTAMENTO NERVOSO
Já não suporta mais as palavras.
Diz às palavras: palavras
ide embora,
ide procurar outro poema
onde habitar.
O meu poema tem destas coisas
de vez em quando.
Posso vê-lo: ali distendido
em cama de linho muito branco
sem perspectivas ou desejo
quedando-se num silêncio
pálido
como um poema clorótico.
Pergunto-lhe: posso fazer alguma coisa por ti?
mas apenas me fixa o olhar;
fica ali a fitar-me de olhos vazios
e boca seca.

in Os Fantasmas Inquilinos, de Daniel Jonas
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Daniel Jonas foi hoje distinguido com o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes.
Títulos do autor na Cotovia:
- Os Fantasmas Inquilinos (Poesia)
- Sonótono (Poesia)
- Nenhures (Teatro)
Traduziu ainda o clássico Paraíso Perdido, de John Milton; "Seis personagens à procura de um autor", de Luigi Pirandello; "Ao arrepio", de Joris-Karl Huysmans; "O Mercador de Veneza", de William Shakespeare.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O exílio de uma menina morta - por Ana Vilela



Edição Livros Cotovia
Uma menina morta e sem nome. Um ente, um zéfiro. Uma presença ausente a trespassar a obra. Assim é a principal entidade do livro A menina morta, de Cornélio Penna, obra publicada em 1954 e que completa 60 anos neste 2014. Digo entidade porque sequer é possível chamar a menina de personagem. O livro começa com doze breves capítulos que trazem a preparação do corpo e o enterro da criança, cenas nas quais Penna, também artista plástico, deixou falar a mão do pintor. Sua veia artística pode ser lida nas nuances das linhas de A menina morta, cuja história ultrapassa as páginas da literatura e adentra a vida real do autor, que nasceu em Petrópolis em 1896 mas teve a trajetória marcada por parte da infância vivida em Itabira do Mato Dentro, em Minas Gerais, e Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, em curta passagem.
Cornélio Penna transmudou para as páginas de seus livros as experiências vividas nessas regiões, as histórias dos antepassados e mesmo os objetos antigos que colecionava. O exemplo mais contundente é o quadro da menina. Tudo começou quando o escritor ganhou um retrato de presente um retrato, um óleo de uma menina morta, conforme era o costume em meados do século XIX, quando muitas crianças morriam precocemente. Era uma tia-bisavó do autor, com semblante angelical. A criança, acredita-se, tinha por volta de seis anos. E a tela tornou-se vital para o romancista. A menina era sua noiva, dizia ele a amigos como Rachel de Queiroz e Augusto Frederico Schmidt, alguns dos quais levou para contemplar a presença que ornava a parede de sua casa. Em entrevista a O Jornal, do Rio de Janeiro, conta o autor que um dia, ao escrever um capítulo de Repouso, tinha perto de si o quadro. Ao final, quando reuniu todos os capítulos, esse se destacou. Penna o excluiu e guardou, decidindo, nesse instante, a escrever A menina morta. Assim o fez, traduzindo a tela em palavra, tanto na presença da criança - "coberta pelo vestido de brocado branco, de grandes ramagens de prata onde brilhavam os tons azulados e cinzentos, coroado de pequeninas rosas de toucar, feitas de penas levemente rosadas e postas sobre seus cabelos curtos, cortados rente da cabeça" - quanto no quadro, que ganha as paredes da casa-grande onde se passa a história.

Penna eleva a menina à condição de mito, tanto na vida real quanto na escrita. O livro nada traz dos dados biográficos da criança, nem o nome, nem o que a levou à morte, nem a idade. Ao mesmo tempo sabe-se muito dela: o doce preferido, o apreço por flores, pelo jardim, os hábitos, a fisionomia, o amor pelos escravizados. Pode-se visualizá-la, porque descrita exatamente como no quadro-fotografia que o levou a desenhar o livro. Quanto mais a aura de mistério e a rememoração por parte dos personagens aumenta, mais a figura da menina e sua presença ausente vai se fixando. Ao final tem-se sua imagem impregnada na memória, tanto na do leitor quanto na dos personagens.
Toda a trama se passa durante os últimos tempos da escravidão no Brasil e tem como cenário a fazenda do Grotão, próxima a Porto Novo, no Vale do Paraíba, região onde o escritor viveu parte da infância. Dali levou memórias das fazendas e das histórias ouvidas por lá, inclusive sobre a própria menina morta, sua bondade com os escravos, sua leveza e doçura. Segundo o escritor Augusto Frederico Schmidt, "não se terá escrito sobre a escravidão no Brasil, até hoje, nada mais impressionante do que alguns dos capítulos de A menina morta" (1958). Mas o tema não é o centro da obra. Pelo contrário, o foco é o social e o humano. O texto adentra o ser, suas fugas, angústias, memórias, solidão. O exílio de cada um, seja branco, seja preto.
Há controvérsias sobre o estilo do livro: realismo, romance histórico, psicologismo ou mistura de gêneros? Há quem o considere gótico. Outros, que se aproxima do realismo fantástico. Colocam Penna ao lado dos escritores ligados à intelligentsiacatólica, a exemplo de Lúcio Cardoso, de Crônica da casa assassinada. O certo é que a obra é distinta entre a literatura produzida no Brasil até os dias de hoje. Altamente ligado ao catolicismo, Penna realmente era. Mas a obra, apesar da presença religiosa, até mesmo pela época, não é apologética. Tanto que Penna cria um anjo-gente que, no décimo segundo capítulo, sobe aos céus, concluindo na terra a sua passagem. A cena encerra um ciclo, elevando a menina à condição de mito incapaz de mudar a vida das pessoas, a sua realidade social. É mais como uma máscara que encobre até certo ponto a verdade de cada um. A partir de sua ascensão, as transformações no Grotão seguem em cadeia. A menina sai de cena enquanto humana e retorna enquanto presença ausente. Terminado o enterro todos voltam à aparente normalidade da fazenda, mas em pouco tempo percebe-se que isso é impossível e a mudança, inevitável.
A morte é constante fio condutor do romance, principalmente o fim simbólico, marcado tanto pela loucura quanto pelo silêncio e pela dependência das personagens agregadas, todas mulheres vivendo de favores, assim como pela degradação da fazenda e do sistema vigente, a escravidão e o patriarcalismo. A paralisia das cenas desenhadas pelo escritor-pintor Cornélio Penna são tempo de morte. A própria casa sombria, com seus móveis e cortinas pesados, é espaço de morte.
Nesse contexto a menina morta é um bálsamo, a mais viva entre todos os moradores do Grotão. Todos se apegam a ela. O sofrimento por sua perda é imenso. Escravizados, empregados da casa-grande, familiares e padres sofrem em demasia com a sua morte. Quando a menina se vai, os véus caem. A criança parece o único e último esteio. São mais de 500 páginas de mistério crescente, em que o autor joga com sons estranhos e aparições, com instantes em que o próprio leitor espera ver a menina a sorrir e a puxar a saia de alguém. Nas entrelinhas ficam os jogos sem respostas, as insinuações e reticências inúmeras deixadas como rastros...
A história ganha ainda mais peso e força com a chegada da irmã da menina, Carlota, que vem da Corte para ocupar o lugar que seria da morta. A personagem segue até o final do livro, protagonizado apenas por mulheres: a menina morta, Carlota, Dadade, que representa o bobo da corte, Mariana, a mãe das duas jovens, e a prima Celestina são as imagens mais fortes. Mesmo que não sejam as mais presentes no romance, são as condutoras da trama.
Infelizmente, Cornélio Penna e toda a sua obra vivem no limbo literário brasileiro. Raras são as pessoas que já ouviram falar dele, mais raros ainda aqueles que já o leram. Qualquer livro seu, somente em sebos. Alguns, como Cornélio Penna - Romances Completos, de 1958, da editora José Aguilar, só por preços bem salgados, e com muita sorte. O autor escreveu apenas quatro obras: A menina morta, última criação, FronteiraDois romances de Nico Horta e Repouso, deixando, ao morrer, fragmentos de Alma brancaFronteira foi adaptado para o cinema pelo diretor Rafael Conde. Todo o espólio de Penna, inclusive o quadro da menina morta, encontra-se na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Lá estão também as gravuras e as pinturas do escritor, além de algumas caricaturas feitas para jornais quando ainda atuava como jornalista. O autor abandonou a pintura em 1929, por considerar que fazia literatura com a pintura, a qual, para ele, era incapaz de abarcar tudo o que a escrita poderia.
Cornélio Penna era considerado um artista estranho, alguém "desembarcado por engano neste planeta", segundo escreveu Murilo Mendes. Um exilado em seu tempo, cercando-se de antiguidades e sempre indo a um passado mais distante quando o assunto era literatura. Na ocasião do lançamento de Dois romances de Nico Horta, em 1940, Mário de Andrade publica artigo no Diário de Notícias, no Rio de Janeiro, intitulando as obras do autor publicadas até então de "Romances de um antiquário". Formado em Direito (profissão de gaveta), jornalista, pintor, escritor, Cornélio Penna é considerado o primeiro romancista brasileiro a adentrar as angústias dos personagens, a invadir "a problemática do ser", segundo Adonias Filho. Estranho, hermético, sem gosto pela movimentação e pelas vaidades do mundo literário, Cornélio Penna, morto em 1958, realmente tornou-se um exilado em seu tempo e em todos os outros. Quem perde é o leitor brasileiro.


*Ana Vilela é jornalista e mestre em Literatura pela UnB.

(originalmente publicado no Blog do IMS)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Funeral do Doutor Mathurin, de Gustave Flaubert


Tradução de 
Maria Jorge Vilar de Figueiredo


Sentindo-se velho, e considerando que um cacho demasiado maduro deixa de ter sabor, Mathurin decidiu morrer. Mas porquê e como?
Andava pelos setenta anos. Ainda estava rijo, apesar dos cabelos brancos, das costas curvadas e do nariz vermelho, em suma, era uma bela figura de velho. Os olhos azuis, estranhamente puros e límpidos, e uns dentes brancos e finos, sob uns lábios delgados e bem modelados, revelavam um vigor gastronómico raro naquela idade, em que é mais frequente pensar-se em recitar orações e em não ter medo do que em viver bem.
Na verdade, decidiu morrer porque estava doente e porque, mais cedo ou mais tarde, teria de sair deste mundo. Achou que seria melhor antecipar-se à morte do que sentir-se arrebatado por ela. Quando se inteirou bem da sua situação, não ficou admirado nem aterrorizado, não chorou, não gritou, não fez preces humildes nem exclamações empoladas, não se revelou estóico, nem católico, nem psicólogo, quer dizer, não demonstrou orgulho, nem credulidade, nem toleima; foi grande na morte, e o seu heroísmo superou o de Epaminondas, de Aníbal, de Catão, de todos os capitães da Antiguidade, de todos os mártires cristãos, do cavaleiro de Assas, de Luís XVI, de S. Luís, do Sr. de Talleyrand, que morreu enfiado no seu roupão verde, e mesmo de Fieschi, que ainda dizia piadas quando lhe cortaram a cabeça; enfim, de todos os que morreram por uma convicção qualquer, por uma qualquer devoção, e dos que à última hora se maquilharam para ficarem mais bonitos, embuçando-se na mortalha como numa capa de teatro, capitães sublimes, republicanos estúpidos, mártires heróicos e obstinados, reis destronados, heróis das galés. Sim, todas essas coragens foram superadas por uma única coragem, todos esses mortos foram eclipsados por um único morto, pelo doutor Mathurin, que não morreu por convicção, nem por orgulho, nem por patriotismo, mas de uma pleurisia que há oito dias o afligia e de uma indigestão que, na véspera, ofereceu a si próprio – a primeira indigestão da sua vida, porque sabia comer.
Resignou-se, pois, como um herói, a franquear com naturalidade o limiar da vida e a entrar no caixão de cabeça erguida; minto, porque foi enterrado numa pipa. Não disse, como Catão: «Virtude, não passas de uma palavra», nem como Gregório VII: «Fiz o bem e evitei a iniquidade, por isso morro no exílio», nem como Jesus Cristo: «Meu pai, porque me abandonaste»; morreu, dizendo simplesmente: «Adeus, divirtam-se!»
Um poeta romântico compraria um alqueire de carvão de ferro e, fazendo maus versos e engolindo o fumo, passado uma hora estaria morto; outro qualquer preferiria a algidez, e afogar-se-ia no Sena, em Janeiro; outros ainda beberiam um horroroso licor que os faria vomitar antes de voltarem a adormecer, já arrependidos da sua loucura; um mártir divertir-se-ia a derramar chumbo na boca e a dar cabo do paladar; um republicano tentaria matar o rei, falharia, e deixaria que lhe cortassem a cabeça; que pessoas estranhas! Mathurin não morreu assim, a filosofia proibia-o de causar sofrimento a si próprio.
Perguntar-me-ão porque lhe chamavam doutor. Sabê-lo-ão um dia, porque posso muito bem dar-vo-lo a conhecer mais pormenorizadamente, já que este não é mais do que o último capítulo de uma longa obra que deve tornar-me imortal, como todos as que são inéditas. Contar-lhes-ei as suas viagens, analisarei todos os livros que ele escreveu, farei um volume de notas sobre os seus comentários e um apêndice de papel em branco e de pontos de exclamação às suas obras de ciência, porque era um dos sábios mais sábios em todas as ciências possíveis. Mas a sua modéstia ultrapassava todos os seus conhecimentos, e nem se acreditava que soubesse ler; dava erros, é certo, mas sabia hebreu e muitas outras coisas. Além do mais, conhecia a vida, conhecia a fundo o coração dos homens, e não havia meio de se escapar ao juízo do seu olhar penetrante e sagaz; quando erguia a cabeça, baixava os olhos, e nos olhava de soslaio, sorrindo, era como se uma sonda magnética nos entrasse na alma e vasculhasse em todos os seus recantos.
Creio que tinha na cabeça aquela luneta dos contos árabes com que o olhar trespassava as paredes, isto é, creio que ele nos despojava de roupas e de trejeitos, de todo o verniz de virtude que colocamos sobre as rugas, de todas as muletas que nos amparam, de todos os tacões que nos fazem parecer mais altos; aos homens arrancava a presunção, às mulheres o pudor, aos heróis a grandeza, ao poeta a afectação, e às mãos sujas as luvas brancas. Mal um homem passava diante dele, dizia duas palavras, dava dois passos e fazia o menor gesto, ele entregava-no-lo nu, sem roupas e tiritando ao vento. Já algumas vezes, durante um espectáculo, à luz frouxa do lustre de mil velas, quando o público se agita palpitante, as mulheres ataviadas batem palmas, e por todo o lado há sorrisos em lábios cor de rosa, diamantes que brilham, vestes brancas, riqueza, alegria, fausto, já alguma vezes imaginaram toda aquela luz transformada em sombra, aquele ruído tornado silêncio e toda aquela vida convertida em nada, e, em vez de todos aqueles seres decotados, de peitos ofegantes, de cabelos negros entrançados sobre peles brancas, esqueletos que hão-de estar por muito tempo sobre a terra onde caminharam, reunidos assim num espectáculo para continuarem a admirar-se, para assistirem a uma comédia que não tem nome, que eles próprios representam, de que são os actores eternos e imóveis?
Mathurin fazia mais ou menos o mesmo, porque através da roupa ele via a pele, via a carne sob a epiderme, via a medula no osso, e de tudo isso exumava farrapos ensanguentados, corações podres, e muitas vezes, em corpos sãos, descobria uma horrível gangrena.
Essa perspicácia, que fez os grandes políticos, os grandes moralistas, os grandes poetas, só serviria para o tornar feliz; o que já é alguma coisa, quando se sabe que nem Richelieu, nem Molière nem Shakespeare o foram. Ele tinha vivido, guiado molemente pelos seus sentidos, sem infelicidade nem felicidade, sem esforço, sem paixão e sem virtude, essas duas pedras que desgastam as lâminas de dois gumes. O seu coração era uma cuba onde nada de demasiado ardente tinha fermentado e que ele fechara, mal a tinha considerado suficientemente cheia, deixando ainda algum lugar para o vazio, para a paz. Não era pois poeta nem padre, nem casara, tinha a sorte de ser bastardo, os amigos eram poucos e a sua adega estava bem fornecida: não tinha amantes que o provocassem, nem cão que o mordesse; tinha uma excelente saúde e um paladar extremamente delicado. Mas tenho de falar-lhes da sua morte.
Mandou chamar os seus discípulos (tinha dois) e disse-lhes que ia morrer, que estava farto de estar doente e de ter passado um dia inteiro a dieta.
Era a estação dourada dos trigos maduros; o jasmim, já branco, perfuma a folhagem do caramanchão, começa-se a arquear a vinha, as uvas pendem em cachos sobre as estacas, o rouxinol canta na sebe, ouvem-se risos de crianças nos bosques, os fenos já foram ceifados.
Oh! Outrora, as ninfas vinham dançar na planície e com as flores dos prados faziam-se grinaldas, a fonte murmurava um arrulho fresco e apaixonado, as pombas iam voar sobre as tílias. De manhã, ao nascer do sol, o horizonte é de um azul vaporoso e o vale derrama sobre as colinas um perfume fresco, ainda húmido dos beijos da noite e do orvalho das flores.
Mathurin, deitado há vários dias, dormia na sua cama. Que sonhos eram os seus? Sem dúvida como a sua vida, calmos e puros. Através da gelosia, a janela aberta deixava entrar raios de sol, a latada, trepando ao longo da parede cinzenta, unia os seus frutos maduros ao emaranhado dos ramos da clematite; o galo cantava na capoeira, os ceifeiros descansavam à sombra das grandes nogueiras de troncos atapetados de musgo. Não longe, sob os olmeiros, havia uma almofada de relva onde muitas vezes dormiam a sesta, e cuja densa verdura só era maculada por íris e papoilas. Era aí que, deitados de barriga para baixo ou sentados e conversando, bebiam juntos enquanto a cigarra cantava, os insectos zumbiam nos raios de sol, e as folhas remexiam sob o hálito quente das noites de Verão.
Tudo era paz, calma e alegria tranquila. Era ali que num total esquecimento do mundo, viviam, inactivos, inúteis, felizes. Assim, enquanto os homens trabalhavam, e a sociedade vivia com as suas leis e a sua organização múltipla, enquanto os soldados se deixavam matar e os intriguistas se agitavam, eles, eles bebiam, dormiam. Acusem-nos de egoísmo, falem de dever, de moral, ou de dedicação; digam mais uma vez que devemos consagrar-nos ao país, à sociedade; repisem bem a ideia de uma obra comum, continuem a cantar esse magnífico achado do plano do universo. Não impedirão que haja pessoas sábias e pessoas egoístas, que com a sua vida ignóbil têm mais bom senso do que vós com as vossas sublimes virtudes.
Ó homens, vós que andais pelas cidades, que fazeis as revoluções, que derrubais os tronos, que fazeis mover o mundo, e que levantais muita poeira na estrada batida do género humano para que as vossas frontes minúsculas sejam notadas, pergunto-vos se a vossa algazarra, os vossos triunfos e as vossas armas, as vossas máquinas e o vosso charlatanismo, as vossas virtudes, se tudo isso vale mais que uma vida calma e tranquila, sem outro fumo senão o de um cachimbo, sem outro fastio senão o de ter comido demais.
Assim viviam, e enquanto o sangue corria nas guerras civis, enquanto o leme do Estado era disputado por piratas e ineptos, e se partia na tempestade, enquanto os impérios se desmoronavam, enquanto se assassinava e se vivia, enquanto se escreviam livros sobre a virtude, e o Estado só vivia da magnificência dos vícios, enquanto se concediam prémios de moral e nada havia de belo senão os grandes crimes, para eles o sol continuava a fazer amadurecer as uvas, as árvores continuavam a ter as mesmas folhas verdes, continuavam a dormir sobre o musgo dos bosques, e refrescavam o seu vinho na água dos lagos.
O mundo vivia longe deles, e o ruído dos seus gritos não chegava até aos seus pés, que uma palavra trazida das cidades ter-lhes-ia perturbado a calma dos corações; nenhuma boca profana vinha beber àquela taça de invulgar felicidade, não recebiam livros, nem jornais, nem cartas, a biblioteca comum era constituída pelas obras de Horácio, de Rabelais – será preciso dizer que havia todas as edições de Brillat-Savarin e do Cuisinier? – Nem um pouco de política, nem um fragmento de controvérsia, de filosofia ou de história, nenhuma das frivolidades sérias com que os homens se divertem; diante deles não tinham sempre a Natureza e o vinho? O que lhes faltava? Indiquem-me alguma coisa que supere a beleza de um belo campo banhado de sol e a voluptuosidade de uma ânfora cheia de um vinho límpido e espumoso. Previno-os de que a resposta que vão dar os teria feito rir de compaixão.
Entretanto, Mathurin acordou: eles estavam ali, aos pés da cama; disse-lhes:
– Vamos beber, por vocês e por mim! Três copos e umas garrafas! Estou doente, já não há remédio, quero morrer, mas antes tenho sede, muita sede… Não tenho nenhuma sede de religião, nem nenhuma fome de hóstia, bebamos pois para nos despedirmos.
Trouxeram garrafas de todas as espécies e das melhores, o vinho correu a rodos durante horas, e antes da madrugada estavam bêbados.
Primeiro foi uma embriaguez calma e lógica, uma embriaguez suave que se foi prolongando lentamente. Mathurin sentia a vida escapar-se e, como Séneca, que mandou que lhe abrissem as veias e o metessem numa banheira, antes de morrer mergulhou num banho de excelente vinho, banhou o seu coração numa beatitude sem nome, e a sua alma foi direita ao Senhor, como um odre cheio de felicidade e de licor.
Quando o sol se pôs, já os três tinham bebido quinze garrafas de beaune (primeira qualidade, 1834) e feito um curso completo de teodiceia e de metafísica.
Foi nessa última conversa que Mathurin resumiu toda a sua ciência.
Viu o sol baixar para sempre e desaparecer por detrás das colinas; então, levantando-se e olhando para o poente, contemplou o campo que adormecia ao crepúsculo. Os rebanhos desciam, e as campainhas das vacas soavam nas clareiras, as flores iam fechar as suas corolas, e alguns raios de Sol desenhavam ainda sobre a terra círculos luminosos e fugazes; levantou-se a brisa da noite, e o seu sopro fez com que as folhas das vinhas batessem na caniçada; depois, chegou até eles e refrescou-lhes as faces ardentes.
– Adeus, disse Mathurin, adeus! amanhã já não verei este sol, cujos raios iluminarão o meu túmulo, depois as suas ruínas, sem nunca chegar até mim. As ondas continuarão a mover-se, e eu não ouvirei o seu murmúrio. Afinal de contas, vivi; porque não hei-de morrer? A vida é um rio, a minha correu por entre pradarias cheias de flores, sob um céu puro, longe das tempestades e das nuvens, estou na foz, lanço-me no Oceano, no infinito; dentro em breve, misturado ao tudo imenso e sem limites, já não terei consciência do meu nada. Será que o homem é algo mais que um simples grão de sal do Oceano ou uma bolha de espuma sobre o tonel do Eleitor?
Adeus, pois, ventos da tarde, que soprais sobre as rosas inclinadas, sobre as trémulas folhas dos bosques adormecidos, quando as trevas caem; palpitarão ainda por muito tempo as folhas das urtigas que hão-de crescer sobre os restos devastados do meu túmulo. Outrora, quando passava, a rir, perto dos cemitérios, e se ouvia a minha voz cantando ao longo do muro, quando o mocho andava de asa caída sobre os campanários, e os ciprestes murmuravam os suspiros dos mortos, lançava um olhar calmo sobre aquelas pedras que, juntamente com os restos dos cadáveres, encerravam toda a eternidade; para mim era um outro mundo, onde o meu próprio pensamento mal me podia transportar, no infinito de um vago devaneio.
Agora, os meus dedos trémulos batem à porta desse outro mundo, que vai abrir-se, porque é com um braço de cólera, um braço desesperado que lhes removo a aldraba.
Que venha a morte, que venha! Levar-me-á adormecido na sua mortalha, e eu irei continuar o sonho eterno sob a erva macia da Primavera ou sob a neve dos invernos, tanto faz! e o meu último sorriso será para ela, dar-lhe-ei beijos cheios de vinho, um coração cheio da vida e que não que mais vida, um coração bêbado, que não bate.
«A soberana beleza, a soberana felicidade não será o sono? e eu vou dormir, dormir sem acordar, por muito tempo, para sempre. Os mortos…»
Ao pronunciar esta erudita frase, deteve-se para beber e depois continuou:
– A vida é um festim. Há os que morrem de repente, empanzinados, escorregando para debaixo da mesa; outros, aqueles que sobre a toalha só derramam vinho e não vertem lágrimas, sujam-na de sangue e de nódoas; outros ainda, aturdidos com as luzes, com o ruído, enojados com o cheiro penetrante dos manjares, incomodados com o bulício, baixam a cabeça e desatam a chorar. Felizes os sábios, que comem demoradamente, afastam os convivas insaciáveis e os criados impudentes que os importunam com pedidos, e que, no último dia, à sobremesa, quando uns dormem e outros estão embriagados desde que o primeiro prato foi servido, quando já muitos se foram embora doentes, podem beber finalmente os vinhos mais finos, saborear os frutos mais maduros, gozar lentamente os últimos fins da orgia, esvaziar o resto, de um grande trago, apagar as velas, e morrer!
Como a água límpida que a ninfa de mármore deixa cair murmurando da sua concha de alabastro, continuou a falar assim durante muito tempo, com aquela voz grave e voluptuosa, cheia da melancolia alegre que se tem nos momentos supremos, e, como a água límpida, a sua alma transbordava dos seus lábios.
A noite chegara, pura, apaixonada, uma noite azul, luzente de estrelas; nem um som, a não ser o da voz de Mathurin falando demoradamente aos seus amigos. Eles escutavam-no, olhando-o. Sentado sobre a cama, os seus olhos começavam a fechar-se, a chama branca das velas remexia ao vento, a sombra, que ela raiava, tremia sobre o lambril, o vinho espumava nos copos e a embriaguez cintilava nas faces; sentado à beira do túmulo, Mathurin tinha aí colocado a sua garrafa, e só quando a tiver bebido é que o seu túmulo se fechará.
Que venha, pois, essa mole languidez dos sentidos, que embriaga até á alma; que ela o embale nessa lassidão infinita, que ele adormeça sonhando com alegrias infindas, dizendo também nunc pulsanda tellus; que as ninfas antigas lancem as suas rosas perfumadas sobre os lençóis tingidos de vermelho, a sua mortalha, e venham dançar diante dele uma graciosa dança de roda, e, para despedida, que venham todas as belezas com que o coração sonha, o encanto dos primeiros amores, a voluptuosidade dos beijos mais longos e dos olhares mais suaves; que o céu se torne mais estrelado e a noite seja mais límpida; que venham luzes do céu iluminar as alegrias desta agonia, tornar mais fresco e perfumado o vento, que vozes se elevem por cima da erva e cantem, enquanto ele bebe as últimas gotas da vida; que os seus olhos fechados estremeçam como sob o mais terno beijo; que, para este homem, tudo seja felicidade até à morte, paz até ao nada; que a eternidade não seja senão um leito que o embale no decorrer dos séculos!
Mas, olhem para eles. Jacques levantou-se e fechou a janela; o vento chegava até Mathurin, que começava a bater os dentes; aproximaram mais da cama a mesa redonda, o fumo dos seus cachimbos sobe até ao tecto e espalha-se em nuvens azuis, ouvem-se os seus copos chocar e as suas palavras; o vinho cai no soalho, e eles praguejam, troçam; vai ser horrível, vão morder-se. Não tenham medo, o que eles mordem é uma galinha gorda, e as trufas que se escapam dos seus lábios vermelhos rolam pelo chão.
Mathurin fala de política.
– A democracia é uma boa coisa para as pessoas pobres e grosseiras, talvez um dia se consiga, ai de mim, que todos os homens possam beber zurrapa. A partir desse dia, deixar-se-á de beber por fidelidade. Se os nobres, cuja tirania (tinham cozinheiros tão bons!)… estava eu na Revolução… Pobres monges! Cultivavam tão bem a vinha! Então Robespierre… Oh! que tipo tão esquisito, que comia vaca em casa de um marceneiro, que se conservou puro no poder, e que tem a mais execrável reputação… bem merecida! Se tivesse tido um pouco mais de espírito, se tivesse arruinado o Estado, mantido amantes com os dinheiros públicos, bebido vinho em vez de derramar sangue, seria um homem justamente, dignamente virtuoso… Dizia pois que Fourier… um texto bem bonito sobre a arte culinária… o que não impede que Washington fosse um grande homem, e Montyon algo de sobrehumano, de divino, quase de super-estúpido; seria preciso definir a virtude antes da entrega dos prémios. Concordo que todo aquele que desse uma boa definição e que, antecipadamente, a tivesse demonstrado por qualidades bem distintas, nitidamente expressas, em suma, positivas, mereceria um prémio extraordinário; ter-lhe-ia sido necessário determinar até que ponto o orgulho é um elemento de grandeza, a ingenuidade é um elemento da beneficência, marcar os limites precisos do interesse e da vaidade; teria sido necessário citar exemplos, fazer compreender três palavras incompreensíveis: moralidade, liberdade e dever, e mostrar (o que teria sido o sublime da proposição e poderia inserir-se num período erudito) como os homens são livres mesmo tendo deveres, como podem ter deveres, já que são livres; dissertar também demoradamente, na qualidade de acessório e de divagação favorável, sobre a virtude recompensada e o vício punido; afirmar-se-ia historicamente que Alexandre, Sésostris, César, Tibério, Luís XI, Rabelais, Byron, Napoleão e o marquês de Sade eram uns imbecis, e que Mardochée, Catão, Bruto, Vespasiano, Eduardo o Confessor, Luís XII, Lafayette, Montyon, o homem da capa azul, e Parmentier, e Poivre, eram uns grandes homens, uns grandes génios, uns Deuses, uns seres…
Mathurin desatou a rir, espirrando, o seu rosto ia-se dilatando, todos os seus traços se franziam num sorriso diabólico, os olhos brilhavam-lhe, um espasmo sacudia-lhe os ombros; continuou:
– Viva a filantropia! – um copo de vinho bem fresco! – a história é acima de tudo uma ciência moral, mais ou menos como a visão de uma casa de putas e a de um cadafalso cheio de sangue; todavia, os factos provam que corre tudo pelo melhor. Assim os hebreus, assassinados pelos seus vencedores, cantavam salmos que nós admiramos como poesia lírica, os cristãos, ao serem degolados, não suspeitavam de que também estavam a criar uma poesia, uma sociedade pura, sem mácula; Jesus Cristo, morto e descendo da cruz, fornece, ao cabo de dezasseis séculos, o tema para um belo quadro; as Cruzadas, a Reforma, 93, a filosofia, a filantropia que alimenta os homens com batatas e as vacas com beterrabas, tudo isso foi sendo cada vez melhor; a pólvora, a guilhotina, os barcos a vapor e as tartes à la creme são invenções úteis, confessem, quase tão úteis como o trovão; há homens reduzidos ao estado de Terras-Novas, e que estão encarregados de dar a vida àqueles que querem perdê-la, cortam-nos a planta dos pés para nos fazerem abrir os olhos, e enchem-nos de murros para nos tornarem felizes; como já não se pode andar, levam-nos para o hospital onde se morre de fome, e depois de nós o nosso cadáver ainda serve para se dizer asneiras acerca de cada uma das fibras do nosso corpo e para alimentar cachorros criados para experiências. Acreditem firmemente numa eterna Providência e no senso comum das nações. Quantos homens acreditam nisso?... O bordeaux serve-se sempre aquecido… os alimentos vão, por ordem, dos mais substanciais aos mais leves, e as bebidas vão das mais temperadas às mais fumosas e às mais perfumadas… se quiserem que uma calhandra seja boa, cortem-na pelo meio.
– E a Providência, mestre?
– Sim, creio que o sol faz amadurecer as uvas, e que uma perna de carneiro marinada é uma delícia…; nem tudo acabou e há duas ciências eternas: a filosofia e a gastronomia. O que importa é saber se a alma vai reunir-se à essência universal, ou se permanece à parte, como indivíduo, e para onde vai, para que país… e como se pode conservar por muito tempo o bourgogne… Acho que há um processo ainda melhor para se preparar a lagosta… e um novo plano de educação, mas a educação, no aspecto moral, nunca aperfeiçoa a não ser os cães. Durante anos e anos acreditei na água de Seltz e na perfectibilidade humana, agora o que me convence é o absinto; é como a vida: os que não a sabem beber fazem caretas.
– Então nega a imortalidade da alma?
– Um copo de vinho!
– A recompensa e o castigo?
– Que sabor! disse Mathurin, depois de ter bebido e cerrando os lábios sobre os dentes.
– E o que pensa do plano do universo?
– E tu, o que pensas tu da estrela de Sírius? pensas conhecer melhor os homens do que os habitantes da lua? a própria história e uma mentira real.
– O que é que isso significa?
– Significa que os factos mentem, que são e já não são, que os homens vivem e morrem, que o ser e o nada são duas falsidades numa só, que é o sempre.
– Não compreendo, mestre.
– E eu, ainda menos, respondeu Mathurin.
– Isso é muito profundo, – disse Jacques, já quase completamente embriagado, – e há nessa última palavra uma grande subtileza.
– Entre mim e vocês os dois, entre um homem e um grão de areia, entre ontem e hoje, entre esta hora e a que está para vir, não existem espaços que o pensamento não é capaz de medir e mundos de perfeitos nadas que os preenchem? Poderá resumir-se o próprio pensamento? Sentes-te dormir? e por vezes, quando o teu espírito se eleva e escapa do seu invólucro, não pensas que já não existes, que o teu corpo caiu, que caminhas no infinito, como o sol, que rolas num abismo, como o Oceano sobre o seu leito de areia, e que o teu corpo, essa coisa atormentada  que carregas contigo, já deixou de ser o teu corpo e não passa de uma vela, fustigada por uma tempestade? Começaste a duvidar da Natureza, da própria sensação? Pega num grão de areia, há nele um abismo a cavar durante séculos; apalpa-te bem para veres se existes; e quando souberes que existes, terás um infinito que não explorarás.
Estavam bêbados, não compreendiam um discurso metafísico tão longo e tão fastidioso.
– Isso significa que o homem vê tão claro dentro dele e à sua volta como se tivesse caído morto de bêbado dentro de uma pipa de vinho maior que o Atlântico. Afirmar depois que há algo de belo na criação, querer fazer um concerto de elogios com todos os gritos de maldição que soam, todos os soluços que explodem, as ruínas que desabam, é filosofia da moral, dizem eles; que rica filosofia! Ergam-me uma pirâmide de cabeças de mortos e elogiem a vida! cantem a beleza das flores, sentados numa estrumeira! exaltem a calma e o murmúrio das ondas, quando a água salgada entra pelas escotilhas e o navio naufraga: o que os olhos podem abarcar é o fragor horrível de uma agonia eterna. Vejam como a cascata que cai aos borbotões da montanha arrasta consigo os restos da planície, a folhagem ainda verde da floresta destruída pelos ventos, a lama dos ribeiros, o sangue derramado, os carros que avançavam; é algo de belo e de soberbo. Aproximem-se, escutem o horrível estertor dessa agonia sem nome, ergam os olhos, que beleza! que horror! que abismo! Vá, vasculhem, desentulhem as ruínas sem nome, e sob essas ruínas haverá mais outras, sempre; passem por cima de vinte gerações de mortos empilhados uns sobre os outros, procurem impérios perdidos sob a areia do deserto, e palácios de antes do dilúvio sob o Oceano, talvez encontrem mais tempos desconhecidos, uma outra história, um outro mundo, outros séculos titânicos, outras calamidades, outros desastres, ruínas fumegantes, sangue coagulado sobre a terra, ossadas esmagadas sob os passos.
Parou, ofegando, e tirou o barrete de algodão; os cabelos, molhados de suor, estavam colados em longas madeixas sobre a testa pálida. Levanta-se e olha à sua volta, com os olhos azuis baços como o chumbo, nenhum sentimento humano cintila nas suas pupilas, é já como que a impassibilidade do túmulo. Assim, colocado sobre o seu leito de morte e em plena orgia, calmo entre o túmulo e a devassidão, parecia ser a estátua do escárnio, com uma cuba por pedestal e olhando a morte de frente.
Agora, naquela embriaguez derradeira, tudo se agita, tudo gira e vacila; o mundo dança à cabeceira do leito de morte de Mathurin. À calma feliz das primeiras libações sucedem-se a febre e as suas quentes pulsações, febre que vai aumentando, que se vê palpitar sob a pele, nas veias azuis inchadas; os corações batem, eles sopram, ouve-se o ruído dos seus hálitos e o estalar da cama que cede aos bruscos estertores do moribundo.
Há nos seus corações uma força que vive, uma cólera que eles sentem ao subir gradualmente do coração à cabeça; os seus gestos são irregulares, a voz estridente, os dentes batem nos copos; bebem, bebem sempre, dissertando, filosofando, procurando a verdade no fundo do copo, a felicidade na embriaguez e a eternidade na morte. Esta, só Mathurin a encontrou.
Nessa noite, passou-se algo de monstruoso e de magnífico entre os três homens. Se os tivessem visto consumir assim tudo, esgotar tudo, falar dos sabores das mais puras voluptuosidades, dos perfumes da virtude e da embriaguez de todas as quimeras do coração, e da política, e da moral, e da religião… tudo passou na frente deles e foi saudado com um riso grotesco e com uma careta que lhes meteu medo; a metafísica foi tratada a fundo num quarto de hora, e trataram de moral embebedando-se com um décimo segundo copo. E porque não? se isso os escandaliza, não continuem, eu narro apenas os factos. E vou continuar, enumerando epicamente todas as garrafas vazias.
Agora é o ponche que flameja e fervilha. Como a mão que o mexe está trémula, as chamas que se escapam da colher caem sobre os lençóis, sobre a mesa, sobre o chão, e ateiam outros tantos fogos-fátuos que se apagam e voltam a acender-se. Não houve sangue com o ponche, como acontece nos romances de péssima categoria e nos cabarés onde só se vende mau vinho, e onde o povinho vai embebedar-se com aguardente de cidra.
Houve alarido, porque eles vociferavam horrivelmente; não cantam, conversam, falam alto, gritam, riem sem saber porquê, o vinho fá-los rir. E a sua alma cede à excitação nervosa, é arrastada pelo turbilhão, a orgia ferve, as velas apagaram-se, o ponche arde por todo o lado. Mathurin. Ofegante, dá um salto sobre a cama manchada de vinho.
– Vá! Continuemos, mais… sim, mais! mais kirsch, mais rum, mais água e mais kirsch, mais… peguem-lhe fogo, que arda e seja quente, a ferver… parte a garrafa, bebamos!
E quando acabou, ergueu a cabeça, altivo, e olhou para os outros dois, com olhos fixos, o pescoço esticado, a boca sorridente; tinha a camisa encharcada em aguardente, estava coberto de suor, a agonia aproximava-se. Um fumo pesado subia até ao tecto, deu uma hora, o tempo estava bom, a lua brilhava no céu por entre a bruma, a colina verde, prateada pelo luar, estava calma e dormente, tudo dormia. Recomeçaram a beber e foi ainda pior: era um frenesim, um furor de demónios embriagados.
Já não há copos nem taças; agora, os seus dedos apertam a garrafa até quase a partirem; estendidos nas cadeiras, com as pernas esticadas e numa rigidez convulsiva, a cabeça inclinada para trás, o pescoço curvado, os olhos no céu, o gargalo na boca, o vinho continua a escorrer nas suas gargantas; depois é a embriaguez total, bebem da garrafa e ficam cheios, o vinho entra-lhes no sangue e fá-lo bater loucamente nas veias; estão imóveis, olham-se com uns olhos muito abertos e não se vêem. Mathurin quer voltar-se e suspira; os lençóis enrugados entram-lhe na carne, sente as pernas pesadas e os rins cansados; está a morrer e continua a beber, não perde um instante, um minuto; convertido ao cinismo, no cinismo se moverá com todas as suas forças, e nele mergulhará e morrerá, no último espasmo da sua orgia sublime.
Com a cabeça caída para um lado, o corpo desfalecido, remexe os lábios maquinalmente, vivamente, sem articular uma só palavra; se tivesse os olhos fechados, julgá-lo-iam morto; não se distingue nada. Ouve-se o arquejar do seu peito, e ele bate-lhe com os punhos; pega ainda numa pequena garrafa e quer bebê-la.
O padre entra e ele atira-lha à cara, suja a sobrepeliz branca, faz cair o cálice, aterroriza o menino do coro, pega noutra e leva-a à boca, soltando um uivo de fera; contorce-se como uma serpente, remexe-se, grita, morde os lençóis, as unhas agarram-se-lhe à madeira da cama; depois tudo se acalma, ele volta a estender-se, fala baixo ao ouvido dos discípulos e morre suavemente, feliz, depois de lhes ter comunicado as suas últimas vontades e os seus caprichos de além túmulo.
Eles obedeceram. No dia seguinte, à tardinha, tiram-no da cama, enrolam-no nos lençóis vermelhos, pegam nele: Jacques, pela cabeça, André, pelos pés – e vão-se embora.
Descem as escadas, atravessam o pátio, o quintal cercado de macieiras, e ei-los na estrada principal, levando o amigo para um cemitério escolhido.
Era um fim de tarde de domingo, um dia de festa, um belo início de noite; toda a gente tinha saído, as mulheres com fitas cor-de-rosa e azuis, os homens de calças brancas; nas imediações da cidade, tiveram de se desviar das carroças, das carruagens, dos cavalos, da multidão, da barafunda de canalhas e de pessoas honestas que constituíam o préstimo de Mathurin, porque nunca nenhum rei teve tanta gente no funeral. Pisavam-se uns aos outros, acotovelavam-se e praguejavam, queriam ver, ver a todo o custo (e poucos sabiam o quê), uns por curiosidade, outros levados pelos vizinhos; alguns estavam escandalizados, vermelhos de cólera, furiosos; também havia quem se risse.
A um dado momento (não se soube porquê), a multidão deteve-se, como acontece nas procissões quando o padre pára num dos altares situados ao longo do percurso; eles acabavam de entrar num cabaré. Teria o morto ressuscitado e iam dar-lhe água com açúcar? Os filósofos bebiam um copo e um terceiro foi derramado sobre a cabeça de Mathurin. Pareceu abrir os olhos; não, estava morto.
Ainda foi pior quando chegaram aos arredores; entram em todas as tabernas, nos cabarés, nos cafés; a multidão está em alvoroço, as carruagens já não podem circular, pisam-se patas de cães, que mordem, e os calos dos cidadãos, que se enfadam; e a multidão avança, agita-se, anda de cabaré em cabaré, afasta-se para deixar passar Mathurin transportado pelos dois discípulos, admiram-no, porque não? Vêem-nos abrir-lhe os lábios e introduzir-lhe líquido na boca, o maxilar volta a fechar-se, os dentes tocam-se e batem inutilmente, a garganta engole, e eles continuam.
Teria sido atropelado? ter-se-ia suicidado? seria um mártir do governo? vítima de um assassínio? ter-se-ia afogado? asfixiado? teria morrido de amor? de indigestão? Um homem sensível abriu logo uma subscrição, e ficou com o dinheiro, um moralista fez uma dissertação sobre funerais e provou que as pessoas deviam ser enterradas porque até as toupeiras se enterram; falou em nome da moral ultrajada; primeiro escutaram-no, porque o seu discurso começava com injúrias, mas logo lhe viraram as costas, e só um homem o olhava atentamente: era surdo. Houve um republicano que propôs que se amotinasse o povo contra o rei, porque o pão estava demasiado caro e aquele homem acabava de morrer de fome; falou tão baixo que ninguém o ouviu.
Na cidade ainda foi pior, e a barafunda foi tanta que entraram num café para escapar ao entusiasmo popular. Os clientes ficaram muito admirados ao verem aparecer um morto no meio deles; deitaram-no sobre uma mesa de mármore, com dominós; Jacques e André sentaram-se na outra e cumpriram as instruções do doutor. As pessoas apinham-se à volta deles e fazem-lhes perguntas: de onde vêm? o que é aquilo? porquê? – nada de resposta.
– Então aposto que são padres indianos, e é assim que eles enterram a gente deles.
– Está enganado, são Turcos!
– Mas bebem vinho.
– Que rito será este? exclama um historiador.
– Mas é abominável! é horrível! – gritavam, uivavam.
– Que profanação! que horror! diz um ateu.
Um ajudante de carrasco achou que era repugnante e um ladrão afirmou que era imoral.
A partida de bilhar foi interrompida, bem como a política de café, um sapateiro suspendeu a sua dissertação sobre a educação, e um poeta elegíaco, afundado em vinho branco e repleto de ostras, ousou arriscar a palavra «ignóbil».
Foi um burburinho, um «oh!» de indignação; muitos ficaram furiosos porque os criados tardavam a trazer as bandejas; os homens de letras, que liam as suas obras nas revistas, ergueram as cabeças e praguejaram, sem mesmo falarem francês. E os jornalistas! que cólera! que santa indignação a desses palhaços literários! Houve vinte jornais que se apoderaram do acontecimento, e cada um fez sobre o assunto quinze artigos de oito colunas com suplementos, afixaram-nos nas paredes, aplaudiam-nos, criticavam-nos, faziam a crítica da sua crítica e elogios ao seu elogio; voltou-se ao Evangelho, à moral e à religião, sem se ter lido o primeiro, praticado a segunda e acreditado na terceira; para eles foi uma sorte, porque tinham tido a coragem de dizer, a doze, tolices a dois, e um deles foi mesmo ao ponto de dar uma bofetada a um morto. Que ditirambo sobre a literatura, a corrupção dos romances, a decadência do gosto, a imoralidade dos pobres poetas que têm sucesso! Que felicidade para toda a gente uma aventura daquelas, de que se tiraram tantas coisas belas, e, ainda por cima, um vaudeville e um melodrama, um conto moral e um romance fantástico!
Entretanto eles tinham saído e atravessado a cidade, por entre a multidão escandalizada e satisfeita. Quando caiu a noite, estavam fora da cidade, e adormeceram os três (sic) junto de uma meda de feno, no campo.
No Verão as noites são curtas; nasceu o dia e os seus primeiros alvores foram surgindo no horizonte; e a lua empalideceu e desapareceu na bruma cinzenta. Aquela frescura da manhã, cheia de orvalho e do perfume dos fenos, despertou-os, puseram-se de novo a caminho porque ainda tinham uma boa légua a percorrer, ao longo do ribeiro, entre as ervas, por um carreiro serpenteando como a água. À esquerda, havia o bosque, e as suas folhas molhadas brilhavam sob os raios de sol, que passavam entre os pés das bétulas, sobre o musgo; a faia agitava a sua folhagem de prata, os choupos remexiam lentamente as cabeças erguidas, os pássaros já chilreavam, cantavam, deixando esvoaçar as suas notas claras; o rio corria do outro lado, junto a uns casebres de colmo, ao longo das muralhas, e via-se as árvores deixar cair cachos de folhas e frutos maduros. 
Era a planície e o bosque, ouvia-se um vago ruído de carros nos caminhos, e o que passos faziam sobre as ervas pisadas; e aqui e ali, como cestos de verdura, ilhas lançadas na corrente, com as suas margens atapetadas de vinhedos descendo até à margem, e que as ondas vinham beijar com a lentidão harmoniosa da água correndo.
Ah! Era ali, naquele prado, entre a floresta e a corrente, que Mathurin queria dormir. Levaram-no até lá e cavaram-lhe o leito, sob a erva, não longe da latada que amarelecia ao sol e da água que murmurava sobre a areia pedregosa da margem.
Uns pescadores partiam com as suas redes e, curvados sobre os remos, impeliam o barco que deslizava velozmente; cantavam, e a sua voz ia, levada pelas águas, e o eco chegava às colinas vizinhas. Também eles, quando tudo ficou pronto, se puseram a cantar um hino de sons harmoniosos e lentos, um hino ao vinho, à Natureza, à felicidade e à morte, que partiu como o canto dos pescadores, como a corrente do rio, e foi perder-se no horizonte. O vento levava as suas palavras, as folhas vinham cair sobre o cadáver de Mathurin ou sobre os cabelos dos seus amigos. A cova não ficou funda, e a erva recobriu-a, sem pedra cinzelada, sem mármore dourado; umas tábuas de uma pipa partida, que por acaso se encontravam por ali, foram colocadas sobre o seu corpo para que os passos não o pisassem.
Depois, cada um deles tirou duas garrafas, beberam duas e partiram as outras duas. O vinho caiu aos borbotões sobre a terra, a terra bebeu-o e foi levar a Mathurin a recordação dos últimos prazeres da sua existência e aquecer a sua cabeça deitada sob a terra.
Só se viram os restos das duas garrafas, ruínas como as outras; recordavam alegrias e mostravam um vazio.

Sexta-feira, 30 de Agosto de 1839