segunda-feira, 22 de junho de 2015

Poema "As crianças doentes", de A. M. Pires Cabral



            I

As crianças doentes estão ao colo das mães
na sala de espera, amortecidas
como flores num vaso a que não se muda a água
há muito tempo
ou uma daquelas revistas cuja capa,
de tanto folheadas, se vai esfarrapando.

Soltam breves vagidos onde é possível ouvir
não só a dor, mas também
o quanto estão surpresas por estarem ali,
em vez de em sua casa ou num bosque.


            II

As crianças doentes ao colo das mães
pesam mais:
trazem disseminado pelo corpo
o peso excedentário, intruso da doença.

As mães falam desse peso com as outras mães,
comparam entre si os pesos que carregam,
suspiram, acarinham, aconchegam a roupa
das crianças doentes.


            III

Na verdade, as crianças doentes
não estão ao colo das mães.

Estão no rosto das mães, vincadas nele
como as mascarras de zarcão no rosto
de um palhaço de circo.


IV

Quando morrem, as crianças doentes
passam a chamar-se anjinhos e são dadas à terra
em pequenos ataúdes brancos.

Porque se acredita
que o branco se dissolve menos
na escuridão do novo ambiente,
conserva intacta a candura em que morreram.

(Porque morrem as crianças doentes?)

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A. M. Pires Cabral

(Este poema foi publicado em primeira mão no blog paosointegral.blogspot.com, de David Rodrigues)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Memórias Póstumas de Brás Cubas


O SENÃO DO LIVRO

«(...) o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...»

Machado de Assis


sexta-feira, 12 de junho de 2015

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Carlos Ascenso André sobre Tibulo e o 'Amor em Roma'

"Poemas (Cantos de amores)", de Tibulo, é a mais recente edição dos Livros Cotovia, com tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Entrevistado por Luís Caetano, no programa A Força das Coisas (Antena 2), o tradutor e autor desenvolve o tema do Amor em Roma, numa conversa abrangente e com novidades.
«Tibulo escreve poesia bela, poesia de amor. Não tem os arrebatamentos de Catulo ou de Propércio, e também não tem a pele, o prazer físico de Ovídio, mas tem beleza, muita beleza. E a dificuldade de traduzir este texto é exatamente reproduzir a qualidade lírica de Tibulo.»

Ouça aqui o programa: 
http://www.rtp.pt/play/p321/a-forca-das-coisas


Tibulo regressa a casa de Delia


terça-feira, 9 de junho de 2015

NOITES DO MÊS DE JUNHO


[A Luis Cernuda]


Por vezes lembro-me
de certas noites de junho daquele ano,
quase esvaídas, da minha adolescência
(era em mil novecentos suponho
e quarenta e nove)
                              porque nesse mês
sentia sempre uma inquietação, uma pequena angústia
como o calor que principiava,
                                                nada mais
que a especial sonoridade do ar
e uma disposição vagamente afectiva.

Eram as noites irremediáveis
                                               e a febre.
As altas horas de estudante só
e o livro intempestivo
junto à janela de par em par aberta (a rua
recém-regada desaparecia
em baixo, entre a ramaria iluminada)
sem uma alma para levar à boca.

Quantas vezes me lembro
de vós, tão distantes
noites do mês de junho, quantas vezes
me saltaram as lágrimas, as lágrimas
por ser mais que um homem, quanto quis
morrer
            ou sonhei vender-me ao diabo,
que nunca me escutou.
                                     Mas também
a vida domina-nos porque precisamente
não é como a esperávamos.


Jaime Gil de Biedma, in Antologia Poética