segunda-feira, 13 de abril de 2015

Como viver?


A habitual leitura de jornais britânicos online trouxe -me a não -notícia de que a Universidade de Harvard conduziu um estudo cuja conclusão demonstra de forma “científica” que o que faz o ser humano feliz é o amor. Devo dizer que bocejei de imediato assim que acabei de ler o artigo (terá sido no Guardian? no Telegraph? já não me lembro), porque a conclusão não constitui qualquer novidade. A pessoa feliz já é descrita, antes da era cristã, no grande texto espiritual em sânscrito Bhagavad Gita
(12.19) como sendo indiferente a elogios e insultos, capaz de estar em silêncio, capaz de encontrar contentamento em cada situação e estando sempre “cheia de amor”. A tradição cristã também nos ensina que a opção de vida que nos é mais benéfica é amarmos o próximo como a nós mesmos. Portanto a “prova” vinda de Harvard — de que as pessoas mais felizes são as que amam os seus pais, filhos, cônjuges e namorad@s — não corresponde propriamente à descoberta da pólvora.
Deixemos, por conseguinte, as alegadas descobertas da ciência e, para percebermos qual é a melhor maneira de vivermos a nossa vida, consultemos antes esse maravilhoso texto acima referido da tradição hindu. Ora a Bhagavad Gita diz -nos muitas coisas surpreendentes e desconcertantes, mas nenhuma, no meu entender, é mais surpreendente do que esta: o essencial, na vida, é arredarmos de todas as nossas acções o proveito próprio. Nada do que empreendemos, nada do que fazemos deve ter como objectivo o nosso próprio benefício. Pelo contrário, tudo o que fazemos deve ser feito tão -somente pelo valor intrínseco da acção em si.
A minha própria experiência de vida tem-me ensinado de forma muito pragmática que nada nos dá uma sensação tão agradável como empreendermos uma tarefa cujo benefício irá reverter a favor de outrem. Por outro lado, constatamos tantas vezes que acções empreendidas com base numa expectativa de proveito próprio acabam por não redundar em nosso benefício. Na verdade, todas as acções que empreendemos para beneficiar os outros, em vez de nos deixarem de mãos vazias, deixam -nos mais ricos, pois é delas que advém a felicidade mais pura. O tal amor que (segundo o estudo de Harvard) nos faz mais felizes é justamente aquele que nada pede em troca.
Como complemento à fórmula da felicidade proposta pela Bhagavad Gita, poderíamos ainda compulsar o indispensável Mundo como Vontade e Representação de Arthur Schopenhauer e determo -nos um pouco no capítulo 38 do Livro III. Segundo Schopenhauer, aquilo que nos leva a agir em proveito próprio é a vontade. “Todo o querer”, escreve o grande filósofo, “advém da carência, portanto do sofrimento”. A sensação de carência — esse abismo hiante dentro de nós mesmos — leva -nos a procurar realidades e circunstâncias que a mitiguem; mas (como diz
Schopenhauer) cada vez que satisfazemos um desejo que alegadamente nos iria fazer felizes damo-nos conta de que ficaram no mínimo dez desejos ainda mais vorazes por satisfazer. As nossas necessidades e desejos canibalizam -nos. O sentimento da sua satisfação é — ironia das ironias — evanescente e ilusório. Sob esta perspectiva, agir em proveito próprio nunca nos traz a saciedade,
nunca preenche um único milímetro cúbico que seja do vazio de carência devoradora com que viemos ao mundo.
Como antídoto a este ciclo vicioso de auto -canibalização e de pseudo-saciedade, Schopenhauer propõe a contemplação serena e desinteressada da obra de arte. Entregarmo-nos a ela, perdermo-nos na beleza do objecto contemplado obriga -nos a desviar a atenção de nós mesmos. De repente, não somos nós os importantes: é a pintura que temos diante dos olhos; ou a obra musical que, por meio dos ouvidos, nos penetra na consciência.
Auguste-Gabriel Godefroy pintado por Jean-Baptiste-Simeon Chardin
Ora, um relevante contraponto a esta visão de Schopenhauer é a visão que nos é dada pelo poeta grego Teócrito, que no século III antes de Cristo escreveu um poema em que procurou simbolizar a atenção absorta do artista na criação da sua obra de arte. Este poema descreve um belo artefacto, altamente valioso, que é uma taça cinzelada, na qual vemos várias imagens. Uma dessas imagens mostra -nos um rapazinho, alheado de tudo e de todos, a tecer uma pequena gaiola para nela conter um grilo. O som estrídulo do canto do grilo é, no imaginário grego, simbólico da perfeição requintada que deve estar presente em cada obra de arte. O rapazinho do poema esquece -se do proveito material — que é a vinha que seria sua responsabilidade guardar —, completamente concentrado no entretecimento de um artefacto que, em rigor, não serve de nada. Entretanto (diz -nos o poeta) a vinha fica à mercê das raposas que a devastam. O rapazinho nem se dá conta.
Muitos séculos mais tarde, o pintor francês setecentista Chardin dá -nos uma imagem análoga de concentração e de alheamento no retrato que pintou do jovem Godefroy entretido na contemplação “schopenhaueriana” de uma acção que, livre do estigma do proveito directo, evoca um desprendimento do real que me parece bem hindu. Quanto menor o proveito para mim da acção por mim empreendida, mais me fará feliz.

O Lugar Supraceleste, de Frederico Lourenço 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A cultura é cara? Experimentem a ignorância



Porque continua a ser tão difícil passar a ideia de que o investimento na cultura fica muito mais barato do que o não -investimento?
Talvez porque, a pretexto dos valores intrínsecos e da opacidade (verdadeira) da criação artística, o seu financiamento apareça como obscuro por não ser comunicado, publicitado ou defendido com a clareza desejável para o comum cidadão contribuinte.
Este título foi retirado de uma tabuleta na vitrina de Gwrizienn Café -Librairie (livraria na comuna de Bécherel, na Bretanha), uma das 18 livrarias — a maioria alfarrabistas — que, juntamente com uma padaria e dois cabeleireiros, constituem o comércio local desta comuna francesa nascida na Idade Média e que actualmente tem uma população de 750 habitantes. Lugar de peregrinação dos bibliófilos europeus que, a par dos compradores ocasionais e das vendas pela Internet, a transformaram num caso de sucesso económico e de auto -sustentação para os comerciantes e a localidade. Mas nem sempre foi assim.
Tudo começou em 1989, e se esta cité du livre — uma das oito localidades francesas que reivindicam a designação — mereceu destaques recentes, nomeadamente no jornal “Le Monde”, tal deve -se à persistência, à organização, à imaginação na escolha, na diversidade e na promoção dos acervos (que vão da banda -desenhada ao livro bretão), ao espírito de entreajuda e de agrupamento de livreiros e à
defesa da singularidade dos seus mercados, tanto junto dos grandes monopólios como das direcções regionais do Estado francês. Tudo isto fez o sucesso destes livreiros que, “sem venderem a alma ao diabo, são livreiros felizes”, como os próprios dizem.
Não é um exemplo único de capacidade de criação, de produção e de comunicação na área da cultura. Só na área cultural dos livros poderíamos apontar muitos outros exemplos, como Fontenoy -la -Joûte, com 15 livreiros e 300 habitantes, ou, numa escala bem maior, o sucesso e a importância cultural do Festival de Literatura de Edimburgo ou da febril e brasileira FLIP (Festa Literária Internacional de
Paraty), em que, durante quatro dias, 30 mil a 40 mil leitores ocupam uma pequena vila turística e piscatória pagando para ouvir falar de livros.
Qualquer destes casos implica uma relação com o dinheiro, está portanto atravessado pelas leis da economia e envolve custos para os leitores, investimento dos livreiros, dos patrocinadores e das diversas instâncias dos Estados dos países onde o evento tem lugar. Um dos exercícios importantes a fazer a partir deste caso de estudo prende -se com a necessidade inescapável de haver investimento e custos na cultura. Imagina -se quão pobres, quão entediantes, quão menos importantes seriam a França, a Escócia, o Brasil e o mundo sem estes lugares de formação e preservação da cultura? Quanto mais custaria, de facto, a ignorância provocada pela inexistência destes e de outros lugares: festivais de cinema, cinematecas, mostras de dança, museus, centros de interpretação, lugares de observação científica, tantos outros lugares de formação da humanidade? 
Então, porque continua a ser tão difícil transmitir esta ideia simples de que o investimento financeiro na cultura sai muitíssimo mais barato do que o não -investimento?
Uma das razões está no facto de o termo “Cultura” ter perdido eficácia. Ao falar de Cultura, a pergunta imediata pode ser: que cultura? Depois, importa reconhecer que o impacto da cultura é muito subjectivo, pelo que o seu valor intrínseco é de difícil prova. Assim, urge encontrar o vocabulário certo e adequado aos dias de hoje, o que exige outro tipo de argumentação.
Essa mudança de vocabulário que deve exigir -se agora a muitos artistas e autores implica a passagem de uma postura reactiva e de uma linguagem de vitimização para uma atitude pró -activa e com uma linguagem mais consonante com o equilíbrio entre direitos e deveres.
Haverá muitas razões para a ineficácia dos argumentos tradicionais sobre o valor da cultura. Uma das maiores é confundir tudo num único argumento reduzido à expressão corriqueira do “dever do apoio às artes”. Assim, sem mais justificação.
Outros maus argumentos contribuem para este bloqueio: o de que os desígnios de todas as actividades artísticas e/ou culturais são os mesmos e universais, com o mesmo tipo de consequências directas na vida dos cidadãos. Ora, os direitos e deveres dos seus protagonistas variam conforme os países e sobretudo conforme a área da expressão cultural. Por mais que se queira insistir por hábito, por comodismo ou por corporativismo que o apoio financeiro à cultura artística deve ser um dever indiferenciado, há diferenças fulcrais entre o meio do cinema e o dos livros, para dar dois exemplos.
Nesses dois meios, que aliás têm em comum o facto de poderem (ainda que não necessariamente) ser decorrentes de mecanismos industriais, existem diferenças abissais: de custos de produção, de custos de divulgação, de mecanismos de difusão e de recepção, de custos nos mecanismos de distribuição intermédios, de número de cópias, de condições psicológicas e de tempos de recepção e de acolhimento por parte dos últimos destinatários.
O mesmo se poderia dizer das diferenças entre meios equivocamente tão semelhantes quanto são os museus de arte antiga e as colecções de arte contemporânea, a começar pela sua criação. Os museus de arte antiga, de forma geral, já “existem”, por isso têm tradições de funcionamento e de constituição de acervos que pouco têm a ver com a constituição dos novos acervos de colecções de arte contemporânea.
Os saberes técnicos e de difusão exigem especificidades e até as questões de natureza ideológica envolvidas são diferenciais e podem ser conflituosas, como as condições de acolhimento e de conservação. Implica isto uma guerra de géneros artísticos ou um divórcio de comunidades? Não
necessariamente, e até pode haver excelentes especialistas de banda -desenhada que o são também de história de arte antiga. Mas serão raros e saberão distinguir os problemas e as singularidades de cada género e a forma como comunicam com os seus destinatários sobre os mesmos.
Esta diversidade de géneros tem reflexo na diversidade fria das receitas e dos públicos — e este é um facto que a linguagem política deve colocar como vantagem quando se abordam os ganhos da cultura. Deveria haver um Ministério da Cultura para cada um dos géneros em causa?
Poderia parecer que sim, não fora o facto de os ministérios da cultura não deverem ter como objectivo prioritário serem ministérios das artes mas antes organizações de gestão transversal cujo objectivo maior consiste em possibilitar a fruição artística e cultural dos cidadãos através do
apoio à criação e difusão da cultura artística.
No que diz respeito à relação dos poderes do Estado com as artes e com as actividades culturais, é muitas vezes incompreensível e sobretudo pouco transparente para o cidadão contribuinte a forma como os apoios são dados (de uma forma geral em toda a Europa). A pretexto dos valores intrínsecos e da opacidade (verdadeira) dos projectos ou dos trabalhos, muitas decisões aparecem como obscuras,
não sendo comunicadas, publicitadas ou defendidas com a clareza e a linguagem que seriam desejáveis para o cidadão comum.
É claro que há valores intrínsecos às obras de arte e de culto que não podem ser contabilizados com os critérios dos apoios financeiros à agricultura, à defesa, à saúde pública. Por isso, mais necessário é que todos os intervenientes nas políticas culturais comuniquem bem os mecanismos de financiamento ou de selecção de projectos. Mesmo, repita -se, e repita -se até à exaustão, que toda a dimensão artística possa ser um encontro privado entre o cidadão e a obra, e mesmo que toda a obra e toda a actividade cultural impliquem um elevado grau de opacidade e até de mistério.
Salvaguardando estas características e estes valores intrínsecos traduzidos radicalmente na arte conceptual ou na poesia experimental, no documentário ou no cinema de autor, nas monografias e nas iluminuras, no teatro beckettiano ou na escrita esotérica de Gabriela Llansol, etc., etc., a cultura artística, literária e científica pode contribuir para capacitar as pessoas para a sua vida privada ou profissional, para comunicar o que noutras linguagens se afigura incomunicável, e para múltiplas aplicações, entre as quais a de uma experiência privada e íntima de realização, que justificam que, no seu conjunto, a cultura custe dinheiro — e custe dinheiro a todos nós, que somos os seus beneficiários.


in Miscelânea. de António Pinto Ribeiro

terça-feira, 7 de abril de 2015

A navalha de Palaçoulo, de A. M. Pires Cabral

Deixamos aqui um excerto - para abrir o apetite - da nova edição dos Livros Cotovia: "A navalha de Palaçoulo", de A. M. Pires Cabral (Contos).


«Pedi uma bica e dispus-me a observar discretamente o Poeta.
O Poeta, de quando em quando, parava de escrever e relia o poema e não parecia particularmente satisfeito com ele. Às vezes levantava os olhos do papel e olhava na direcção do tecto, absorto, indiferente ao bulício do café em hora de ponta. Devia acreditar que alguma coisa interessante esvoaçava no ar, à semelhança das moscas, e, à semelhança dos camaleões, esperava fisgá-la com um golpe certeiro de língua - perdão, de génio. E na verdade fisgava, porque subitamente pegava resoluto na esferográfica - ah, e como eu teria desejado do fundo da alma, santo Deus, que se estivesse servindo de uma velha e gorda Pelikan de tinta permanente, em vez de uma Bic baratucha! -, riscava uma palavra ou mesmo um verso inteiro e substuía-os por algo melhor que acabara de fisgar. Por vezes tamborilava no tampo da mesa algum metro mais renitente.
Visto do sítio privilegiado onde eu me encontrava, o poema parecia agora um emaranhado de riscos e rabiscos, que só o seu autor entenderia, por certo. E, com efeito, passada quase uma hora, o Poeta pareceu dar-se por satisfeito. Imaginei então que, aprisionada naquela martirizada folha de papel e naquelas estrofes trabalhosas, estivesse agora alguma Inês - uma bela, cantável e provavelmente ingrata Inês. Ou Mécia.
O papel estava visivelmente mais pesado. Era o peso da imortalidade.»


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Enterrar Jesus


O grande problema da celebração da Páscoa para não crentes é a terceira das suas três etapas (sendo elas: crucificação; deposição no túmulo; ressurreição). Para quem prefere manter uma posição céptica e distanciada relativamente ao modo como o Novo Testamento narra a biografia de Jesus, custa aceitar a ideia de que o homem a quem injustamente torturaram e mataram supera milagrosamente o horror do que lhe aconteceu ressuscitando ao terceiro dia. O horror da última sexta-feira da sua vida é crível: é 100% consentâneo com o horror da realidade humana. O sentimento (de perda, de exaustão emocional e de infinita tristeza) vivido pela mãe do defunto e pelos seus amigos é compreensível, necessário e intensamente humano. O que acontece de sábado para domingo – o inexplicável regresso à vida depois da morte – obriga a um salto de raciocínio que a Razão trava à partida. Só podemos aceitar a ideia de que à morte se segue a vida (ainda para mais eterna) se aceitarmos que isso só pode fazer sentido num plano irracional.
Mas permaneçamos no terreno do racional. O Evangelho de Mateus (29: 57) conta como um homem de Arimateia chamado José se dirigiu a Pilatos e obteve dele a permissão para enterrar o corpo de Jesus. “José tomou o corpo” (escreve o evangelista) “envolveu-o num lençol limpo e depositou-o num túmulo novo, que tinha mandado talhar na rocha”. O laconismo discreto das palavras de Mateus não deixa espaço para a consideração do estado emocional de José; das duas mulheres (ambas de nome Maria) que o evangelista inclui neste episódio diz-se apenas que ficaram sentadas em frente do sepulcro. Mas facilmente conseguimos imaginar o estado de espírito com que permaneceram ali sentadas: esse estado de choque, decorrente do luto profundo, foi descrito por um poeta em Roma mais ou menos na altura em que Jesus teria 8 anos de idade. A mulher enlutada descrita por esse poeta queda-se, imóvel, com o rosto pálido e sem pinga de sangue, com os olhos parados e a língua congelada dentro da boca (Ovídio, Metamorfoses 6, 303-6). O horror daquilo a que as duas Marias tinham assistido no lugar chamado Gólgota outra coisa decerto não permitiria.
Quanto às emoções de José de Arimateia, essas só 1700 anos depois é que encontrariam quem as soubesse intuir e descrever. Não apenas por palavras, mas acima de tudo por música. “Quero ser eu a enterrar Jesus” canta o solista da última das quatro árias para Baixo da “Paixão Segundo São Mateus” de Johann Sebastian Bach. “Faz-te puro, meu coração”.
Que sentido tem esse “quero ser eu a enterrar Jesus?” De que serviu declarar isto numa igreja em Leipzig mais de 1700 anos após o acontecimento? E de que servirá hoje, quase 2000 anos depois, a um ex-católico não-crente como eu a ideia de que continua válido o sentimento de responsabilidade individual experimentado por José de Arimateia no enterro de Jesus? Quero ser eu a enterrar Jesus porquê? Que significado tem para mim esse gesto?
Para o não-crente, a acção de José de Arimateia – o Enterro de Jesus – é justamente o momento da história pascal que mais apela à sua participação. Se eu tenho dúvidas que Jesus tenha sido filho de Deus, se eu tenho dúvidas de que exista Deus, claramente não me faz sentido a “forte união ao sacrifício de Cristo na cruz” (que, já agora, um padre católico me recomendou em tempos como “cura” para a homossexualidade). Muito menos me fará sentido a ressurreição. Enterrar Jesus é outra coisa. É um gesto de desvelo, de homenagem a este homem que poderá (ou não) ter caminhado sobre a água, que terá conseguido (ou não) restituir a visão aos cegos e que terá feito (ou não) a multiplicação de pães. Foi um homem que morreu traído por um amigo e renegado por outro; foi um homem que teve a coragem de criticar fariseus, de escorraçar vendilhões e que afirmou “em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no Reino do Céu” (Mateus 19: 23). Pregou o amor ao próximo, chamou “filhos de Deus” aos que promovem a paz e prometeu o “Reino do Céu” aos que sofrem perseguição por causa da justiça.
Dar, como José de Arimateia, enterro condigno a este homem é – independentemente da religião que se formou em seu nome – homenagear o melhor que existe na natureza humana. Ao mesmo tempo, é voltar ao minuto zero, ao pré-Cristianismo, antes de Jesus ter (ou não) ressuscitado dos mortos: é voltarmos atrás na História, ao último momento em que nos podemos concentrar apenas nele – na sua vida e na sua morte. Antes da sua ressurreição. Antes de outros se terem interposto entre ele e nós e antes da fixação da igreja na figura mediadora de Maria. Pois este momento da deposição no túmulo permite-nos esquecer tanto São Paulo como todos os protagonistas vindouros das lutas assassinas entre seitas cristãs; permite-nos esquecer Constantino, Justiniano, os Reis Católicos, Luís XIV, D. João V, Pinochet e todos os outros autócratas e plutócratas a quem a acomodatícia igreja de Cristo sancionou o devaneio de que professavam uma religião inspirada na vida de Jesus; permite-nos esquecer papas e inquisidores, católicos e luteranos, ortodoxos e calvinistas. Permite-nos esquecer dogmas e concílios, teólogos e missionários, conversões forçadas e autos-de-fé, Fátima e outras árvores-das-patacas similares.
Estarmos, uma vez por ano, ao lado de José de Arimateia a enterrar Jesus (e a sentir o luto intenso pela sua morte tão injusta) é homenagearmos a vida dele. E homenagearmos a vida de Jesus é o primeiro passo na percepção de que, em última análise, somos nós que podemos (por meio da forma como vivemos a nossa própria vida) assegurar que a vida admirável deste admirável defunto não tenha sido vivida em vão.

Frederico Lourenço



(“Deposição de Cristo” por Adriaen van der Werff)