quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello


Sobre o autor: 
Luigi Pirandello (Agrigento, 1867 - Roma, 1936) foi um dos mais importantes escritores e dramaturgos italianos. Ganhou, em 1934, o Prémio Nobel de Literatura. Nasceu numa família burguesa e seguiu estudos de filologia romântica, primeiro em Roma e depois em Bona.



A efemeridade do instrumento da criação e a eternidade da criatura:

«ENTEADA (avançando em direcção ao DIRECTOR com um sorriso sedutor) Acredite, senhor, somos verdadeiramente seis personagens e muito interessantes por sinal! Mesmo se perdidas.

PAI (afastando-a) Sim, 'perdidas' é a palavra! (Ao DIRECTOR, com vivacidade:) No sentido em que o autor, uma vez nos tendo criado vivos, não mais desejou, ou pôde, colocar-nos materialmente no mundo da arte. E isso foi um verdadeiro crime, pois aquele que tem a sorte de nascer personagem viva pode troçar até da morte. Nunca morrerá. O homem, o escritor, simples instrumento da criação, pode morrer. A sua criatura jamais! E para viver eternamente não tem necessidade de dons extraordinários, nem de fazer prodígios. Quem foi Sancho Pança? Quem foi Don Abbondio? E porém são eternos, porque, sendo gérmenes vivos, tiveram a fortuna de encontrar uma matriz fecunda, uma imaginação que soube erguê-los, amamentá-los, fazê-los viver para a eternidade!

DIRECTOR Isso é tudo muito bonito, mas o que é querem ao certo?

PAI Queremos viver!»



Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello (trad. Daniel Jonas)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Janelas Altas, de Philip Larkin


DINHEIRO

Cada três meses, talvez, o dinheiro censura-me:
"Porque me deixas para aqui sem me dar uso?
Sou tudo o que nunca tiveste em bens e em sexo.
Ainda os podias gozar se passasses uns cheques."
Olho então para os outros, vendo o que fazem com o deles:
Não o guardam no colchão, com toda a certeza.
Já vão na segunda casa e mulher e carro:
Que dinheiro tem algo a ver com a vida, fica claro
- De facto, têm muito em comum, se virmos bem:
Não se pode adiar para a reforma o ser-se jovem;
E pondo a queca no banco, o dinheiro a poupar
Só compra um último serviço: que nos venham barbear.
Escuto o canto do dinheiro. É como contemplar,
Do alto de amplas janelas, uma vila de interior:
Os casebres, o canal, a barroca e doida igreja
Ao sol do fim da tarde. É uma imensa tristeza.


Philip Larkin, in Janelas Altas (trad. Rui Carvalho Homem)



 Jackson Pollock, Silver Over Black, White, Yellow, and Red (1948)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Três Homens de Bicicleta, de Jerome K. Jerome


No dia a dia, andamos de bicicleta ou passamos o tempo a afiná-la?

«Há só duas maneiras de fazer exercício com uma bicicleta: pode-se "afiná-la", ou pode-se andar nela. Mas não tenho a certeza que um homem que se decida pelos prazeres da "revisão" não fique com a melhor parte. Não está dependente do tempo e do vento; não se incomoda com o estado das estradas. Dêem-lhe para a mão um martelo, uns trapos, uma lata de óleo e uma coisa para se sentar, e fica ali entretido o dia todo. É verdade que tem de suportar alguns contratempos. Não há bela sem senão. Ele próprio anda sempre sujo como um picheleiro e a bicicleta parece que foi roubada, e se fez o possível por disfarçá-la; mas como nunca se afasta para muito longe com ela, acaba por não ter muita importância. O erro de alguns é considerar que se conseguem os dois tipos de exercício com a mesma bicicleta. O que é impossível; não há nenhuma máquina que aguente tamanha exigência. Tem de se decidir se queremos ser "afinadores" ou ciclistas. Pessoalmente, prefiro andar de bicicleta e por isso tenho o cuidado de não ter à mão nada que me possa tentar afinar.»














Três Homens de Bicicleta, de Jerome K. Jerome (trad. Luísa Costa Gomes)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Cassandra, de Christa Wolf




«(...) vivi como nunca uma vida de aparências. Ainda me lembro de como a minha vida se me escapava. Não vou conseguir, pensava muitas vezes, sentada na muralha, fixando o horizonte de olhar vazio, e sem poder saber o que tornava tão difícil a minha existência fácil.
Não via nada. A sobrecarga do dom visionário cegava-me. Via apenas o que estava à vista, o mesmo que nada. A minha vida decorria - também poderia dizer: morria - ao ritmo anual do serviço do deus e das obrigações no palácio. Não conhecia mais nada. Vivia de acontecimento para acontecimento e isso, ao que parecia, era o que ia fazendo a história da casa real. Acontecimentos que provocam o desejo de mais acontecimentos, e por fim da guerra.»



Cassandra, de Christa Wolf (trad. João Barrento)










terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Histórias de Imagens, de Robert Walser





SONETO A UM QUADRO DE BOUCHER

Esta simples demora e este olhar,
esta serena comunhão ao ar livre
leva-os a ser benditos na terra.
Ele olha a mais bela das mulheres.

O que há de mais belo que tal confiança,
tal calma prosperidade a dois
em Maios de magníficos céus azuis,
em tapetes macios de verdes prados?

A dama está vestida de pastora,
parece encantada com a sua dedicação
olhando ao longe como uma deusa,

liberta do quotidiano, do negócio, das preocupações.
Aceita com prazer o amor do amado,
permitindo amavelmente as suas carícias.




Histórias de Imagens, de Robert Walser