quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

"The Cats Will Know"


A nossa gata Maravilhas e um poema de Pavese:


THE CATS WILL KNOW

Ainda cairá a chuva
sobre as lisas pedras
das tuas ruas, uma chuva leve
como um sopro ou uns passos.
Ainda a brisa e a aurora
florirão leves
como se tu passasses,
quando regressares.
Entre flores e varandas
os gatos sabê-lo-ão.

Outros dias virão,
haverá outras vozes.
Sorrirás sozinha.
Os gatos sabê-lo-ão.
Ouvirás palavras antigas,
palavras cansadas e vãs
como os trajes murchos
das festas de ontem.

Também tu farás gestos.
Responderás palavras -
rosto de Primavera,
farás gestos também tu.

Os gatos sabê-lo-ão,
rosto de Primavera;
e a chuva leve,
a aurora da cor do jacinto,
que dilaceram o coração
de quem não mais te espera,
são o sorriso triste
que sorris sozinha.
Outros dias virão,
outras vozes, outros despertares.
Sofreremos na madrugada,
rosto de Primavera.


Cesare Pavese in Trabalhar Cansa (trad. Carlos Leite)

Ensaios Escolhidos, de T.S. Eliot


No semanário O Diabo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Bernardo Carvalho sobre o caso "Charlie Hebdo"


O Paraíso dos burros


Em algum momento da minha adolescência, provavelmente por eu ser gay e mais reprimido que meus coleguinhas heterossexuais, transformei uma edição de “Paulette”, de Wolinski e Pichard, na minha revistinha de sacanagem. Todos ao meu redor liam revistinhas pornográficas, só eu não encontrava a minha. Embora meus pais não fossem religiosos, o moralismo católico do mundo no qual eu havia sido criado já tinha feito seus estragos. Eu era um pequeno covarde. Era inconcebível que eu fosse atrás de pornografia abertamente homossexual.
“Paulette” não era bem uma representação do meu desejo, mas pelo menos entre os protagonistas havia um velho tarado que, nostálgico de sua juventude, acabava transformado no próprio objeto de seu desejo (“une gonzesse!”) por obra de uma toupeira com poderes mágicos mas cega a ponto de não distinguir os gêneros. E, sobretudo, havia a possibilidade de encarar todo tipo de desejo, sem discriminação, com a leveza libertária de um humor sem freios. Uma adolescência sem “Paulette” teria sido infinitamente mais pobre e mais infeliz.
A notícia da morte de Wolinski e de seus companheiros, assassinados a tiros de kalashnikov por dois terroristas islâmistas, me pôs num estado de profunda irritação. Por ser absurda e impensável, claro. Mas também pela estupidez do ato. Mais que triste, fiquei furioso. Não sou humorista. E não consigo imaginar como as próprias vítimas reagiriam se tivessem sobrevivido. Só a capa do número de “Charlie Hebdo”, de fevereiro de 2006, agora reproduzida por toda parte, na qual se vê Maomé chorando e dizendo “C’est dur d’être aimé par des cons!”, foi capaz de me trazer de volta à calma e me fazer rir. Com uma única frase redentora, o desenho de Cabu ataca o terrorismo e desvincula a burrice da religião. É o que se pode chamar de bom senso. Não há nada mais ameaçador para a burrice do que se ver só diante do que ela não compreende, sem a chancela de uma ideologia.
Toda ideologia pressupõe certo grau de manipulação e de instrumentalização da burrice, ainda mais quando essa burrice é consequência de uma absoluta falta de perspectivas e foi confrontada com os horrores de uma guerra cheia de contradições. Toda igreja precisa de idiotas. Não passaria pela cabeça dos terroristas que invadiram a redação do “Charlie Hebdo” na semana passada, evocando Deus e dando munição para as teses e ambições da extrema direita, dirigir suas kalashnikovs contra a extrema direita islamofóbica. São dois extremos que se tocam, se reconhecem e se completam, compartilhando um mundo maniqueísta, reduzido ao medo, à paranoia, às imposturas fascistas e aos sofismas para explicar o que nem sempre é tão simples.
Entretanto, a burrice não precisa recorrer à violência para se fazer cúmplice dela. Como era de se esperar entre as primeiras reações no Brasil, os equivalentes locais de Zemmour logo vieram a público para defender seu direito à liberdade de expressão, como se em algum momento tivessem corrido o risco de perdê-lo. Em 2005, depois de o jornal dinamarquês “Jyllanos-Posten” provocar a ira dos fundamentalistas islâmicos com os desenhos de Kurt Westergaard, o diretor de jornalismo de uma das principais redes de televisão brasileira vetou a reprodução das charges durante o noticiário da emissora, com a desculpa sempre tão oportuna de não ofender a crença dos outros. Bastaria um mínimo de inteligência para ele entender que estava dando um tiro no pé, massacrando os princípios fundamentais que garantem o exercício da sua profissão.
Quando entrou na corrida presidencial, em 2014, a candidata evangélica Marina Silva disse estar determinada a acabar com a “discriminação”, embora continuasse a discriminar os homossexuais, recorrendo a Deus para justificar a posição irracional de não lhes conceder os direitos básicos de todo cidadão, como o casamento. O que faz pensar que a discriminação à qual ela se referia talvez dissesse respeito apenas a algum tipo de ofensa sofrida por seus pares evangélicos.
Não existe democracia sem direito à blasfêmia. É uma equação lógica. Se a democracia garante a liberdade de culto, está pressuposto que nem todos na sociedade estarão submetidos aos ditames e às normas estabelecidos pelos cultos, podendo dizer o que bem entenderem sobre esta ou aquela religião quando bem lhes aprouver. É o preço a ser pago pelas religiões. E convenhamos que não é um preço alto. Quem pensa em “proteger” os crentes das palavras que contrariam suas crenças pensa contra a democracia.
Por isso, as manifestações que tomaram as cidades francesas em repúdio ao massacre do “Charlie Hebdo” têm uma importância fundamental para países como o Brasil. É preciso que a determinação dos franceses seja vista e ouvida não só pelos integristas islâmicos, mas também pelos fundamentalistas de todas as igrejas – católicos, evangélicos, ortodoxos, judeus etc. – no Brasil, nos Estados Unidos, na África, na Rússia e em todo o mundo. E é preciso fazer coro a essa determinação.
Lá pelas tantas na minha revistinha de sacanagem, Paulette é levada pelos pais a uma reunião de uma seita de vigaristas onde ela comete o sacrilégio de rir da representação do Paraíso: “Mais qu’est-ce que c’est que ce cinema insensé?”. Como castigo à blasfêmia, acaba sendo jogada no Paraíso, justamente, onde ninguém ri nem tem desejos, onde ninguém entende piada nenhuma. Paulette passa o diabo para conseguir se safar daquele universo de burros e voltar ao mundo do desejo, do riso e dos prazeres humanos e imperfeitos, pelo qual vale a pena viver.
É por esse mesmo direito que lutavam os que morreram no atentado ao “Charlie Hebdo”. Por um mundo que está sempre por um triz, ameaçado pela truculência de quem não suporta a inteligência, a diferença e a liberdade. E que não poupa esforços para reduzir tudo à bidimensionalidade monocórdia dos extremos, sempre em nome de alguma promessa de Paraíso.

Bernardo Carvalho

(texto publicado no Libération, a 13 de Janeiro de 2015)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio


Sobre o autor:
João Antônio (1937 – 1996), além de jornalista, foi um escritor do submundo, retratando nas suas obras os marginalizados – prostitutas, cafetões, porteiros, malandros – aos quais empresta a profundidade da filosofia e da teoria literária. Abandonadas pela vida, estas personagens periféricas surgem assim enaltecidas por uma linguagem de registo, simultaneamente contista e de reportagem, com frases curtas e estilo conciso. Malagueta, Perus e Bacanaço, o seu primeiro livro, que conta a história de três malandros paulistas, ganhou dois Prémios Jabuti e foi traduzido para oito idiomas.



«Há algum tempo que venho  afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforos. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando.
Chutar tampinhas que encontro no caminho. É só ver tampinha. Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra.  Qual a marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada, e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a ideia de que para acertar, necessário pequenas erradas. Mas é muito desagradável, o entusiasmo desaparecer antes do chute. Sem graça.
Meu irmão, tipo sério, responsabilidades. Ele, a camisa; eu, o avesso. Meio burguês, metido a sensato. Noivo...
– Você é um largado. Onde se viu essa, agora!
É que eu, às vezes, interrompo conversas na calçada para os meus chutes.
Só um sujeito como eu, homem se atilando naquilo que faz, pode avaliar um chute digno para determinadas tampinhas. Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. Não demoram muito, que ainda não sou um grande chutador. Mas capricho, porque elas merecem.
Minhas tampinhas... Umas belezas.»