terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Histórias de amor de outros tempos

Para os dias frios deste fim do ano, a leitura de um conto oriental, acompanhada de uma chávena de chá, só pode ser um bom conselho:




«Já são coisas do passado. No distrito de *** da província de Tamba vivia um homem que, embora fosse do campo, tinha um coração muito sensível. Tinha duas esposas que viviam em duas casas vizinhas. A primeira era uma mulher da terra. Um dia, o homem fartou-se dela e deu a sua preferência à segunda esposa, uma mulher que trouxera da capital, e a primeira esposa passou a viver na miséria.
Ora, numa tarde de Outono, nas montanhas do Norte, que ficavam atrás dessa aldeia solitária, ouviu-se o bramido melancólico dos gamos. O homem, que estava em casa da segunda esposa, perguntou: “Que dizeis do lamento dos gamos?” “Cozido, seria muito bom; grelhado, também havia de ser uma delícia!”, respondeu ela. O homem não estava à espera daquela resposta. “É uma mulher da capital, deve ser sensível a este género de coisas”, pensara ele. Agora, estava desiludido. Por isso, correu a casa da primeira esposa e repetiu a pergunta: “Que vos parece o lamento dos gamos?” E a primeira esposa respondeu:

Outrora amaste-me
como o gamo que chama a companheira,
mas hoje a tua voz está tão longe!

Ao ouvir isto, o homem sentiu-se extremamente emocionado. Lembrou-se das palavras da segunda mulher e perdeu todo o amor por ela. Mandou-a para a capital e foi de novo viver com a primeira mulher.

Como se vê, mesmo entre os camponeses há homens sensíveis à delicadeza do coração feminino, e mulheres elegantes que escrevem poemas destes. E assim dizem que tudo isto foi contado.»



“Histórias de amor de outros tempos” precedidas de Retratos Vivos, por Pascal Quignard (tradução: Maria Jorge Vilar de Figueiredo) 2€

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Biblioclasmo – Por uma prática crítica da lecto-escrita, de Fernando R. de la Flor

Sobre o autor: 
Fernando R. de la Flor (n. 1951),  Doutor em Ciências da Informação pela Universidade Complutense de Madrid e Professor Catedrático de Literatura Espanhola na Universidade de Salamanca, é um dos mais importantes pensadores espanhóis da actualidade dedicados ao estudo do Barroco e autor de uma vasta obra ensaística. Biblioclasmo – Por uma prática crítica da lecto-escrita foi pela primeira vez publicado em Espanha no ano de 1997, sendo em 2004 editado pelos Livros Cotovia, com a tradução de Pedro Serra, Professor Titular  na Universidade de Salamanca, Departamento de Filologia Moderna.
Fernando R. de la Flor recebeu por este livro o prémio “Fray Luis de Léon” de ensaio.


«Que faremos com isto? Não há que pensar! Copiemos!», assim se lê Flaubert anunciar a decadência do Livro, em Bouvard e Pécuchet (título editado pela Cotovia), expressão que se vai, forçosamente, reunir ao espírito da de Nietzsche: «Não ler livros», ambas usadas em epígrafe, a encabeçar dois capítulos de Biblioclasmo. Fernando R. de la Flor, no capítulo que abre com esta última epígrafe de Nietzsche, toma assim como tema o “efeito Bouvard”, expondo claramente a resposta que poderia ser dada à pergunta invisível “quem são os leitores modernos?” Na ponta da língua, diz-nos: «(...) no livro de Flaubert o novo herói, o homem contemporâneo, sumido na alienação, já não dispõe de força suficiente para romper o muro das palavras em que se encontra como que enclausurado. Não será possível que a biblioteca seja de novo entaipada por uma mão piedosa, como sucede em El Quijote. (...) O homem moderno neles representado já não somatiza bem a leitura, o que podemos supor ser possível nos primeiros tempos, em que a leitura gozava de prestígio e fulgor. A letra já não vive, não estimula na vida as fantasias lidas. O homem moderno consome letra morta porque, como dizia o evangelista, “a letra mata”. Atado ao cepo de um qualquer lecto-escriba, o homem moderno sonha apenas ler infinitamente, sem meta nem teleologia alguma que confira um sentido pessoal ao seu gesto mecânico.»

E porque este é um livro que faz anunciar o seu teor num prólogo subjectivo, partindo do relato de uma experiência visual, fiquemos com o olhar destas palavras focado no quadro de Arcimboldo: O Bibliotecário.
  
«Persegue-me uma figura anamórfica desde que, pela primeira vez, a vi surgir diante de mim na profundidade silenciosa de um museu. A partir desse momento, que não posso datar com precisão, a imagem que entrevi visita-me com frequência, aparecendo sobretudo durante a noite, para desestabilizar com a sua simples presença aquilo que foi a lenta e fatigante construção da vigília.
Se bem recordo aquele primeiro dia em que deparei com o seu enigma lúgubre, direi que, de repente, me encontrei na presença de uma câmara vazia submergida numa escuridão ocre, que identifiquei imediatamente, por um defeito de deslocação e contaminação a que se presta frequentemente a pintura de género, com os fundos dos óleos tenebristas do ancien régime: natureza morta.
Nesta cena de representação, aquilo que imediatamente vi foi um objecto conhecido e amado desde sempre. Com efeito, livros – deles se trata – luxuosamente encadernados pareciam estar dispostos numa vulgar pilha ou montão, com a qual o pintor queria representar a sensação imperiosa de terem sido recentemente consultados e abandonados ao acaso, o que não é mais do que uma das muitas marcas que acompanham a produção intelectual – o “serviço dos livros”. O quarto escurecido de um poeta, o cenário fúnebre do studiolo vagamente antigo, era ali descrito por uma espécie de eloquência, rotundidade e força de que o livro sempre disfruta no lugar onde se encontra, fetiche explícito de um mundo que, com a sua simples presença, o livro encarna e define.
Seja como for, não tenho dúvidas: o lugar era um espaço de sofrimento. Sendo uma biblioteca – era-o, seguramente –, os livros centralizavam o domínio obscuro de uma actividade que apenas parecia tê-los a eles por objecto: nem outras luzes (a não ser uma espécie de iluminação zenital), nem rasto de nenhum quadro, nem suportes, nem chão, parecendo aquele território um sarcófago (mais tarde conheci outra palavra para descrever o espaço de emergência fúnebre do livro: bibliotáfio), onde estava sepultado o próprio corpo livresco. (...)
Os livros abandonados ou algo gastos já não são livros. O seu contorno perfila, lentamente, o que começo a intuir ser um lugar humano: é um homem que surge, apenas como silhueta, no início da experiência. Uma insinuação, algo que é apenas uma sombra, apodera-se com autoridade do domínio visual compartido, realizando essa transferência, essa possibilidade de acomodação que tudo encontra na figura humana, fonte de todas as analogias.»


Biblioclasmo, com as suas 348 páginas, encontra-se com o preço promocional de 5€. Pode visitar-nos na nossa livraria, situada na Rua Nova da Trindade, nº 24, das 10h às 19h. Estaremos abertos no sábado, dia 20, para as oportunidades de Natal como esta.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço



«Tinham chegado a uma espécie de pequena clareira, onde se encontrava o edifício redondo, de cor escura, a que Concha chamara a ermida. Na verdade, era uma das capelinhas que, da varanda com vista para o convento em casa dos Buissard Coutinho, se viam a subir o declive da serra, cada uma no seu degrau. Nuno olhou à sua volta. A vista: toda verde; toda azul.
– Sítio lindo – murmurou.
O silêncio. Como resposta ao aumento momentâneo do calor, as cigarras calaram por segundos as suas estridulações. Imóveis, os arvoredos em redor exalavam um perfume acre, ao mesmo tempo apetecível e repugnante: um aroma de esteva e de tomilho, onde parecia imiscuir-se um cheiro pungente a esperma e saliva. Sobreveio uma leve aragem. As cigarras retomaram o seu canto, agora num tom mais agudo, mais estridente que antes.
– Bom, vou entrar. – Concha dirigiu-se à porta da capelinha e remexeu na fechadura.
A porta abriu. Apenas o limiar transposto, Concha sumiu-se imediatamente na penumbra, na escuridão que, para quem tinha os olhos encandeados pela luz daquela manhã, formava uma cortina impenetrável. Por sua vez, Nuno também se aproximou da ermida, mas ficou à porta, indeciso se haveria ou não de entrar. Olhando para o interior, discernia-se vagamente uma decoração em azulejos. Nuno viu de repente uma coisa que o interessou e entrou na sombra fresca da capela.
Agora o calor, que ardia lá fora, já não passava de recordação. Mesmo o foco dourado, em que borboleteavam ínfimas poeiras, retinha do ar livre a luz, apenas; não o calor. E embora iluminasse a zona da parede que chamara a atenção de Nuno, esse feixe de luz nada subtraía à frescura dos azulejos. A frescura que, à guisa de bálsamo, já lhe acalmava o ardor dos arranhões nas mãos e nos braços.
SE ÉS CRISTO, SALVA-TE. A legenda escrita a azul, desgarrada do escárnio que lhe informava o contexto na Sagrada Escritura, parecia encerrar em cinco palavras tudo o que havia para dizer acerca de Deus, por um lado, e da condição humana, por outro; tanto se aplicava às chagas de Cristo como ao instrumentário da Paixão, que Nuno via representado nos azulejos à sua frente: lança, túnica, esponja. E, descendo do sobrenatural para o comezinho, as mesmas cinco palavras exprimiam, entendidas sob outro prisma, tudo o que havia a dizer acerca dos pequenos problemas por que, na solidão daquela serra (dentre todas montanha sagrada de eremitas e de poetas), estavam a passar uma mulher em “idade difícil”, com o marido há anos no Brasil e com o filho a perder-se algures em Lisboa; e um jovem que, ao tomar ali a decisão de largar tudo, se obrigava a assumir perante si mesmo que encerrara o capítulo das namoradas, que era capaz de ir contra os desejos dos pais, que ia ficar com uma fama de que, até morrer, nunca mais se livraria, que tinha a capacidade de arriscar tudo, de pôr a sua vida toda em causa em prol de um jovem como ele que lhe dissera repetidas vezes que era só amizade e que a componente de afectividade física não fazia daquela relação o amor que Nuno procurava.
Já mais habituado à escuridão, Nuno reparou, sem surpresa (pois os seus olhos também estavam marejados de lágrimas), que, em pé ao seu lado, diante do enorme Cristo crucificado que ocupava toda uma parede da ermida, Concha chorava com a cara enterrada nas mãos. Recalcando o medo de que ela o repelisse, Nuno atreveu-se a pôr-lhe a mão no ombro. Concha estendeu devagar o braço e colocou a mão sobre a mão de Nuno.
E sem fazer nada para impedir o choro – remédio de tanta coisa que ficava para trás... –, Nuno elevou os olhos e fitou o rosto ensanguentado da estátua pregada na cruz. Vieram-lhe ao espírito os versos do frade arrabidense em que sempre se revira: “luz sem luz, vida sem vida, sol sem curso”.
Isso fora a sua vida. Isso era o que ficava para trás. Doravante, o mote iria ser outro. “Menos contradição, mais clara vista”.»

(pp. 96-98)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A Ilíada adaptada para jovens - entrevista de Luís Caetano a Frederico Lourenço

«A Odisseia é um poema cheio de luz e a Ilíada é um poema cheio de escuridão; uma escuridão que faz parte da realidade humana.»

Palavras de Frederico Lourenço na entrevista sobre "A Ilíada de Homero adaptada para jovens", no programa A Ronda da Noite, de Luís Caetano (Antena 2):

http://www.rtp.pt/play/p1299/e174499/a-ronda-da-noite