sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Marquês de Sade: 200 anos da morte

"Sade, esse sublime energúmeno"
ANTÓNIO GUERREIRO 
Duzentos anos após a sua morte, Sade continua a visitar-nos como um fantasma que não se extingue, desafiando o nosso tempo com os seus textos, tão difíceis de olhar de frente, em que se faz a apologia do prazer e do vício contra a lei e a ordem.
Sade, o “divino marquês”, como é às vezes chamado com irónica ternura e artificioso respeito, morreu há 200 anos, a 2 de Dezembro de 1814.
Duzentos anos é tempo mais do que suficiente para conhecer esta criatura que nunca foi de Deus, mas da blasfémia, para classificar e anestesiar esta “planta venenosa que a Natureza fez nascer” (como se define uma das suas mais cruéis personagens). Mas, dois séculos depois, ainda não se dissipou o “mistério Sade”, esse monumento de obscuridade que perdura sem descanso e suscita a pergunta tantas vezes repetida: quem é ele? Vale a pena transcrever a resposta de Blanchot: “Sade é uma excepção monstruosa, completamente fora da humanidade. A sua singularidade é a de ter cometido um delito tão monstruoso que não é possível caracterizá-lo sem perigo."
O celerado Donatien Alphonse François de Sade, nascido em Paris, em 1740, deixou uma obra excessiva e escandalosa como nunca houve outra, à medida da sua própria vida cheia de escândalos, de loucura, de excesso, de imoralidade ostensiva, em conformidade com uma racionalidade libertina e libertária que execrava a lei e a ordem da Família, do Estado, da Sociedade (ver caixa). Os textos de Sade continuam a ferir profundamente os sentimentos e os pensamentos humanos, são ainda hoje insuportáveis de ler. Até o mais exaltado ateísmo moderno empalidece e recua horrorizado quando depara com estas palavras do Diálogo Entre um Padre e um Moribundo: “Devo dizer que o horror que me provocas é simultaneamente tão justo, e tão grande, e tão forte, que me masturbaria com prazer e com tranquilidade, ó Deus vil, sobre a tua divindade, ou foder-te-ia se a tua frágil existência pudesse oferecer um cu à minha incontinência."
A efeméride não podia deixar de ser assinalada em França. Afinal, Sade até já saiu há alguns anos do “infernos das bibliotecas” e a sua obra completa foi editada na colecção da Pléiade, ao lados dos clássicos. Entre as manifestações que comemoram os dois séculos da sua morte, a mais imponente é uma exposição de pintura, gravura e algumas esculturas que pode ser vista no Museu d'Orsay. Chama-se Sade – Attaquer le Soleil  e foi comissariada por Annie le Brun, poeta, ensaísta, autora de alguns estudos sobre o “escritor”. Pomos a palavra entre aspas para sugerir que talvez não seja a mais adequada para o classificar, se entendermos que ela o coloca indevidamente do lado dos fins literários e o encerra na literatura. O título – Attaquer le Soleil – faz alusão a uma célebre máxima de La Rochefoucauld: “Nem o sol nem a morte podem ser olhados de frente." O que não pode ser olhado de frente é irrepresentável. Ora, a ideia subjacente à exposição é a de que Sade se confronta com o irrepresentável do desejo e das pulsões mais violentas e cruéis, dando a ver pela primeira vez o que nunca tinha sido visto e dando a ver de outra maneira o que já tinha sido visto. Muita pintura do século XIX (que constitui a parte mais substancial da exposição, embora o século XVIII e o século XX também estejam representados) surge assim à luz de um foco sadiano. A tese de Annie le Brun é de que o século XIX, apesar de ter encerrado Sade nas bibliotecas, foi fascinado por ele. Trata-se, no fundo, de ver como é que Sade, colocando essa questão do irrepresentável, vai ao encontro de uma das preocupações maiores da história da pintura. É como se, depois de Sade, o sadismo – essa palavra que, para muitos, só tem um sentido médico-psiquiátrico – se tivesse tornado simultaneamente um horizonte inultrapassável e uma ideia latente. 
O abismo negro
Fosse a exposição limitada ao século XX, e as coisas parecer-nos-iam muito mais óbvias, já que foi então que Sade saiu da clandestinidade. Apollinaire, reunindo em 1909 algumas Páginas Escolhidas, foi o primeiro a levar o autor de La philosophie dans le boudoir a sério. E fê-lo com uma declaração profética: “Este homem que talvez não tenha contado para nada durante todo o século XIX pode muito bem dominar o século XX." Depois vieram os surrealistas, que fizeram dele uma figura tutelar, e vieram Klossowski, e Bataille (para o qual Sade foi motivo de um conflito com Breton) e Blanchot, Lacan, Foucault e muitos outros. Não se pense, no entanto, que esta recepção de grande envergadura teve algum efeito nas entidades oficiais que zelam pelos bons costumes. Em 1957, o editor Jean-Jacques Pauvert (recentemente falecido) foi julgado em Paris na sequência de uma queixa apresentada pela Comissão do Livro, por ter publicado La philosophie dans le boudoirLa nouvelle JustineJuliette e Les cent vingt journées de Sodome. Foi o chamadoAffaire Sade. Entre as testemunhas de defesa de Pauvert estavam Georges Battaille e Roger Caillois. Este último respondeu assim ao juiz que lhe tinha perguntado se não achava que tais livros eram perigosos para os costumes: “São muito perigosos. Conheci uma rapariga que entrou para o convento depois de ter lido as obras de Sade." Pauvert foi condenado a pagar 80 mil francos de multa e os livro foram confiscados e destruídos.
A fortuna de Sade no século XX significou também divergências interpretativas. A tendência para vê-lo como um libertino teve os seus adeptos. De certo modo, os surrealistas viram-no desse modo. Mas Sade não se pode confundir com um daqueles libertinos de corte, munidos de uma retórica elegante e procurando os prazeres da sedução e a intelectualização do desejo. Estes libertinos inventaram uma ideia de liberdade que não convidava à acção, mas ao jogo da razão. O furor sadiano e as suas incursões radicais na território do mal e das transgressões mais extremas está para além da libertinagem e abre um abismo negro: Sade mostra um lado impensado e inaudito da razão e da liberdade do Iluminismo. Bataille contra Breton encontra aqui o seu princípio de explicação. As ideias do mal e da transgressão, tal como Bataille as vê a as desenvolve a propósito de Sade, não são compatíveis com a anulação que Breton faz da dimensão política da escatologia sadiana. A sua preocupação era a de fazer entrar o divino marquês na bolsa dos valores literários, mesmo que à custa de sublimação poética e ascensão idealizante. Bataille, pelo contrário, procede à operação contrária, de dessublimação, algo que não admite a “admiração”. Por isso, ele coloca na boca de uma personagem de Le bleu du ciel estas palavras: “Aqueles que admiram Sade são uns escroques."
Mas a grande clivagem na história das leituras da obra de Sade é aquela que emerge do último filme de Pasolini, Saló ou os Cento e Vinte Dias de Sodoma.Transpondo para a Itália de Mussolini, e para a República fascista de Saló, a obra mais insuportável de Sade, aquela que leva até limites nunca antes imaginados um catálogo de perversões que decorrem de um princípio formulado em La philosophie dans le boudoir – “Não há nenhum homem que não queira ser déspota quando está teso” –, Pasolini constrói uma analogia entre Sade e o fascismo. A lógica fascista do poder teria assim encontrado no castelo de Silling (onde se passa todo o deboche de Os Cento e Vinte Dias de Sodoma) a sua representação alegórica mais perfeita. Esta leitura pasoliniana cruza-se com uma outra, feita por Adorno e Horkheimer num ensaio incluído em A Dialéctica da Razão, de 1947. O que eles identificam em Juliette et la raison morale é da mesma ordem que a irrupção do terror na História que o nazismo tinha desencadeado, traçando assim uma analogia entre os heróis de Sade e o poder totalitário do nazismo. Esta leitura incide não sobre a utopia libertina e libertária de Sade (que, na sua versão mais comprometida com o momento político revolucionário, se exprime no panfleto Français, encore un effort), não sobre a desmesura libidinal das orgias, mas sobre os gestos dos carrascos que distribuem metodicamente os suplícios pelas suas vítimas. Neste sentido muito adorniano, Sade é visto como uma peça que faz a ligação entre Kant e Auschwitz. E assim temos um Sade fascista e um Sade nazi 
Um perpétuo deboche
Les cent vingt journées de Sodome é o momento mais extremo da obra sadiana. É um livro inacabado, que o seu autor começou a escrever em 1785 num longo  rolo de papel, quando estava encarcerado na Bastilha. Escondia o rolo num dos godemichés que a mulher – submissa – tinha feito e levado para ele. Não foi a única vez, nos quase 30 anos que passou na cadeia, que solicitou à mulher instrumentos para se sodomizar (e alguns foram por vezes causadores de lacerações), ele que disse de si próprio que era um cavalo demasiado fogoso para estar preso. É preciso lembrar que Sade sempre valorizou a sodomia, que considerava um “vício filosófico”. E valorizava-a porque a entendia como uma negação das leis naturais relativas à reprodução e, portanto, à Família e ao Estado. Por isso faz sempre intervir esta prática tanto na educação dos rapazes como na das raparigas. Ser sodomizado não é para ele sinal de nenhuma inferioridade, mas pelo contrário o primeiro degrau para se chegar à soberania. Num dos episódios escandalosos que o levaram à prisão, deixa-se sodomizar pelo seu criado diante de um grupo de prostitutas a quem tinha ministrado previamente uns produtos químicos.
Alguns dias antes do 14 de Julho, Sade foi transferido para o hospício de Charenton porque se tinha tornado um elemento altamente perturbador e fora apanhado a fazer incitamentos à insurreição. Nessa transferência, o manuscrito de Les cent vingt journées de Sodome ficou perdido. Mas não para sempre, como pensou Sade, que muito sofre com essa perda e nunca irá ter a alegria de saber que o desaparecimento do manuscrito não foi definitivo. Acabaria por ser recuperado nos escombros da prisão, e por ser várias vezes vendido e comprado; apenas em 1904 seria finalmente publicado. Uma edição mais completa e fiável em três volumes só aconteceu em 1931-1935, graças a Maurice Heine.  Essa “obra excepcional”, um “esforço exemplar para a mais feroz análise do ser”, como escreveu o próprio Sade, tem um valor fundador na história do pensamento de Sade. Ao longo dos 120 dias desenrolam-se as cenas, um verdadeiro catálogo de perversões e manias, umas centenas de “paixões" que vão das mais simples às mais complexas. Há aqui uma intensificação progressiva do deboche e das sevícias praticadas sobre as vítimas pelos carrascos, que só conhecem uma determinação: a do prazer próprio.
Sade foi, também ele, uma vítima do Terror e só não teve a cabeça cortada graças ao Termidor. O seu compromisso não foi com a Revolução, mas com a insurreição. Ele reclamava a necessidade de uma insurreição permanente, uma contínua imoralidade como fermento da desordem. A insurreição  deveria ser o estado permanente de uma república. Destruir os castelos não bastava. Também não bastava destruir a Lei. Era preciso um débordementcontínuo. Só a instauração do perpétuo deboche estava à altura do programa de Sade porque, na sua concepção, o prazer não nasce de outra fonte senão do jogo violento com as regras sociais.
in Público

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço

Tendo sido o seu primeiro romance, Pode um desejo imenso (Prémio PEN Clube 2002), de Frederico Lourenço, resultou numa trilogia a que se juntaram os títulos O curso das estrelas, no mesmo ano, e À beira do mundo (2003). Em 2006, a intenção do autor foi reunir tudo num único volume, mantendo o verso camoniano como a força aglutinadora do sentido geral desta obra faseada: Pode um desejo imenso. Nesse ano, o autor recebeu, por unanimidade do júri presidido por Eduardo Lourenço, o Prémio Europa / David Mourão-Ferreira, numa iniciativa conjunta da Universidade de Bari, do Instituto Camões e da Fundação Gulbenkian. Este prémio consiste na tradução para italiano e para outras três línguas europeias da mais actual edição de Pode um desejo imenso e comprova, assim, o reconhecimento internacional de Frederico Lourenço.


“A progressão narrativa torna-se indissociável da progressão ensaística e, entre uma e outra, constroem-se articulações de recíproca iluminação do próprio sentido da ficção que nos é proposta.
Nuno Galvão, um jovem professor universitário, especialista de literatura e filosofia clássicas e da obra de Camões, sente-se muito atraído por um aluno, Filipe, namorado de Patrícia, também sua aluna, e desenvolve uma espécie de processo de sedução mais ou menos contida em relação a ele. (…)
A narração é feita num registo muito sóbrio, que não exclui um diálogo de mordaz ironia entre Nuno e o pai, nem uma página de bela intensidade sobre Lisboa, nem várias alusões musicais de grande refinamento, nem uma série de incursões de alta erudição, nomeadamente no tocante à tópica clássica, grega e latina.”

Vasco Graça Moura, Os Meus Livros


Fala-nos Vasco Graça Moura de um “diálogo de mordaz ironia entre Nuno e o pai”, ei-lo:


«– Salsa picadinha?
– Isso mesmo. Mas conte lá, Nuno, ainda não me disse nada sobre o seu colóquio. Vai apresentar alguma comunicação?
 – Vou. Amanhã de manhã, logo às nove. Era para ter sido hoje, mas o nosso amigo Mendes teve um ataque de obscurantismo...
 – Em que aspecto? Bom, não me admira nada: dá-me ideia que os processos mentais dele são impenetráveis até para ele próprio. Mas isso é que é o besugo? Não me diga que vai comer isso?
Nuno não fez caso desta última observação. – O obscurantismo foi mais denotativo: ele pura e simplesmente não gostou do título da minha comunicação porque vinha lá a palavra “homoerótico”.
António levantou os olhos da espetada e fitou o filho. Da sua expressão não era possível depreender a que é que ele estava a reagir.
– Homoerótico ? Isso é o quê?
– É grego, Pai. Hómois, semelhante; eros, amor: utiliza-se para designar sentimentos eróticos entre pessoas do mesmo sexo.
– Sentimentos eróticos? – perguntou António. – Isso não é um pleonasmo?
– Não necessariamente. Aliás, não me parece que a palavra “sentimento” seja susceptível de integrar uma expressão pleonástica. Pleonasmo implica redundância, não é? Acho que no amor nunca há o perigo de redundância; ou melhor: pode-se ser redundante à vontade no sentido em que chover no molhado é já de si uma componente própria do estado de estarmos apaixonados; é monocórdico amar-se alguém, deliciosamente monocórdico... tomáramos que a pessoa amada fosse duas vezes ela própria!
 – Desculpe?
– Estou a pensar no soneto em que Camões se compara a Télefo, o Amfortas grego, que só podia curar a ferida com a mesma arma que a tinha infligido. Não será isso mesmo que ele quer dizer? O amor enquanto pleonasmo: ferido de ver-vos, claramente / Com vos tornar a ver Amor me cura.
– Isso que você está a tentar formular é um axioma ou um teorema?
– Tem de ser obrigatoriamente uma coisa ou outra?
– Não sei se obrigatoriamente – disse António. – Agora, o que eu acho é que os dados deveriam ser mais incontroversamente objectiváveis, o que não é (de longe!) o caso naquilo que está a tentar dizer. Tanto mais que lá o seu “homoerotismo” me parece prima facie um caso óbvio que prova a existência de uma forma de amar intrinsecamente pleonástica. Agora, quando você afirma que o facto de uma coisa ser por natureza pleonástica isenta ipso facto essa mesma coisa de incorrer em pleonasmo, isso parece-me um absurdo absoluto. Por isso é que perguntei se era um axioma.
– Não, Pai, não é um axioma. É só um pequeno occupational hazard de quem lê muito Camões.»


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert

Gustave Flaubert (1821-1880) situa-se no ponto de confluência das correntes romântica e realista. Submetendo o romance a regras fixas de observação, transformou-o em obra de arte harmónica, impessoal, que vive da sua beleza própria. Entre outros escritos de juventude, é autor de Les Funerailles du Docteur Mathurin (1839) – inserido em As Escadas Não Têm Degraus 2 –, de Mémoires d’un Fou (1838), e de Novembre (1842) [editado pelos Livros Cotovia], que indiciam já L’Education Sentimentale. A partir de 1851, e depois de ter publicado La Tentation de saint Antoine, dedica-se à escrita da sua obra-prima – e obra-prima do romance moderno – Madame Bovary (1877) e finalmente escreve Bouvard et Pécuchet (1880). Esta edição Cotovia é uma tradução de Pedro Tamen.

«[Em] Flaubert, há uma ausência de estilo voluntária, uma espécie de recusa, que não é simples reproduzir em português. Por isso, o que se tornou apaixonante foi encontrar um “tom” que não resultasse vulgar, e aperfeiçoá-lo em revisões sucessivas. Encontrar um “tom” que reproduzisse o estilo seco e quase incolor que é o de Bouvard e Pécuchet
(Pedro Tamen, em entrevista ao Público)




 «Um rumor confuso subia de longe na atmosfera morna; e tudo parecia entorpecido pela ociosidade do domingo e pela tristeza dos dias de verão.
   Dois homens apareceram.
  Um vinha da Bastilha, outro do Jardim Botânico. O mais alto, vestido de algodão, caminhava de chapéu caído para trás, colete desabotoado e gravata na mão. O mais baixo, cujo corpo lhe desaparecia numa sobrecasaca castanha, vinha de cabeça baixa sob um boné de pala aguçada.
  Quando chegaram a meio do bulevar, sentaram-se ao mesmo tempo no mesmo banco.
  Para limpar a testa, tiraram os chapéus, que poisaram junto de si; e o baixinho viu escrito no chapéu do vizinho “Bouvard”, enquanto este distinguia facilmente no boné do sujeito de sobrecasaca a palavra “Pécuchet”.
  – Olha! – disse ele – tivemos a mesma ideia, de mandar gravar os nossos nomes nos chapéus.
  – Foi mesmo! É que podiam levar-me o meu no escritório!
  – Tal como a mim, sou empregado.
  Então encararam-se.»

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Uma aventura secreta do Marquês de Bradomín, de Teresa Veiga

«Enquanto outros, os émulos de D. Juan, cobiçavam as presas difíceis e seduziam pelo prazer de seduzir, ele sentia amor verdadeiro pelas mulheres por quem se apaixonava e respeitava-as o suficiente para não fazer alarde das suas conquistas. Por tudo isto a sua preferência ia para as mulheres experientes e de entre estas para as que passam do tálamo conjugal directamente para os braços dos amantes. Aliás, a sua afirmação, “eu nunca quis ser o primeiro amor de ninguém; preferi sempre ser o último”, parecia-lhe de uma finura e sensibilidade insuperáveis.»


“Há duas décadas que Teresa Veiga vem publicando ficção de um apuro estilístico e uma subtileza notáveis. É o que acontece uma vez mais com Uma aventura secreta do Marquês de Bradomín, colectânea de três contos longos.
O texto que dá nome ao livro é uma noveleta que presta homenagem a Valle-Inclán. Tudo parte de uma investigação acerca de um tal marquês de Bradomín, soldado, político e cortesão da época das guerras carlistas. O aristocrata deixou umas Memórias em três volumes, que fazem dele um aventureiro algures entre Casanova e d’Annunzio. Um conspirador que é também um hedonista sofisticado, amante da arte florentina e dos moralistas franceses.
O narrador do conto decide no entanto completar algumas lacunas das Memórias. Conhece uma anciã que terá sido amante do marquês, quando ele se refugiou no Minho em casa de uns vagos parentes, e recorre a ela para a sua pesquisa. Se o marquês nos foi apresentado por causa da sua autobiografia, o retrato é completado através de uma carta dessa tal senhora. Ou seja: tudo é reconstituído através de textos, e portanto o passado é aqui um exercício de interpretação textual.
Teresa Veiga exibe uma pujante imaginação romanesca (…). Tudo o que parecia idílico e aventuroso é afinal um jogo de sombras que se precipita num desenlace fatal.” 
(Pedro Mexia)


Além deste, Teresa Veiga tem mais títulos publicados na Cotovia: O último amante; História da Bela Fria; A paz doméstica; As enganadas e Jacobo e outras histórias.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mortes imaginárias, de Michel Schneider

“A literatura é a câmara de ninguém. Palavras nocturnas, ecos de silêncio, sílabas fatídicas, últimas palavras, coração derradeiro: este livro colhê-las-á, reuni-las-á, será o registo das mortes imaginárias de escritores reais. Abro a cortina  no momento em que La commedia è finita, o que não é necessariamente um mal, se acreditarmos em vários destes moribundos, boquiabertos e fascinados perante a maravilha de um novo traje por estrear, de um novo vestido para experimentar: de uma nova vida que luz e trepida”.

Através de trinta e seis retratos captados nos derradeiros momentos de alguns escritores, Michel Schneider fala-nos, com emoção e erudição, da mais comum das experiências, a morte. Uma história da literatura, em que os derradeiros momentos de Pascal, Kant, Flaubert, Rilke, Zweig, Buzzati e de tantos outros são como um revelador último... da vida.
Nascido em 1944, Michel Schneider, escritor e crítico literário, escreveu sobre literatura, música e psicanálise. Em 2003, recebeu o prémio Médicis de ensaio, atribuído a Mortes imaginárias.

Com tradução de Bénédicte Houart, poeta publicada na Cotovia (Reconhecimento; Vida: Variações; Aluimentos…), este é um dos títulos da colecção Outono-Inverno.



«Nada é mais vivo do que os escritores quando falam da morte e escrevem contra o medo de morrer. Nada é mais morto do que tudo aquilo que nega a morte. Não obstante hoje em dia editores e leitores fogem de títulos que contenham a palavra morte. Os escritores franceses Georges Bataille ou Louis-Ferdinand Céline agora seriam convidados a encontrar algo "que venda melhor". Hoje a morte acontece calada, como se pudéssemos fazê-la desaparecer das nossas vidas apagando-a da nossa língua.»
                          
       (Michel Schneider numa entrevista com Julián Fuks)



(ISBN: 978-972-795-307-3; preço: 28€. 10% de desconto na livraria. Morada: Rua Nova da Trindade nº24)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Carta para minha mãe, de Georges Simenon

«Carta para minha mãe (1974) é, mais que um título, outra excepção que confirma a regra. Como um último espasmo de génio de alguém que se retirou da ficção romanesca. O livro escapa às normas, tanto pelo contexto quanto pelo poder evocativo. (…) É uma crónica da incompreensão através da história de dois seres que nunca conseguiram amar-se por nunca terem sabido conversar. Simenon revela-nos o nódulo do seu sofrimento, o sofrimento de um grande escritor reconhecido por todos e em toda a parte, excepto pela sua própria mãe.»

(Pierre Assouline, Simenon: biographie)




Sobre o Autor:
Georges Simenon nasceu em Liège, Bélgica (1903), e morreu em Lausana, Suíça (1989). Escritor de obra extensa e variada – cerca de 400 títulos –, desde romances “psicológicos”, contos, ensaios, escritos autobiográficos, até aos livros de aventura que publicou na juventude, sob pseudónimos diversos. Georges Sim, o mais conhecido desses pseudónimos, chegou mesmo a ser usado no seu verdadeiro primeiro romance: Au Pont des Arches (1922). É a partir de Pietr-le-Letton (1931) que assume Simenon como apelido.




Um excerto de Carta para minha mãe, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo:

«Agora, tens noventa e um anos. Eu estou quase a passar dos setenta. E, entre nós, há todo este tempo passado. Foi um tempo que te marcou? Guardaste alguma recordação das horas e dos dias?
Olhando para o teu rosto, pareces como que aliviada por veres o fim aproximar-se.
Falei do ratinho que se esgueirava de noite pelos pátios de Lakeville em busca do seu corpete. Durante toda a tua vida, os teus passos foram os passos miúdos e velozes de um ratinho. Raramente te vi sentada. E é a primeira vez, sim, a primeira vez, que te vejo deitada.
Ao olhar para o teu rosto, que mudou tão pouco, para os teus olhos claros, de um azul acinzentado, que continuam muito vivos, pergunto a mim próprio se o teu último suspiro não será um suspiro de alívio.

No teu quarto de hospital, há qualquer coisa que me oprime e que, por vezes, me impede de pensar. É o silêncio que reina, um silêncio interrompido de tempos a tempos pelo deslizar da cadeira de alguém que se vai embora, pelos passos silenciosos de alguém que entra, pelos sussurros constrangidos dos recém-chegados. Parece que se está numa igreja. Uma igreja de que és o centro e onde, embora imóvel, assumes dimensões extraordinárias.
Porque tu dominas tudo, os estranhos que entram e saem – e entre os quais talvez possa incluir-me, porque fui um estranho para ti –, a porta que alguém empurra e que alguém volta a fechar silenciosamente, e que deixa sempre entrar um pouco de ar fresco.»

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Como se o Mundo Não Tivesse Leste, de Ruy Duarte de Carvalho


Sobre o autor:

Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010), embora nascido português, de Santarém, naturalizou-se angolano em 1975. «Regente agrícola de formação, trabalhou na cultura do café no norte e centro de Angola e na criação de ovelhas caraculo do sul.» Realizou filmes, também, e doutorou-se em antropologia social e etnologia. Homem da mão e do pensamento, do olhar e da escrita.























1

Quando o Chefe chegou já João Carlos tinha metido dois copos. Resistiu até poder mas a espera fora longa, e tinha que aguardar forçosamente ali, entre a casa da estação e os dois comércios, por varandas e portais, vendo quem entra e vendo quem sai,
                boa tarde irmão
                se quer me acompanha,
                não muito obrigado,
                agora ainda não.

                Mas o corpo existe e a carne é fraca e a força de dez convites é forte já para demover vontades que o querer impõe e a tentação corrói.
                Chegara ali pela uma da tarde. Perdida a batalha, tinha o dia inteiro à sua frente antes de decidir meter-se a caminho, de regresso à fazenda, consumidos assim o dia de folga e a esperança de recuperar o par de bois que em dois anos de trabalho conseguira adquirir. Nem dinheiro nem bois, agora, confusões que a sorte tece, nada a fazer, começar de novo, quem faz dois faz quatro, quatro anos mais a trabalhar ali, pastor de ovelhas, quando voltasse à terra levaria os quatro bois, nada havia que disso o demovesse, um homem tem que saber é se pode contar consigo mesmo. E era uma sorte, ter encalhado ali naquela terra, com bois para comprar e uma linha de caminho de ferro para os deixar quase mesmo já na sua libata. Oferta para os filhos, legado de um pai que se consumira em trabalho avulso, às ordens dos brancos, campeão de angarias, zé-ninguém sempre em viagem.

                João Carlos de seu nome,
                natural de Chinguar,
                pastor de ovelhas agora,
                outras coisas noutros tempos:
                escalador de peixe grosso
                nas salgas de Equimina,
                cortador de cana verde
                nas baixas da Tentativa,
                viveirista de café
                nas roças da Boa-Entrada,
                cozinheiro de alemão
                em fazendas de Calulo,
                ajudante de tractor
                em plantações de sisal.
                E as outras coisas cumpridas
                na vida particular:
                agricultor de quintais
                nos planaltos de Bié,
                casado por mão de padre
                na igreja da missão,
                pai de dois filhos criados
                à custa de privação,
                e de mais três falecidos
                com enterro de cristão.
                De porte fraca figura,
                meão de altura e de peso.
                Idade cinquenta anos
                vencidos a trabalhar
                mais para os outros que para si.
                Devedor de algumas contas,
                credor de muito martírio,
                João Carlos natural
                do Chinguar, no Bié,
                pequenino mas teimoso
                e firme nas decisões,
                triste mas disfarçador
                da tristeza que lhe habita,
                cansado mas vivo ainda
                para decidir do que quer,
                daqui me hão-de acompanhar
                quatro bois novos ainda
                para ensinar a lavrar
                nas lavras que hei-de fazer
                quando enfim me reformar.
                Quatro bois no fim da vida,
                mais não posso projectar,
                para mais não me deu o esforço
                e a meus filhos caberá
                tirar dos bois recompensa
                na força que lhe couber
                da força que lhes neguei
                dando-a aos outros nos contratos
                que a vida me armadilhou.

“- O senhor está a ver, boi aqui é muito e o seu valor é carne, no Chinguar trabalho. Aqui posso comprar até quatro cabeças, valem menos as quatro que uma só no Bié. Há depois o comboio, facilidades, tanto pagam quatro como paga um. Quando for embora levo-lhes comigo. Me acompanham lá. Demora quatro anos, comprar bois e passagem. É tempo, sim. Mas conta o tempo quem passou a vida é mais longe dos seus? Entre um contrato e outro o tempo só para fazer um filho, pagar contas antigas e firmar mais dívidas. Às vezes, até, nem tempo dava para fazer mais filho. Quando acordava da primeira festa, à porta ainda do comerciante, a caderneta estava é já na mão do branco e eu em número um para partir de novo, sei lá para onde, para o norte ou para o sul, sisal ou café, cana ou pescaria.”



Nota: compre online ou na nossa livraria, situada na Rua Nova da trindade, nº 24.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Nós matámos o Cão-Tinhoso, faz 50 anos


No ano do seu cinquentenário, Nós matámos o Cão-Tinhoso, obra única de Luis Bernardo Honwana, tem gerado várias ações honoríficas em Moçambique, nomeadamente a criação de uma parceria entre a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e a Universidade Lúrio, para oferecer obras literárias à Escola secundária de Nampula; uma medida de estímulo ao conhecimento da literatura moçambicana. Também na Universidade Lúrio, no passado mês de outubro, se lançou uma edição comemorativa do livro.


Publicado em inglês, no auge da guerra colonial (1969), e obtendo reconhecimento internacional desde então, este que é um dos títulos da nova edição de livros de bolso da Cotovia (constituído por mais seis contos, além do que dá nome à obra), não deixa dúvidas em relação à sua importância e intemporalidade da mensagem. Missivas tão belas à humanidade como a que está contida neste excerto-envelope do conto As mãos dos pretos:

«A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras do que o resto do corpo. No dia em que falámos nisso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de se rir. O que achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela disse foi mais ou menos isto:
                “Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho, Ele pensou que realmente tinha de os haver... Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já os não pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exactamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem é apenas obra de homens... Que o que os homens fazem é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que se tiverem juízo sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos”.
                Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos.
                Quando fugi para o quintal, para jogar à bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido.»