quarta-feira, 30 de julho de 2014

"O Somno de João" de António Nobre

O Somno de João

O João dorme... (Ó Maria,
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango ...
O João seria... um morango!
Podia engulil-o um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
Ó mar! falla mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...

O João dorme... Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
Não acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mae! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vae sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vel-o-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! Que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...

E os annos irão passando.

Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha tambem)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas:
Morrerá sem o sentir,
Isto é deixa de dormir...
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é d'onde elle veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais davagar:

Não vá o João, acordar...

António Nobre, in 'Só'

Entre árabes e judeus - de Helena Salem

 
Sobre a autora:

Helena Salem (Rio de Janeiro, 1948-1999), filha de
imigrantes judeus, graduou-se em Ciências Sociais
na UFRJ, em 1970, no auge da ditadura militar.
Mas, desde meados da faculdade, trabalhou na editoria...
internacional do Jornal do Brasil, onde se especializou
em Médio Oriente. Depois de passar um
ano em Itália, com uma bolsa de pós-graduação em
Política Internacional, cobriu a Guerra do Ion Kipur,
nos países árabes, para o mesmo JB, permanecendo
na região durante quatro meses. Ainda que
de origem judaica, escreveu com abertura e simpatia
sobre a Questão Palestiniana, o que haveria de
lhe custar um alto preço. Foi editora internacional
do jornal Opinião, conheceu o exílio em Portugal,
onde seria correspondente da revista Isto É e do jornal
Movimento, colaborando ainda para jornais
portugueses como o Expresso. De volta ao Brasil,
com a amnistia em 1979, trabalhou no Jornal da República
e colaborou com diversos meios de comunicação,
entre eles Folha de S. Paulo, até regressar ao
quotidiano da redacção, como repórter especial de
O Globo. Dedicou-se então à cobertura de cinema,
sua (também) velha paixão. Com o cineasta Jorge
Bodanzky, co-realizou o documentário Igreja dos
Oprimidos, inspirado num livro de sua autoria; esta
co-produção franco-brasileira para a televisão francesa
ganhou o prémio Margarida de Prata, da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Nos últimos anos de vida trabalhou como repórter
especial para o jornal O Estado de São Paulo, escrevendo
sobre cinema. Publicou vários livros, entre
os quais: Palestinos, os Novos Judeus (1978), Igreja
dos Oprimidos (1981), O que é a Questão Palestina
(1982), e As Tribos do Mal: o Neonazismo no Brasil
e no Mundo (1995).



 Sobre a colecção Judaica:

Nos antípodas de qualquer panfletarismo, a JUDAICA reúne autorias diversas: judeus religiosos, judeus ateus, judeus críticos da sua gente, não -judeus. Oferece livros sobre a história do povo judeu, sobre a religião judaica, sobre o holocausto, sobre as reacções pós-holocausto, experiências de guerra, testemunhos pessoais, análises da mais diversa índole. Uma biblioteca para reflectir e discutir reflectidamente é, em si, uma oportunidade para repensar a tolerância.