segunda-feira, 31 de março de 2014

Texto sobre "Páscoa judaica"

Divulgamos aqui o texto sobre a “Páscoa judaica” que Bernardo Sorj, autor de Judaísmo para todos inserido na nossa colecção “Judaica” agora nos envia.


PESSACH 2014/5774

PESSACH 2014/5774


Porque nos libertamos da escravidão no Egito.
E fomos enclaustrados em guetos.
E incinerados em Auschwitz.

Lembramos Pessach para manter acesa á chama interna da liberdade,   que nenhum poder consegue apagar se esta enraizada dentro de nós.  Porque a saída do Egito não representa a garantia da liberdade, mas a consciência de seu valor, e a terra prometida não é um lugar de chegada, mas o espaço de nossa consciência que cabe a cada um e a todos juntos cultivar.

Escolhemos participar da tradição judaica pois ser judeu não é uma certidão outorgada por um estado, nem um clube ao qual devemos pedir autorização para entrar.
Mas um sentimento de mundo que não pode ser reduzido a uma única palavra,
Seja povo, religião, tribo ou família.

A tradição judaica é a sabedoria acumulada por milênios de sobrevivência como uma minoria.
Que pode nos enriquecer se fortalece nossa humanidade, e nos limitar se nos empurra ao isolamento.

Porque ser minoria exige conviver com crenças diferentes, dissonantes das nossas, ela nos ensina que todo problema tem varias soluções.
E que toda solução traz novos problemas, exigindo sempre sermos criativos.

Porque ser minoria nos ensina que devemos procurar entender o outro, que a convivência exige flexibilidade e não maniqueísmo.  Pois ninguém tem o monopólio da verdade. E que nos oprimimos e oprimimos os outros quando acreditamos que existe uma única forma correta de estar no mundo, e que os outros devem ser nossos espelhos ou que devemos ser espelho dos outros

Porque o futuro sempre pode ser melhor, com menos preconceitos, estigmas e opressão, apostamos no tikun olam, na melhoria da humanidade. Como lembra a Bíblia, em Pessach   saíram do Egito não só os judeus mais também “outros povos”.

E se hoje temos o privilégio de viver em condições de liberdade e prosperidade únicas na história, devemos lembrar de que fomos perseguidos e não podemos ser cumplices de nenhum tipo de perseguição, que fomos estigmatizados e não podemos aceitar que alguém o seja, e que a ascensão social pode nos tornar insensíveis e arrogantes.    Nunca deixando de lado o princípio no qual o Rabino Hillel sintetizou a Bíblia: “Não faças ao outro o que não desejas que façam a ti”.  

Mas ser minoria também pode nos fragilizar, produzindo inseguranças e sentimentos de perseguição e isolamento, que nos desumanizam.
E o medo de perder nossa identidade pode induzir a querer congelar as mudanças, colocando cada coisa no seu lugar retornando a um passado mítico, em vez de criar novas formas de ver sentir o mundo, que expandam nossa capacidade cognitiva e emocional.

Por isso não devemos temer a convivência, pois ela não borra nossa memória, sem a qual não existimos.  Pois toda memória individual se sustenta num passado que nos precede e um presente e um futuro   pelo qual todos somos responsáveis.

O passado não pode ser desprezado, porque condensa a sabedoria que nos faz ser em boa parte quem somos, nem deve ser uma camisa de força que tolhe nossa criatividade e liberdade.    Assim podemos dizer que:

O passado é uma luz que nos ilumina, mas não nos ofusca.
As diferenças nos enriquecem. 
Está em nossas mãos criar um futuro melhor para todos pois nada é mais ilusório do que pensar que nossos seres queridos possam viver em paraísos enquanto outros vivem no inferno. 
A luta contra a opressão nunca acaba.
E esta luta acontece em primeiro lugar nos nossos corações e mentes.

Porque estamos dispostos a melhorar e lutar por um mundo melhor, agradecemos: 

Shehechyanu, ve´quimanau ve’higuianu lazman haze.
Que vivemos, que existimos, que chegamos, a este momento.


Bernardo Sorj 

Bernardo Sorj

“Bernardo Sorj é director do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro . Foi professor-visitante em várias universidades europeias e norte-americanas, ocupando, entre outras posições, as cátedras Sérgio Buarque de Holanda, da Maison des Sciences de L’Homme, e Simón Bolívar, do IHEAL/Paris. É autor de vários livros, publicados em diferentes línguas, sobre teoria social, América Latina, democracia e judaísmo.”


terça-feira, 18 de março de 2014

Onde pode adquirir os nossos livros

Os nossos livros podem ser comprados nas boas livrarias. Se não encontrar na livraria mais próxima encontrará seguramente na nossa livraria, no rés-do-chão do edifício da sede da editora, na Rua Nova da Trindade nº24 em Lisboa e online em www.livroscotovia.pt, mas também nas livrarias das redes Bertrand, FNAC e Almedina; em Évora na livraria Fonte de Letras, em Setúbal na Culsete, em Almada na Escriba, em Leiria na Arquivo, no Porto na livraria Poetria, em Braga na Centésima Página e na livraria Santiago, em Óbidos;  em Lisboa encontram-se também à venda na livraria Pó dos Livros, na LerDevagar (Lx Factory) e na Ler (Campo de Ourique).


No Brasil é provável que encontre os nossos livros nas livrarias Cultura, em São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Guará, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza e no Rio de Janeiro nas livrarias da Travessa. Em Angola, na livraria Universitária/Chá de Caxinde, Luanda e na Livromania no Lubango. Em Moçambique, nas livrarias Minerva Central do Maputo, da Matola e da Beira. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Com licença poética

DONA DOIDA


“Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso,
com trovoada e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.”




Com licença poética, de Adélia Prado, Colecção Poesia

Livros Cotovia


L'alouette