quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Malagueta, Perus e Bacanaço

Ana Cristina Leonardo na revista "Actual" do Expresso elegeu o livro "Malagueta, Perus e Bacanaço" como um dos dez melhores livros de 2013.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

http://timeout.sapo.pt/artigo.aspx?id=6184

Malagueta, Perus e Bacanaço

Crítica, Livros

 
Quando toda a gente estava de roda do peru de Natal, Ana Dias Ferreira, que não come carne, agarrou-se a Malagueta, Perus e Bacanaço, livro de estreia do brasileiro João Antônio, que em vez de heróis tem marginais e venceu dois prémios Jabuti nos anos 60.
Parece história de filme mas é verdade. No dia 12 de Agosto de 1960, tinha João Antônio 23 anos, um incêndio deflagrou na casa da família, queimou mobílias, roupas, paredes, “lambeu tudo”. Entre as cinzas estava o livro de estreia do escritor brasileiro, um volume de contos passados no submundo de São Paulo com todos os seus marginais e malandros, em botecos e salões de jogo. Só com a roupa do corpo e sem acreditar no milagre da fénix que renasce das cinzas, João Antônio decidiu reescrever o livro de memória, conto por conto, como ele era antes de arder. Demorou dois anos, em “pensões, bibliotecas, apartamentos de amigos, quartos mesquinhos de hotel; enquanto, durante o dia, trabalhava em escritórios de mil coisas para remendar dívidas e empenhos familiares”. Quando terminou, o livro foi publicado com o título Malagueta, Perus e Bacanaço, tornou-se na primeira obra a vencer dois prémios Jabuti (o prémio literário mais importante do Brasil) ao mesmo tempo – prémio Revelação de Autor e Melhor Livro de Contos do Ano – e foi traduzido para oito línguas.
 
João Antônio haveria de contar o episódio do incêndio num prefácio publicado na terceira edição do livro, em 1980, e que é agora recuperado pela Cotovia no mais recente número da preciosa Colecção Sabiá, dedicada à literatura brasileira. Aí conta também como o conto que dá título ao livro acompanha “três vagabundos, malandros, viradores numa noite paulistana” e, sem denunciar as suas “amizades malandras”, admite que escreveu sobre o que viu “nas beiradas das estações, nos salões de joguinho, nos goles dos botecos”.
 
De facto, é nos vãos de escada, ou quase, que ganham vida os marginais deste livro, homens ou ainda meninos perdidos nas ruas de São Paulo, no bairro da Lapa ou da Penha, desempregados ou simples amantes da “vagabundagem”, cuja maior qualidade ora é pontapear caricas (“Afinação da arte de chutar tampinhas”) ora é jogar snooker – aqui chamado de sinuca – a dinheiro, como acontece nos textos “Frio”, “Visita”, “Meninão do Caixote” e “Malagueta, Perus e Bacanaço”. O título do livro, e do conto correspondente, segue aliás as alcunhas de três ases paulistas do taco: Perus, o mais novo, 19 anos, fugido do quartel, Malagueta, “velho sem-vergonha, esmoleiro, cara-de-pau”, e Bacanaço, “jogador maduro, ladino perigoso da caixeta, do baralho e da sinuca, moreno vistoso e mandão, malandro de mulheres”.
 
A riqueza da linguagem, as frases curtas, a vivacidade com que os marginais ocupam o tradicional lugar de heróis e a própria renovação do conto brasileiro, aqui tornado mais actual e mais próximo do povo, explicam o sucesso que o livro obteve de imediato, e “Malagueta, Perus e Bacanaço” é de tal forma visual que em 1976 acabaria por se tornar também filme, com o título de O Jogo da Vida, realização de Maurice Capovilla e Lima Duarte no elenco. A qualidade literária dos falhados também está lá, em passagens como: “Meu irmão, tipo sério, responsabilidade. Ele, a camisa; eu, o avesso.” (p. 35) Ou, mais demoradamente: “Estavam os três quebrados, quebradinhos. Mas imaginavam marotagens, conluios, façanhas, brigas, fugas, prisões – retratos no jornal e tudo o resto –, safadezas, tramoias; arregos bem arrumados com caguetes, trampolinagens, armações de jogo que lhes dariam um tufo de dinheiro; patrões caros aos quais fariam marmelo, traição; imaginavam jogos longínquos, lá pelos longes dos subúrbios, naquelas bocas do inferno nem sabidas pela polícia; principalmente imaginavam jogos caros, parceirinhos fáceis, que deixariam falidos, de pernas para o ar.” (p.155)
 
Com o passar dos anos, não seria só o episódio do incêndio a parecer um filme, mas a própria vida de João Antônio, entretanto já escritor e jornalista. E tudo porque, desgostoso de se ver na  classe média que chamava de “mérdea”, chegou a querer mudar de vida e deixou os cartões de crédito e as roupas caras para viver mais despojadamente e se dedicar à literatura. Depois do livro de estreia, publicou mais uma quinzena de obras e coleccionou centenas, doadas a uma universidade pelo filho depois da sua morte, em 1996. Da biblioteca pessoal do paulistano faziam parte dedicatórias de outros escritores amigos como Jorge Amado, Clarice Lispector, Dalton Trevisan e Carlos Drummond d’Andrade. Clarice escreveu-lhe: “a João Antônio, que não é tão troglodita como pensa”. Flávio Moreira Costa viu o autor na obra e deixou apenas um abraço “para João, malandro velho, da sinuca, da luta”.