quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A dádiva

Abriu a caixa do correio. O hábito, pensou. Uma carta. Feliz aniversário, obrigada, dar é receber. Pois, obrigada eu. Mais folhetos de vários hipermercados apesar do cuidado em colocar a etiqueta amarela. Não obrigada. Que se fodam com as vossas promoções, não me apetece rigorosamente nada, embora tenha dinheiro na minha conta bancária, mais do que muita outra gente que nem eu que com certeza merecia melhor. Tanto como eu, pelo menos. Ou até mais. Solteira, sem filhos. Desejados, sim. Destinados, não. Ir ao café latino. Abrir o caderno. Nada a registar. Inventar, que a minha imaginação não me leva longe, gira em torno das mesmas coisas há que anos. Complexos, culpas, obsessões. Pequenos traumas. E inevitáveis repetições. Inventar, pois, se é que não é repetir de outro modo mais uma vez. Na dúvida, inventar mesmo assim. Pode ser que no meio dessa aparente desolação, desse infinito palavreado interior, desse papaguear imbecil, surja apesar de tudo algo de. De quê? Trinta formas para espantar a solidão. Trinta formas para entreter a solidão. Trinta formas para sobreviver à solidão. Enfrentar, confrontar, combater, surpreender. Eu não estou só, afirma peremptoriamente a personagem de um filme, estou sozinha. Só ou sozinha, que diferença. Só e sozinha, eu, a sós comigo própria, mas nem sequer é verdade. Especialista em formas, à falta de corpos. Deformação profissional. Ou pessoal? Pode ser que eu desencarne, afirma Noémia, outra personagem de um romance. Eu, desencarnada já, escrever confirma que ainda existo? Ou que vou existindo, mais ou menos? Mais para mais ou mais para menos, uma das suas frases favoritas que os amigos recordarão talvez. E, no entanto, não tão desencarnada que não possa doar meio litro de sangue de quatro em quatro meses, pensando ironicamente, enquanto aperto diligentemente a bola de borracha, contraio e relaxo a mão esquerda onde a veia mais saliente vaza, e observo o deslocamento do sangue no tubo e a subida do seu nível no saco de plástico, pensando ironicamente. Espero não envenenar ninguém. E não, não sou homossexual. Não, nem sou toxicodependente. Ou, enfim, não mais do que os outros. Ponho a cruz sem grande convicção. Sim ou não? Não há outra alternativa? Não, não partilho seringas. Ou, enfim, só metaforicamente. De resto, eu própria sou uma metáfora. Mas o meu sangue é literal. Será? Se cada sangue narra várias histórias. Sim, é isso. Sou uma metáfora. Corroída, gasta, desgastada. Desbotada, coçada, deslavada. Diz-se lexicalizada. Como o pé de uma mesa. A perna de uma cadeira. Como queres ir comigo para a cama. Como uma franqueza que desarma. Porquê, andávamos armados? Claro que sim. Não estamos no faroeste, mas trazemos a pistola no coldre, a espingarda a tiracolo, a arma semi-automática debaixo do kispo, treinamos a mão direita para matar depressa antes de morrermos nós. A mão esquerda, essa, é objectora de consciência, senão mesmo pacifista por natureza (klee saltitando de exaltação enquanto pinta abominavelmente mal com o pincel aos ziguezagues na mão esquerda). Prossigo preenchendo o formulário. Sim, claro, sempre com preservativo. Sozinha, sempre, mas com preservativo. Para quê, mas com preservativo. Não, não se transmite. A minha dor é doença, mas não se pega. Mata-me a mim, mas não é contagiosa. Que querem, sou pouco agressiva. Morro-me ingerindo metodicamente a minha própria dor, desmultiplico-a pelas células, dizimo-me, dissipo-me, disperso-me, fragmento-me, mas deixo os outros em paz. Eles que disparem uns contra os outros. Eles que afiem as facas e se flagelem mutuamente.
De modo que regressada do café, nada a registar, ou sim, ou sempre, mas demasiado tarde, a vizinha dos sapatos vermelhos de vinte anos sofreu uma trombose e caminha amparada no braço de uma filha, hei-de dedicar-lhe um poema um dia, senão mesmo uma espiral, mas demasiado tarde, morrerá uns meses depois.
De modo que regressada do café, o caderno encerrado colorido de espirais arroxeadas, a sua cor preferida, encheu a banheira azul, ligou os jactos de água, aromatizou a água com sais de banho de jasmim, respirou fundo, relaxou ambas as mãos, abriu ambos os pulsos, e descontraiu finalmente o corpo todo. A água encarnou. O meu sangue, ei-lo, tomem lá, é todo vosso, os cinco litros de uma vez só.
Parabéns a vocês.
 

                                   
Bénédicte Houart
   
 
                                                                                             
                                                                                      
                     

 

                                                                                             

                                                                                      

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Com toda a sinceridade


    Com toda a sinceridade lhe digo que… Fiquei logo desconfiado. Continuei a ouvir, embora. E ela prosseguiu construindo frases, repetindo ideias, esgrimindo e rebatendo argumentos que eu não lhe opusera, nem lhe oporia. Com toda a sinceridade, reiterou, e abria e fechava a boca de lábios demasiado pintados como uma grotesca careta quase indecente. Parecia exibir o sexo húmido no lugar da boca, que traria ela no lugar do sexo, ocorreu-me vagamente. Nada a não ser ele, respondi de novo vagamente. Inspeccionava-a sem grande interesse, passava dos seus lábios para os seus olhos a negro contornados, excessivos também, dos seus olhos para o seu cabelo aparentemente despenteado, cuidadosamente solto, com toda a sinceridade uma vez mais. Despediu-se sorrindo-me com uma timidez um tanto ousada, promissora julgaria ela, nem um pouco dir-lhe-ia eu, estendeu-me a mão, apertei-lha molemente, e permaneci sentado meditando sobre a necessidade de as pessoas assegurarem a veracidade das suas palavras, perante si próprias sobretudo, quando isso deveria, deveria?, estar pressuposto.

E, no entanto, eu próprio, vagamente, tão vagamente quanto possível, não me eximia eu a qualquer compromisso, não adiava eu as acções que me obrigariam a tomar partido, a discutir, a recusar ou a aquiescer. Pelo menos a contemporizar. Mesmo o meu rosto, não o tornara eu no decorrer dos anos o mais inexpressivo possível, como uma máscara que nunca rugas algumas descobririam nem revelariam, ora iluminando-o, ora ensombreando-o, as rugas, em qualquer caso afirmando que sim, sim, sim, algo houvera passado por lá, parado breve, e deixado a sua cicatriz, como pegadas num areal ou num caminho enlameado. Não, não, não, o rosto ileso, indemne, e o corpo, o corpo carcomido pelo tempo e oculto por sob os agasalhos, tinha acontecido sem dúvida uma hora, ou várias, em que eu o haveria desnudado de boa vontade, de tenso desejo, tal como teria oferecido este rosto que outrora clamara meu a todas as intempéries, mas fora há tanto tantos anos que a recordação se esbatera até transformar-se em nada. E, portanto, ela, que era linda, de sexo à flor do rosto, olhos, lábios, malares, maxilares, e quem sabe se o rosto no lugar do sexo num amplo sorriso franco, e se me oferecera com toda a sinceridade, deixara-a eu afastar-se sem mágoa nenhuma, sem gesto algum. E o meu sexo permanecera também ele inerte, impávido, ausente em parte incerta. Pois bem, restava-me concluir então que me encontrava morto já, embora respirasse, caminhasse, trocasse palavras vãs. O mundo era-me cemitério e a morte nada me surpreenderia e amedrontaria. Perdera oportunidades umas atrás das outras e sobrava essa última que eu com certeza desta vez não lograria desperdiçar.

Eis assim analisada friamente, ou mais propriamente sintetizada por intermédio de generalidades porventura cruéis e abusivas, mas certeiras, esta minha tão pouca minha, tão pouco própria, tão pouco vida. Vaga vida vezes nada.

                                                                   
Bénédicte Houart