segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Versos que lembram - Guerra Junqueiro

 
               O cristal da minha infância e da minha adolescência foi riscado por uma girândola de sarcasmos que dá pelo nome de A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro. Não da mesma maneira nas duas idades, claro está.
                Na infância, porventura ainda mesmo de saber ler, eram as ilustrações de Leal da Câmara que me grudavam ao livro. Impressionavam-me ora pelo tenebroso (um papa a ser arrastado para a cova por um esqueleto, a morte), ora pelo caricatural (um sujeito com uma perna descomunal, comparada com a outra, que era normal).
                Depois, com o correr do tempo, fui deslocando as minhas atenções para o texto — sem que nunca, aliás, deixasse de me impressionar com as ilustrações, algumas das quais, a falar verdade, ainda hoje me perturbam.
                O meu romantismo adolescente deixou-se comover pelos trechos líricos, infelizmente escassos, nomeadamente o célebre e celebrado passo de “Aos simples”:
 
                               Minha mãe, minha mãe, ai que saudade imensa (…)
 
                Mas a costela jacobina que me acompanha desde que me conheço deliciava-se era com os motejos anti-clericais. O meu poema preferido veio a ser “O melro”. Também aí havia, é certo, cintilações líricas que me emocionavam: a cena do envenenamento dos filhotes engaiolados pela mãe, que só conhecia uma moeda de troca para a liberdade do voo — a morte. Paralelamente, o poema punha-me com uma clareza radiosa diante do absurdo do dogma do pecado original:
 
                               E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
                               É doutrina da igreja. Estou vingado!
 
                A Velhice do Padre Eterno foi, digamos, uma das minhas escolas de livre pensamento, e ainda hoje o é, descontando-lhe todos os defeitos, todos os exageros, todas as caricaturas, todos os passos em falso, todo o fácil e gratuito bimbalhar de sinos e trovejar de cominações.
                Qualquer livro, sendo ao mesmo tempo o produto de uma época, é simultaneamente um objecto de pensamento capaz de suportar as análises dos tempos subsequentes. Digo isto a propósito de uma das novas tendências da crítica literária, a ecocrítica, que de alguma forma é uma resposta às preocupações dos movimentos ambientalistas. Hoje, o poema “O melro”, visto à luz da ecocrítica, pode considerar-se um verdadeiro hino à biodiversidade, tanto em moda, culminando no momento catártico do arrependimento do padre cura:
 
                               Tudo o que existe é imaculado e é santo!
                               Há em toda a miséria o mesmo pranto
                               E em todo o coração há um grito igual.
                               […]
                               Só hoje sei que em toda a criatura,
                               Desde a mais bela à mais impura,
                               Ou numa pomba ou numa fera brava,
                               Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!...
                               … … … … …
                               Ah, Deus é bem maior do que eu julgava…
 
                Foram estes os versos que me lembraram hoje.  
 
 
 
A.M. Pires Cabral