segunda-feira, 28 de maio de 2012

Residencial alegria

                                     

 Acordo estremunhado com a sirene da ambulância. Hei-de numa igual viajar um dia. Para tão longe daqui. De noite choveu torrencialmente. Os carros travam e deslizam. A primavera tarda. As tílias já floresceram. Aspiro o seu odor. As pombas sujaram o plástico. É costume. Cada qual tem de tratar da sua vida, os outros que se lixem, desde que não atrapalhem. Enfio o braço debaixo do banco, agarro na embalagem de cartão. Bebo um ou dois tragos para despertar. É o meu cafezinho da manhã. A dona margarida já foi à sua vida. É madrugadora, sempre foi, a gente não muda por tão pouco. Deixou a tralha naquele banco ali ao fundo, junto ao repuxo d’água. A tralha, não, os trapos. Os seus trapinhos. É onde ela gosta de adormecer, diz que acorda bem disposta embalada pelo ruído monótono da água que sobe e desce e desce e sobe. Onde a gente lava a cara é o bebedouro das pombas, dos pardais, dos melros. Dos corvos. À noite, não, a câmara desliga-o, é para poupar energia, de resto que lhes importa a eles se há gente que gosta de adormecer assim. Que não tem como adormecer senão assim. Um cão vem farejar as latas semi-vazias. Enxoto-o com palavrões. Gosto de animais, mas cada qual que se desenrasque. É o meu almoço, pá, chega para lá. Enfio a mão no bolso das calças. Tiro uma beata. Acendo-a. É o meu cigarrinho da manhã. Outra beata. À sexta, estou bem desperto. Se não tenho medo das doenças, está a gozar comigo, ou quê? Sabe-se lá se… Pois, tem razão, sabe-se lá, sabemos lá se. O sol apareceu entre duas nuvens negras. É frio. Gelado de frio. A primavera tarda. A dona margarida disse-me ontem que este ano não vai haver primavera. O verão também tarda. A chuva comove-me, talvez porque não a ouço caindo dentro de casa bem resguardado. Tenho os ossos enregelados. Dói-me o corpo todo, deve ser do reumático. Mesmo assim comove-me. Doer recorda-me. Como vim parar aqui. Não há muito para contar. Um certo dia igual aos outros dei por mim a escolher um destes bancos de trouxa às costas. Como um caracol. Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol. O corpo cravejado de cornos. Juntei uns cartões, uns pedaços de linóleo, encontrei um colchão velho junto a um caixote do lixo, e armei a tenda. Chamo-lhe a minha casa de campo. Chamem-lhe o que quiserem. Eu chamo-lhe a minha casa de campo. As estrelas são feias vistas daqui. As tílias cheiram a lixo. A água do lago é porca. A dona margarida não tem os dentes da frente, quando ri, ora dá vontade de rir com ela, ora mete pena. Tudo nela parece postiço menos a alma. Que eu sou cristão. Pessoas postiças dos pés à cabeça topo-as eu todos os dias. Há quem até a alma tenha postiça. Quando lá estivermos todos é que se saldam as contas, aqui é só a fingir. Tremem-lhe as mãos, à margarida, é da pinga. Se começa a conversar ninguém a cala. Até gosto, ouvindo-a vago distraído tudo o que dói sinto-o menos ou quase nada. Diz que era cabeleireira, cá por mim era barbeira. Sempre que se fala de alguém importante diz conheço-o bem, aos cantos todos da casa, frequentava o meu salão, era cliente regular. Traz o cabelo cortado rente por causa dos piolhos. O meu, não, é encaracolado, prendo-o com um elástico. Os piolhos quero lá saber, sugam-me o sangue, devem cair de bêbedos. No outro dia ouvi uma senhora bem posta na televisão a afirmar peremptoriamente que o direito de circulação é um direito humano fundamental. Fartei-me de rir. Venha falar comigo que eu explico-lhe. Sabe como é a gente estar exilado na sua própria cidade? Pois, estou a exercer o meu direito fundamental. Antigamente só circulava dentro de casa e de casa para o trabalho. A minha mão também circulava bastante, da cara da minha mulher para a cara de cada um dos meus filhos, era um ver se te avias. Arrependi-me já estava na rua. Que as ruas têm olhos, ouvidos, línguas, dentaduras. Agora circulo pela cidade toda, lisboa tem muito que se lhe diga, que se lhe veja, devia era candidatar-me a guia turístico para moradores da rua. Da vida desavindos. O ideal era pôr casa junto a um miradouro, mas a polícia não deixa por causa dos estrangeiros. A desgraça quer-se entaipada. Eu, eu podia ter sido tudo o que quisesse, aliás, estou aqui só de passagem, sou temporário. Um ser temporário. A vida é uma doença crónica cuja cura é a morte. Isso é o vinho a filosofar. Olhe que não, olhe que não. Logo à noite os moços da associação trazem-me a sopa e uma sandes. O vinho tira-me o apetite. A vida matou-me a fome. Foi para eles que escrevi esta prosa. Gravei-a na minha memória. Acho que nunca falei tanto. Acho que nunca disse nada. Agora vou calar-me. Aquela rapariga da pensão veio sentar-se no banco ao lado. Olha para mim sem espanto nem comiseração, abre um caderno, escreve. Ia pedir-lhe uma moeda, depois contive-me. Há algo de inviolável no seu olhar, de digno na sua atitude, de belo nas suas mãos movendo-se devagar, talvez esteja a desenhar. Ia acrescentar para rematar que o meu dia a dia é igual ao meu mês a mês e ao meu ano a ano desde há sete anos. Mas não. Hoje aconteceu-me esta rapariga. Podia ser minha filha. A minha família de verdade corri com ela do meu coração faz muito tempo. O arrependimento não ressuscita os mortos. Mas rói os vivos. A rapariga não é minha filha, mas podia ser. Foi minha vizinha durante três dias. Ela dentro e fora e eu fora e fora. Quando lá estivermos todos e ela aparecer finalmente, há-de interceder por mim. Ela sabe, eu sei.
Nunca me viu de verdade porque eu estava encafuado debaixo do plástico e dos cartões, espreitei-a eu da janela. É, a minha casa de campo tem janelas, terraços, horta, canteiros, pomares. E os seus olhos percebi-o logo são daqueles raros que atravessam paredes e rumam sem hesitar para o coração das coisas. Rosa dos ventos. Portanto, há-de interceder por mim. Ela não sabe que sabe, eu sei que ela sabe. Tanto faz. Dei-lhe um nome só meu. Chamá-la-ei. Voltar-se-á.

Bénédicte Houart