quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Peças escolhidas 3" de Carlo Goldoni

O terceiro volume de "Peças escolhidas" de Carlo Goldoni acabou de ser publicado e já está disponível na nossa livraria da Trindade e na loja online www.livroscotovia.pt

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Versos que lembram (3) - Miguel Torga


 Hoje lembrou-me um poema — por sinal um poema ‘estafado’; entenda-se: abundantemente (re)citado — de Miguel Torga. Mas a memória tem razões que a razão desconhece — paráfrase igualmente ‘estafada’. O poema chama-se “S. Leonardo de Galafura”, lê-se no Diário IX e acho que me vem às vezes à memória por uma razão improvável: por vingança. Isto é, o poema vinga-se por, durante tanto tempo, eu o ter lido levianamente, sem chegar ao seu verdadeiro fundamento, digamos, ético.


Comecemos por transcrevê-lo:

 À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
De eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Douros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o barco avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho.

Pois que via eu neste poema, lido vezes sem conta, algumas delas na própria parede da capela do santo visado, onde está estampado num painel de azulejos? Via apenas aquilo que decorria do rótulo de Torga como poeta duriense, isto é, cantor apaixonado das belezas locais: via portanto uma glorificação da paisagem, a que o próprio S. Leonardo era sensível.
Só bastante mais tarde, comecei a ver outra coisa, maior e mais importante, e que prendia não com ‘Torga poeta do Douro’, mas com ‘Torga Orfeu rebelde’: o antagonismo entre transcendência e imanência, entre o ‘cais divino’ e o ‘cais humano’, entre o além e o aquém. E percebe-se de que lado Torga está: ele acredita na superioridade do mundo real e natural sobre o mundo ideal e prometido. S. Leonardo demora-se gozosamente na viagem para o destino (‘Sem pressa de chegar’) porque sente mais forte o apelo da origem (o ‘cheiro / A terra e a rosmaninho.’).
 E dizer que andei tanto tempo a ler mal este poema!

A.M. Pires Cabral

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Uma rosa para faulkner

Vinte anos dormi a teu lado. Vinte. Não que eu os contasse. Sentindo-os, antes os descontava. Ou nem isso. Nem os anos, nem os meses, nem dias. E as noites, que noites, talvez só houvesse noites, talvez uma só, imensa, contínua, palpável. Sei o que dirão. Sei que dirão que eu vivia a escuridão toldando-me as ideias, ou então uma luz demasiado intensa que me cegava e os olhos e o cérebro. Sei que dirão que eu já não vivia, cadaverizada antes do tempo. Bem sei que encontrarão teias de aranha esvoaçando pela casa, poeira de tempo entranhada nos móveis, nos tecidos, nas cortinas, entre as teclas do piano desafinado, entre as madeixas do meu cabelo deslavado. Dirão “a velha” referindo-se a mim. Miss Emily, solteira velha virgem desperdiçada destrambelhada. Mas, meu amor, era eu que te aquecia os pés gelados, era nas tuas pernas que as minhas se entrelaçavam, e o teu torso os meus braços apertavam. Por vezes, eu, agarrada a ti, outras, eu, só pousada para te não acordar. E, de madrugada, arejando o quarto, mudando os lençóis, abrindo as portadas para que a luz do sol iluminasse o teu belo rosto. E maquilhando-me horas para que reconhecesses sempre a menina que disseras amar e que de ti decidira nunca abdicar. E juro que às vezes mal me tocavas e eu ouvia logo sinos a rebate sacudindo-me o corpo esquálido, ecoando-me nas veias azuladas, oscilando no meu cérebro entorpecido. Nessa tristeza alegre que me servia de consolo e que eu não trocaria por nenhum outro sentimento.
Enterrar-te-ão comigo, se não juntos, pelo menos à mesma hora do mesmo dia do mesmo mês da mesma terra. A noite prolongar-se-á velando-nos. Todos hão-de pensar que te matei desde esse dia em que desapareceste da vila quando me disseste que não me querias e eu não acreditei. Mas ninguém ousará dizê-lo em voz alta. Tudo o mais, sim, mas isso não.
Noblesse oblige.                                                     

Bénédicte Houart

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sábado (Não se pode viver sem Goldoni)


Não têm sido especiais estes sábados, houve um de reflexão (para quê?) antes de eleições, outro houve de recuperação (depois de eleições). E agora que a vida recomeça, dizem-me da Cotovia que está prestes a sair o terceiro volume do TEATRO de Goldoni que ajudei a escolher. Este tem a Vilegiatura, obra maior do realismo, retrato de sociedade e das secretas pulsões do indivíduo dentro do grupo que abriu o teatro a esses retratos de conjunto em que Tcheckhov se iria especializar para nosso sofrimento (credo, aquelas Três Irmãs que vi recentemente no Nacional, que pinderiquice, que piroseira!). Goldoni, veneziano, é, para o teatro, aquilo que Rossellini foi para o cinema: descobriu que num palco tudo cabe, chávenas, café, sombrinhas, férias, letras cambiais, contratos matrimoniais, testamentos, tudo o que faz a vida. Ele que disse "tudo pode ser teatro". Tudo, inclusivamente o fim da tarde sobre uma sociedade. Na Trilogia antevemos não apenas os grandes russos, como Lampedusa, as cortinas esvoaçando à brisa do Mediterrâneo, o cheiro a alfazema dos quartos das raparigas, o suor da tardes de verão, o tédio que haveria de fazer nascer, daí a pouco, o romantismo. Pois é, não se pode viver sem Goldoni. E estes três volumes, na ausência de palcos que os respeitem, hão-de durar o tempo de uma vida, esperando as vozes dos actores, as luzes límpidas dos projectores, a seda, o algodão, os corpos. Mas farão as noites tranquilas dos homens de boa vontade. Se ainda for possível sê-lo.


Jorge Silva Melo

O terceiro volume de "Peças escolhidas" de Goldoni vai ser publicado pela Cotovia no final deste mês.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

The Man With The Blue Guitar

                                                                                                     Gabriela Villarreal


The Man With The Blue Guitar, by Wallace Stevens

II.

I cannot bring a world quite round,
Although I patch it as I can.

I sing a hero's head, large eye
And bearded bronze, but not a man,

Although I patch him as I can
And reach through him almost to man.

If to serenade almost to man
Is to miss, by that, things as they are,

Say it is the serenade
Of a man that plays a blue guitar.


II.

Eu não posso criar um mundo perfeito,
Ainda que o improvise como posso.

Eu canto a cabeça de um herói, largo olho
E barba em bronze, mas não um homem,

Ainda que o improvise como posso
E ao homem através dele quase chegue.

Se quase o homem tanger
É, por isso, perder as coisas como elas são,

Diga-se que é a serenata
De um homem que toca a guitarra azul.


Tradução de Luís Quintais

quarta-feira, 15 de junho de 2011

"Bénédicte vê o mar" de Laura Erber






Laura Erber, escritora e artista visual brasileira, disponibiliza aos leitores do Blog da Cotovia o seu novo livro: “Bénédicte vê o mar”, publicado pela Editora da Casa e dedicado à poeta e tradutora Bénédicte Houart. A graphic poetry traz desenhos feitos “a dedo” no Ipad, e conjuga-os a um poema que conta a história de Bénédicte a partir do momento em que ela decide trancar-se no porão de uma marmoraria para escrever.

“Acredito na ideia de literatura (ou de poesia) como lugar de mediação (não de fusão), uma espécie de dobradiça em que vários materiais confluem, mas não chegam a se fundir. E este livro intensifica meu interesse por momentos embrionários, por processos criativos, acho que Bénédicte tenta captar isso, e procura entender por que muitas vezes se perde no momento em que algo ganha sua forma final. O poema e os desenhos falam dessa turbulência criativa. Todo mundo tem um porão de marmoraria onde se tranca para que algo possa acontecer, mesmo que seja a rua ou o cosmos inteiro”, afirma Laura.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"O verdadeiro ator" de Jacinto Lucas Pires



 
Recentemente publicado, o terceiro romance do escritor, músico  e dramaturgo Jacinto Lucas Pires conta a história de uma personagem grotesca, o ator Américo Abril, confuso com os diversos papéis que desempenha na vida — pai cansado, artista sem inspiração, marido pisado e amante infeliz — e no cinema — onde encarna Paul Giamatti, o seu alter-ego.
Em pano de fundo (em sintonia intrigante com o momento actual), Portugal em estado de alerta:  "Não há nem um gesto, a mínima sugestão de violência. Só o peso da multidão portuguesa, de braços para baixo, corajosos ombros contra as portadas constitucionais. Nem uma palavra mais dura sequer, apenas uns milhares, um milhão, de almas usando o peso da maneira mais sóbria. Ombros, testas, coxas, imaginem. Começa." Numa escrita cinematográfica, Jacinto Lucas Pires volta a afirmar-se como uma das vozes mais bem articuladas da sua geração.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Une fois n’est pas coutume


É quase primavera. Enquanto o meu cão vai largando pêlo, por aqui, por ali, por todo o lado, eu vou largando penas. Não que seja um pássaro, para tal me faltando sobretudo as asas, e sobrando, tristemente, contraditoriamente, um coraçãozinho que bate desalmado e frenético à mais leve suspeita da estação que se avizinha. Primavera do a despropósito… E penso: para quê mais uma? És capaz de me explicar, meu deus, se existes. E se não existes, pois bem, explica-me também a ver se de uma vez por todas eu compreendo. Mas tu calas-te, e eu não me contento. Tu calas-te, é costume, e eu agito-me sem propósito.
É quase primavera. Mais uma. Aceito, meu deus, porque me resigno. Mas não te agradecerei, nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais. Nem ao final do dia nem ao seu nascer. Se sabias que nada de fundamental mudaria, e tu sabias, por que razão me deixaste sobreviver naquela noite de inverno em que me atirei, de corpo inteiro julgava eu, quando deveria, deveria, deveria ter morrido?
Se eu estava quebrada por dentro, e tu sabias, por que razão não me deixaste ficar quebrada por fora e sem remendo possível? Agora, por fora trago cicatrizes que quase ninguém vê, enquanto as lesões e fracturas interiores permanecem expostas escorrendo pus.
É quase primavera. Mais uma. Escorro pus, é costume. O meu cão larga pêlo. É costume. Uma vez não são vezes. Pois não? Não era assim? Não foi assim que me disseram? E eu, ó criança, acreditei.

Estamos sempre a aprender. Estamos sempre a esquecer. Felizmente, parte daquilo que esquecemos é também aquilo que aprendemos e que, à medida dos anos decorrendo, descobrimos com alívio que nunca nos fez realmente falta, bem pelo contrário. Como quem muda de casa, e estamos sempre em mudanças, deixamos de cada vez algumas caixas para trás. E somos, cada vez mais, a nossa própria casa, onde guardamos apenas aquilo que nós próprios somos, ou melhor, aquilo que havemos de ser, cedo ou tarde, mas sempre a tempo.

Bénédicte Houart, 3 de março 2011