quarta-feira, 30 de março de 2011

Trecho de "Histórias de Imagens"

                             Vincent van Gogh, "A Arlesiana" (1888)


 
Há alguns anos vi numa exposição de arte um quadro, num certo sentido, impressionante e rico, a “Arlesiana” de Van Gogh, o retrato de uma mulher tão bela, sendo uma mulher do povo já velha, calmamente sentada numa cadeira e olhando em frente com um ar sério. Traz vestida uma saia, daquelas que se vêem todos os dias e tem mãos como várias vezes se encontra sem se reparar sequer nelas, por não serem, de modo nenhum, belas. Também não há nada de extraordinário numa modesta fita no cabelo. O rosto da mulher é duro. Os traços do rosto apontam para diversas experiências marcantes.
Confesso até com prazer que observei o quadro, que me parecia, sem dúvida, um belo trabalho, primeiro sem grande atenção, com o propósito de prosseguir rapidamente e ver outros objectos, sendo que me senti, no entanto, como que preso por alguma coisa estranha. Perguntei-me o que haveria ali de extraordinário, tendo-me convencido que seria lamentável o artista gastar do seu suor com algo tão desinteressante e insignificante. Se é que gostaria de possuir o quadro, perguntei a mim mesmo; mas não me atrevi a dar uma resposta, positiva ou negativa.
Em seguida, coloquei-me a questão aparentemente simples e julgo que não totalmente despropositada de saber se existiria sequer, na nossa sociedade, um lugar apropriado para quadros do tipo desta “Arlesiana”. Ninguém poderia ter encomendado este género de obra; aparentemente, terá sido o próprio artista a atribuir a si mesmo a tarefa, pintado o que nenhum homem quer ver representado. Quem é que estaria interessado em pendurar este velho quadro no seu quarto?
“Mulheres sublimes”, dizia para comigo mesmo, “foram pintadas por Tiziano, Rubens e Lucas Cranach”. Ao mesmo tempo que dizia isto, o nosso artista, que foi certamente mais sofredor que de espírito alegre, feria tanto a minha sensibilidade como a do nosso tempo, que podemos caracterizar como difícil e sombrio.  É verdade que o mundo nunca deixará de ser certamente belo e bons propósitos terão sempre os seus frutos. Contudo, ninguém contestará o facto de algumas circunstâncias serem realmente opressivas.
Ainda que paire em torno do quadro de Van Gogh algo triste ou desagradável, parecendo que todas as duras condições de vida se manifestam com clareza suficiente, senti-me ainda assim contente, dado o quadro ser uma espécie de obra-prima. A cor e o domínio do pincel são de uma precisão impressionante e a configuração é de grande nível. O quadro contém, entre outras coisas, um magnífico pedaço de vermelho num fluxo encantador. Como um todo tem, no entanto, uma maior beleza interior que exterior. Não existem também alguns livros que não têm uma recepção fácil, por serem duros, isto é, por ser difícil atribuir-lhes um determinado valor? A beleza, por vezes, só é revelada de forma insuficiente.

Robert Walser
 
Traduzido do alemão por Pedro Sepúlveda

O livro Histórias de Imagens, publicado pela Cotovia, vai aparecer nas livrarias em Abril.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Especiarias

No palco do velho teatro, de ornamentos dourados, vê-se uma cozinha moderna, de aço inoxidável, e uma discussão filosófica entre dois cozinheiros. Na confecção dos pratos, um quer ser sempre surpreendido pela imprevisível multiplicidade da natureza e dos seus produtos, o outro poder voltar a cozinhar o prato ideal sempre com a mesma exactidão. A discussão transforma-se em conflito. Natureza versus civilização. O cozinheiro da natureza ferve em pouco água, tem o coração na boca, uma em duas palavras é um palavrão, erupções vulcânicas, artilharia pesada, do filho da mãe e dos seus diversos parentes. O público estremece de riso a cada rajada. Um sismógrafo podia registar o modo atento como o público ouve e reage especialmente a estas palavras, mas não explicar o que estas palavras, que se diz estarem alojadas em divisões particulares do cérebro, têm de tão especial.
Aqui, estas palavras não são censuradas por um apito, como na televisão, mas ecoam na abóbada onde pairam deusas e divindades. Parecem andar por ali à rédea solta, mas na realidade saltam de um índex, galgam fronteiras, quebram tabus, arrombam portas. Em cada gargalhada vibra a alegria da fechadura partida. São tão saborosos os frutos proibidos! O profano faz das suas no espaço sagrado, a valeta abre a bocarra grosseira no salão requintado.
Na cozinha de aço inoxidável, os homens trabalham a todo o vapor, mas não estão só entre eles. Não estão sozinhos em casa junto ao fogão. A quarta parede já há muito que foi demolida, os convivas olham para dentro das panelas e acrescentam a sua pitada. Aqui, prova-se o que está a ser cozinhado. Dantes ameaçava-se castigar as crianças com pimenta na língua se levassem palavras destas à boca, mas agora são precisamente estas palavras a especiaria exótica para o prato que se confecciona em conjunto.
No espaço do teatro, os muitos cozinheiros não estragam o cozinhado. São cúmplices, conhecem o peso de cada palavra no código secreto que cada língua é.



Vera San Payo de Lemos

quinta-feira, 24 de março de 2011

Uma vontade de extinção: sobre Kees

                                                                  Weldon Kees

Weldon Kees (1914-1955?), escritor, poeta, compositor, músico, cineasta, artista. Qualquer relatório minoritário da poesia de expressão inglesa do século XX deveria fazer incluir o seu nome. Nasceu no Nebraska. Viveu em Denver. Depois em Nova Iorque onde escreveu para publicações como Paramount News, Time Magazine ou The Nation. Nesses anos 40 do século XX terá ainda formado o grupo Forum 49 em Provincetown, Massachusetts. Este grupo fazia reunir artistas como Hans Hoffman, Adolph Gottlieb, Elaine de Kooning e Robert Motherwell. Em Nova Iorque, Kees expôs as suas pinturas na Peridot Gallery e os seus poemas foram publicados no New Yorker. Parte posteriormente para São Francisco onde escreve música para filmes, tornando-se também realizador, colaborando então com o antropólogo Gregory Bateson. Em 1955, ano em que morre Wallace Stevens, Weldon Kees abandona o seu Plymouth na Golden Gate Bridge com a chave na ignição e desaparece.

Kees permanece há muito como uma das minhas referências mais significativas. A tonalidade escura dos seus versos, o sentido de humor nem sempre óbvio, a dimensão dramática da sua poesia (que só encontra paralelo em Eliot) continuam a interpelar-me. Interessa-me particularmente a vontade de extinção que a sua poesia parece convocar e que se enlaça com o incompleto e inacabado da poesia e da vida que o seu desaparecimento faz sublinhar.

Num momento histórico em que toda a gente quer aparecer, Kees será o exemplo do poeta que celebra em permanência a futilidade desse esforço e a vontade do contrário. A ironia está em ter escrito poemas tão extraordináros e difíceis. Seja como for, Kees é parte do relatório minoritário da poesia de expressão inglesa do século XX, disse, e aí deverá contar sempre contra todas as intenções monumentalizadoras da arte.

A poesia é uma arte de apagar, e é assim que o vejo e quero continuar a ver. Em Verso Antigo dediquei-lhe «Kees» (pp. 64-65) e em Canto Onde traduzi «Para a minha filha» (p. 54).  Aqui fica também «Subtítulo».

Subtítulo

Para esta noite apresentamo-vos
Um filme de morte: observai
Estas cenas que fragmentos de celulóide
Sem apoios nem taxas revelam.

Pedimos apenas o seguinte:
Toda a pastilha elástica deve ser colocada sob os assentos
Ou engolida rapidamente, todos os cartuxos de pipocas
Devem ser abandonados no vestíbulo. As portas
Permanecerão fechadas ao longo da representação. Por gentileza consultai
Os vossos programas: observai que
Não há saídas. Isto é uma precaução necessária.

Não procurai qualquer diálogo, ou qualquer
Som de voz humana: tivemos o cuidado
De sincronizar esta fita com
Guinchos de porcos, lento som de armas,
O afiado e amortecido estalido
De máquinas de chocolates vazias.
Repetimos: aqui não
Há saídas, guardas para subornar,
Janelas de casa de banho.

Não há fim para o filme a não ser
Que o fim seja vosso.
Apagai as luzes, lembrai
Ao operador a sua carteira profissional:
Sentai-vos para a frente, deixai o écran revelar
A vossa herança, a lógica do vosso destino.



Luís Quintais

terça-feira, 22 de março de 2011

O céu do Japão

Por estes dias, tenho pensado no senhor Sato. Conheci-o há dez anos, em Tocoxima, no Japão, no dia em que ele regressava ao Monte Bizan. Em 1945, enquanto soldado, avistara dali a explosão atómica sobre Hiroxima. Um homem magro e velho, com uma filha de quarenta anos pelo braço. Quando chega lá cima, ao alto do Monte, pára. Imaginara talvez que iria ser um grande momento, que iria ter alguma espécie de revelação, mas não é assim tão fácil. Uma confusão de palavras no peito. O horror, a juventude, o tempo que passa. A filha diz-lhe para ter calma. Sato faz que sim, e liberta-se da mulher. Olha para longe, para cima, como se o céu azul não fosse nem azul nem céu: um ecrã, imagens. Olhos fortes, a corajosa timidez dos japoneses, e um dos sorrisos mais sérios de que me lembro.
           
                                                           
Jacinto Lucas Pires

sexta-feira, 18 de março de 2011

Serei sincera. Não gostei. (Lola, Rainer Werner Fassbinder)



A poesia é sempre triste. A alma sabe mais do que a mente. O cabelo preso de lado. Uma mulher cai nos braços de um homem. Duas mulheres tomam chá. Duas mulheres rosadas da Prússia Oriental. Duas mulheres que fumam.

Sugiro que dê respostas precisas a perguntas precisas. Se quer saber a verdade, o que me interessa são as pequenas possibilidades. Pois a este respeito tenho lá minhas ideias e porque acho apaixonante.

Tenho fraqueza por chás exóticos, pela cor azul. Acende um charuto e me olha. Não conhecemos a natureza humana. Lola, este homem não é para você. Um beijo na mão é o mesmo que trinta garrafas de champanhe. Não entendo a maneira como ele pensa.

Uma questão de vida ou morte. Indiretamente. O dia não depende de minha aparência. Diretamente. Um homem no escritório. Uma mulher na cama. O homem acende o charuto e senta. A mulher mostra os dentes. Jogam xadrez. Serei sincera.

A mulher rosa de luvas brancas. De olhos grandes. Faz um pedido e prende a respiração.
Não olhe para trás. A magia mais difícil faço sozinha.

No banco do jardim. Outro cigarro. Outro cigarro. Outro cigarro. Por que a cidade não é boa para mim? Este véu em meu rosto. Este passear de língua nos lábios te deixam de olhos bem abertos. Talvez um dia descubra quem você é. Olha para cima. Enquanto descobre quase nada sobre mim.

A noite é igual ao dia. Quer minha ficha completa? Ou quer me beijar? O homem azul toca violino. O humanista toca na banda do bordel e mastiga alguma coisa.

Datilografo. Toda música tem um fim. Interesso-me por todas as paixões. Uso o cigarro para misturar o café.

Ela olha para ele. Ele olha para ela. Ela desvia o olhar. Ele desvia o olhar. Ele sai de cena. Ela não esquece a fala.

Por que só lê poemas tristes? Está roubando isso de um filme.


Valeska de Aguirre

quarta-feira, 16 de março de 2011

Dreams in a Time of War, A Childhood Memoir De Ngũgĩ Wa Thiong’o

                                                       Detalhe da capa "Dreams in a Time of War"

Nas revistas especializadas em literatura surgem semanal, mensal, trimestralmente críticas, resenhas e listas dos livros publicados durante o ano e daqueles que se prevê para a próxima temporada – todos, supostamente, para serem lidos –, há programas de Tv. que anunciam, com simpatia, livros e novos autores, centenas de links de livrarias e de editoras listam centenas, milhares de obras de literatura, as nossas bibliotecas enchem-se de livros, amontoam-se livros pelas casas, tantos que nunca leremos, e nos jornais saem críticas, resenhas, algumas até que pontuam com estrelas para nos facilitar, supõe-se, a economia das aquisições e, no meio de tantas obras, tantas vezes nos parece tudo tão igual, “tão do mesmo ou tão copiado”, com mais ou menos interesse. E eis que, de quando em quando, há a alegria da descoberta, a efusão do encontro, que passa rapidamente do secretismo da descoberta à difusão excessiva, compulsiva daquele livro, daquele autor. Sim, foi isso que aconteceu por estes dias, quando Dreams in a Time of War, A Childhood Memoir de Ngũgĩ Wa Thiong’o atravessou o atlântico norte e veio ocupar-me dias inteiros. De Ngũgĩ Wa Thiong’o diz-se que deve ser o próximo escritor africano  prémio Nobel da Literatura. Isto do prémio Nobel vale o que vale mas vale que é alguém que há muito tem uma escrita singular. Ngũgĩ Wa Thiong’o é keniano nascido numa região rural e quinto filho da terceira das mulheres de seu pai, ancião de um clã tradicional africano. Viveu parte da infância sob os efeitos da Segunda Grande Guerra em África, em particular nas colónias sob administração inglesa ou alemã. Este é, aliás, um dos aspectos mais fascinantes da obra, na maneira como o autor relata episódios vividos no seu clã – o recrutamento compulsivo de adolescentes para combater em África e na Europa contra os alemães, o cristianismo emergente e pouco pacífico entre as classes médias e os agricultores e pastores das zonas rurais, o ambiente escolar nas instituições implantadas fora da capital.


Ngũgĩ Wa Thiong’o faz um relato que combina, de um modo maravilhoso, a autobiografia com uma forte componente ensaística. Primeiro, porque a autobiografia não se centra no autor, é a biografia que inclui a família de composição complexa, o clã, os professores da escola, os vizinhos, é a biografia do “nós” por onde passa singelo o autor, e porque o ensaísmo é de análise histórica, um olhar sobre o passado a partir da análise informada que Ngũgĩ Wa Thiong’o acumulou ao longo de sessenta anos de vida. O outro lado do encantamento surge da enorme capacidade de perdão que o livro revela face a todos os colonialismos, cuja dureza e crueldade constituem a trama narrativa de um herói que cumpre o destino escolhido.


António Pinto Ribeiro